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Foto: Rafaella Pessoa
Foto: Rafaella Pessoa
Foto: Rafaella Pessoa

Rosângela Chaves em Dedo de prosa Jornalista e professora | Publicado em 12 de outubro de 2025

Rosângela Chaves
Jornalista e professora
12/10/2025 em Dedo de prosa

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“A literatura é o lugar de uma liberdade inegociável”

Uma das vozes mais expressivas da nova geração de poetas de Goiás, a escritora Fernanda Marra incursiona pelo terreno da prosa em seu novo livro, As tias. A obra, lançada pela editora Telaranha, é uma coletânea de contos em que as mulheres – tias, mães, avós, sobrinhas – são as protagonistas. Violência doméstica, relações familiares, a convivência entre vizinhos, a vida interiorana e o isolamento na metrópole são alguns dos temas das 13 narrativas e um prólogo que compõem a obra, em que Fernanda exercita uma escrita que combina experimentação, a tradição realista da literatura brasileira e elementos do realismo fantástico latino-americano. Psicanalista, mestre em Letras e Linguística pela UFG e doutora em Teoria Literária pela UnB, Fernanda publicou os livros de poemas taipografia (2019) e furonofluxo (2023) e colaborou em diversas revistas e antologias. Leia a seguir a entrevista que ela concedeu a Ermira Cultura.

Como nasceu a ideia de escrever As tias?  Os contos parecem dialogar entre si, ainda que tenham vozes e situações diferentes. Você pensou o livro como uma coletânea com textos independentes um dos outros ou como um mosaico de um mesmo universo?

Os contos são independentes e têm origens diversas. Alguns foram escritos há muitos anos e estavam guardados, porque nunca planejei publicar um livro de narrativas. Outros, como “Textamento” e “Kido”, resultam de minha colaboração com as antologias Cidade sombria e Cidade infundada, que reúnem contos ambientados em Goiânia. Escrever atendendo às propostas dessas antologias foi importante para desatar um processo de escrita que resultou neste livro.

Nesse movimento de escrever, acabei voltando a leitura para autores que ficaram um pouco escanteados na minha formação em virtude do meu interesse pela poesia. Mais tardias foram as leituras de Alice Munro, Silvina Ocampo e Mariana Enriques, por exemplo, que me despertaram para os contos. Recentemente foi um prazer o reencontro com a prosa desconcertante de Hilda Hilst e os contos de Lygia Fagundes Telles e Clarice Lispector, aos quais se somaram os de Lucia Berlim. Foram leituras que contribuíram com o crescente interesse pelas narrativas curtas e me ajudaram a experimentar essa outra forma.

Fui lendo e escrevendo o que me ocorria e notei que os textos eram motivados por reminiscências, cheiros, imagens, cenas que vinham de um certo período da vida, que me marcaram o corpo em determinado momento e que só encontraram caminho nessa forma. À medida que escrevia, comecei a perceber que uma história chamava outra, que certas marcas exigiam ser a matéria-prima. Um olhar lançado de determinado ponto enfeixa o livro. Nesse sentido, enxergo a coesão entre os textos, o alinhavo do que venho chamando de ponto sem nó e que faz do livro um mosaico do meu universo particular. Isso inclui, claro, os primeiros outros, que possibilitaram minha entrada no mundo, na cultura, na vida com seus contornos e assombros.

Por outro lado, há um aspecto superinteressante de um livro de contos que é essa independência entre as narrativas. Mesmo quando uma costura invisível as relança de uma a outra – e nisso, vejo essa forma se assemelhando ao poema – não se trata de um encadeamento novelesco. Se, de um lado, as histórias criam uma ambiência que dá a ver aquele universo, funcionam bem separadamente, com a coerência concisa e a pausa que o gênero requer.     

As mulheres – tias, avós, mães, sobrinhas – são o eixo do livro. Que tipos de relações e afetos você quis explorar nessa constelação feminina?

Tem algo que responde a isso no texto “Arremesso”, que abre o livro. Esse texto funciona como um prólogo e não é um texto assinado por mim, mas pela personagem Diana, que também comparece em outras histórias. O texto de Diana amarra o feixe e aponta de que perspectiva as histórias são narradas: uma mulher que se retirou precocemente da posição de criança e olhou para mundo com sua máscara de antiga.

Conforme as histórias apareciam para mim, percebia que os textos produziam uma orquestração em torno da casa, da alimentação e do corpo. Me vi criando histórias em torno desses temas e trazendo foco e protagonismo para personagens que têm uma existência um tanto lateral. As tias, como personagens deste livro, fazem, portanto, uma suplência. São mulheres que aparecem e podem ou não ocupar o lugar de uma ausência, são mulheres que, mesmo não sendo preparadas para isso, tomam frente e decidem por seus caminhos. Os contos são os desdobramentos possíveis de quando isso acontece. Instadas a tomar as rédeas de uma situação, as personagens não vacilam, elas agem. Seja para derramar o sangue com os próprios punhos, ou para limpar a sujeira dos outros, elas não se furtam de encarar desafios. Nesse sentido, talvez, as tias falem mesmo de uma ética, uma evocação da presença. As figuras femininas aparecem tanto como referência e chance, como lugar da diferença que funda pontos de vista.

Ao contrário do que se espera desse ambiente da casa, da família, da nutrição como um espaço de submissão e acolhimento, penso que os contos alargam contornos e instalam fronteiras, onde é preciso sustentar questões, estranhamentos, aberturas. Escrevo esses contos como quem cria essa suplência devolvendo ao adulto o seu lugar de esteio e, com isso, inventando também um lugar para o infantil que olhou o mundo de esgueiro e retraído, encaramujado pela pujança de uma cultura patriarcal.

Em contos como “As tias” e “Banho de folhas” há uma mescla de cotidiano e elementos quase míticos. O que lhe interessa nessa fronteira entre realismo e fabulação?

O que me interesse é a abertura que essa fronteira proporciona. Entendo, com Derrida, que a literatura é mesmo esse lugar onde tudo se pode dizer sobre qualquer coisa, como o lugar de uma liberdade inegociável, onde não cabe decidir entre um sentido ou outro, porque um e outro se admitem. A fronteira entre realidade e fabulação amplifica as possibilidades dos eventos que, na literatura, nunca se dão de uma vez por todas. A cada vez, vai-se em uma direção, de modo que a sobrinha alimentando o monstro da tia traz um efeito prismático à narrativa, que abre para a contribuição do leitor.

A mim, interessa essa abertura que a fabulação pode trazer para a realidade como uma chance de ser outra coisa, diferente do sentido que se cristalizou. A ideia de uma escrita da linguagem no corpo vem de uma orientação lacaniana e me impele a trabalhar com a hipótese de leituras que trazem consistência e lançam o corpo para dentro da cultura. A literatura é uma forma de lidar com essas marcas relendo-as, disseminando-as, possibilitando que digam outras coisas. A fronteira é o lugar do jogo literário por excelência. Ali, onde o prisma se mostra e a linguagem se desdobra, outras coisas também acontecem.   

O livro é ambientado em Goiás, tendo como cenário tanto Goiânia como o interior, mas não se restringe ao regionalismo. Como foi lidar com a paisagem e a cultura goianas na escrita desses contos?

Trazer o cenário para Goiás foi algo que aconteceu naturalmente, é, no fim das contas, o espaço que me constitui, que está imediatamente acessível para mim. Uma coisa curiosa é que o cenário de muitas histórias, na minha imaginação, não é Goiânia necessariamente, pois esse ponto de vista que enfeixa tudo e de onde as marcas ressoam cresceu em outras bandas.

Acredito que essa coisa do espaço aparecer de forma marcada também tem a ver com o exercício de escrever para as coletâneas Cidade sombria e Cidade infundada, cujas histórias deveriam ser ambientadas em Goiânia. Pensar sobre o espaço como elemento narrativo me fez atentar para a importância da descrição, da caracterização do ambiente para alcançar nuances das personagens e do enredo dos contos. Como se trata de narrativas curtas, foi crucial lançar mão desse recurso para alcançar certa densidade que pretendia.

 Você tem dois livros de poemas publicados, taipografia e furonofluxo, e este é o seu primeiro livro em prosa. Como foi essa transição na sua escrita e de que forma a poesia influencia a sua prosa?

Diria que se trata menos de uma transição que de um experimento, um exercício com a linguagem. Cada forma traz possibilidades diferentes de dizer e de fazer coisas com a língua. Entendi, com a escrita desses contos, que nem tudo cabe no verso. O que escrevi em taipografia e em furonofluxo está intimamente relacionado com o que aparece em As tias. Aprendi com Alejandra Pizarnik e Natalie Goldberg que a gente só escreve sobre nossas obsessões. Portanto, essa relação que envolve casa, corpo, família sempre comparece na minha escrita. A diferença está no que as formas proporcionam mais ou menos com seus recursos disponíveis. Podemos pensar, por exemplo, na escolha do foco narrativo, da descrição dos espaços, da caracterização de personagens, ou o corte do verso que, no poema, se vale de grafias e fonemas para esparramar sentidos. Vejo as formas como possibilidades, como caixa de ferramentas, ou cesto colorido de agulhas e linhas que possibilitam tecer e ir com a linguagem a lugares incomuns, dizendo o que, para mim, não cansa de não se escrever.

Livro: As tias

Autora: Fernanda Marra

Editora: Telaranha

Páginas: 176

Preço: 58 reais

Tag's: As tias, contos, Fernanda Marra, literatura goiana

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