[Curadoria de Luís Araujo Pereira; tradução de Daniel Arelli]
[1]
Abschied
Nun lasst mich, o schwebende Tage, die Hände Euch reichen.
Lhr entfliehet mir nicht, es gibt kein Entweichen
Ins Leere und Zeitenlose.
Doch legt eines glühenden Windes fremderes Zeichen
Sein Wehen um mich ; ich will nicht entweichen
In die Leere gehemmter Zeiten.
Ach, Ihr kanntet das Lächeln, mit dem ich mich schenkte.
Ihr wusstet, wie vieles ich schweigend verhängte,
Um auf Wiesen zu liegen, und Euch zu gehören.
Doch jetzt ruft das Blut, das nimmer verdrängte
Hinaus mich auf Schiffe, die niemals ich lenkte.
Der Tod ist im Leben, ich weiss, ich weiss.
So lasst mich, o schwebende Tage, die Hände Euch reichen.
Ihr verlieret mich nicht. Ich lass Euch zum Zeichen
Dies Blatt und die Flamme zurück.
Gedichte (1923-1926)
Despedida
Deixem-me dar-lhes a mão, dias etéreos.
Vocês não escapam, não há remédio
contra o vazio e o atemporal.
Mas um estranho sinal desta ardente brisa
me rodeia com seu sopro; não há saída
ao vazio de tempos bloqueados.
Vocês viram o riso com que me entreguei.
Sabiam o quanto eu, em silêncio, ocultei,
para deitar na relva e estar com vocês.
E agora o sangue, que nunca reprimi,
me chama ao barco que jamais conduzi.
A morte é na vida, eu sei, eu sei.
Deixem-me dar-lhes a mão, dias etéreos.
Vocês não me perderão. Como gesto
deixarei esta folha, esta flama.
Poemas (1923-1926)
⃰ ⃰ ⃰
[2]
Nachtlied
Nur die Tage laufen weiter,
Lassen unsere Zeit verstreichen.
Stets dieselben dunklen Zeichen
Wird die Nacht uns stumm bereiten.
Sie muss stets dasselbe sagen
Auf dem gleichen Ton beharren,
Zeiget auch nach neuem Wagen
Immer nur, was wir schon waren.
Laut und fremd verlockt der Morgen,
Bricht den dunklen stummen Blick
Gibt mit tausend neuen Sorgen
Uns dem bunten Tag zurück.
Doch die Schatten werden bleiben,
Um den Tag sich scheu zu schliessen,
Lassen wir auf raschen Flüssen
Uns zu fernen Küsten treiben.
Unsere Heimat sind die Schatten,
Und wenn wir zutiefst ermatten,
In dem nächtlich dunklen Schoss
Hoffen wir auf leisen Trost.
Hoffend können wir verzeihn
Allen Schrecken, allen Kummer.
Unsere Lippen werden stummer –
Lautlos bricht der Tag herein.
Gedichte (1923-1926)
Canção noturna
Seguem passando os dias,
nosso tempo corre assim.
Com seus escuros sinais
a noite nos cala, enfim.
Ela fala em um só tom
e tem uma só mensagem.
Pouco importa o quanto ousamos,
mostra nossa mesma imagem.
A manhã com seus ruídos
rompe os escuros olhares.
Com mil afazeres novos
dá um novo dia aos lares.
Mas as sombras permanecem
e esquivas fecham o dia.
Deixem-nos por rios céleres
deslizar até outras vias.
Nossa pátria são as sombras
e quando estamos cansadas
a noite e seu escuro colo
nos oferecem consolo.
Com esperança perdoamos
o pavor e a agonia.
Nossos lábios ficam mais mudos –
em silêncio irrompe o dia.
Poemas (1923-1926)
⃰ ⃰ ⃰
[3]
Fahrt durch Frankreich
Erde dichtet Feld an Feld,
flicht die Bäume ein daneben,
lässt uns unsere Wege weben
um die Äcker in die Welt.
Blüten jubeln in dem Winde
Gras schiesst auf, sie weich zu betten,
Himmel blaut und grüsst mit Linde,
Sonne spinnt die sanften Ketten.
Menschen gehen unverloren –
Erde, Himmel, Licht und Wald –
jeden Frühling neugeboren
spielend in das Spiel der Allgewalt.
Gedichte (1942-1961)
Viagem pela França
Campo a campo a terra densa
trança as árvores ao lado
deixa-nos abrir as sendas
na roça, no mundo largo.
Flores, flores na ventania
a grama vem abraçá-las
azula o céu, acena a tília
e o sol traça linhas largas.
Terra e céu, luz e floresta –
as pessoas vão serenas –
renascem na primavera
no jogo da força plena.
Poemas (1942-1961)
⃰ ⃰ ⃰
[4]
Goethes Farbenlehre
Gelb ist der Tag.
Blau ist die Nacht.
Grün liegt die Welt.
Licht und Finsternis vermählen
sich im Dunklen wie im Hellen.
Farbe lässt das All erscheinen,
Farben scheiden Ding von Ding.
Wenn der Regen und die Sonne
Ihrer Wolkenzwiste müde
noch das Trockne und das Nasse
in die Farbenhochzeit einen,
glänzet Dunkles so wie Helles –
Bogenförmig strahlt vom Himmel
Unser Auge, unsere Welt.
Gedichte (1942-1961)
A doutrina das cores de Goethe
O dia é amarelo.
A noite, azul.
Verde é o mundo.
Luz à treva se entrelaça
no claro, também no escuro.
Já a cor tudo atravessa
distingue as coisas do mundo.
E enfim o sol e a chuva
livres da plúmbea querela
unem o seco e o molhado
em casamento-aquarela
brilha o claro, brilha o escuro –
um arco raia no céu
nosso olhar, nosso mundo.
Poemas (1942-1961)
⃰ ⃰ ⃰
[5]
[Ohne Titel]
Ich seh Dich nur
wie Du am Schreibtisch standest.
Ein Licht fiel voll auf Dein Gesicht.
Das Band der Blicke war so fest gespannt,
als sollt es tragen Dein und mein Gewicht.
Das Band zerriss,
und zwischen uns erstand
ich Weiss nicht welches seltsame Geschick,
das man nicht sehen kann, und das im Blick
nicht spricht noch schweigt. Es fand
und sucht ein Lauschen wohl
die Stimme im Gedicht.
Gedicht (1942-1961)
[Sem título]
Te vejo apenas
como à escrivaninha paravas.
A luz acertava-te a face.
Tão firme nosso olhar se enlaçava
como se o meu e o teu peso carregasse.
Partiu-se o laço
e entre nós ressurgiu
não sei que porvir estranho
que não se pode ver, e que o olho
não fala nem cala. Mas sentiu
e procura uma escuta atenta
da voz dentro do poema.
Poemas (1942-1961)
Hannah Arendt nasceu em 14 de outubro de 1906, em Hannover, na Alemanha, e morreu em 4 de dezembro de 1975, em Nova York, nos Estados Unidos. Uma das vozes mais importantes e originais da filosofia no século XX, a pensadora de origem judaica escreveu obras fundamentais como Origens do totalitarismo (1951), A condição humana (1958) e Sobre a revolução (1963). Essa teórica notável da política também foi uma grande leitora de poesia, a ponto de dizer, em uma entrevista em 1964, que “a poesia tinha um enorme papel em sua vida”. De fato, seus trabalhos filosóficos se nutriram em diversas passagens dos versos de poetas como Hölderlin, Rilke, Brecht, W. H. Auden. Na intimidade, ela própria compôs, ao longo de sua vida, cerca de 70 poemas, os quais vieram a público somente depois de sua morte, primeiramente de forma esparsa, e depois reunidos em um volume intitulado Também eu danço, publicado na Alemanha em 2015, e cuja tradução brasileira, a cargo de Daniel Arelli, foi lançada no Brasil em 2023 pela Relicário, de onde foi extraída a seleção que ilustra esta coluna. Uma primeira fase dessa produção poética, de caráter mais lírico, data de meados da década de 1920, quando Arendt, ainda uma jovem e promissora estudante de Filosofia na Alemanha, manteve um profundo envolvimento intelectual e amoroso com seu mestre Heidegger. Os demais foram escritos entre as décadas de 1940 e 1960, período em que ela viveu a experiência de apátrida, testemunhou os horrores da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto, encontrou um novo lar nos Estados Unidos, após o período de exílio na França, e se tornou uma das mais célebres pensadoras de nosso tempo. Em uma anotação do seu Diário filosófico de agosto de 1969, Hannah Arendt escreve que “a metáfora é o que liga pensamento e poesia. Chama-se conceito em filosofia o que se chama metáfora em poesia. O pensamento cria seus ‘conceitos’ a partir do visível para caracterizar o invisível”. No diálogo entre poesia e filosofia, os versos de Arendt também podem ser vistos como uma forma de exercício daquela que ela dizia ser sua atividade preferida: o “negócio” de pensar. (Rosângela Chaves)





