[Coautora: Caroline S. dos Santos Guedes[1]]
A complexidade no trabalho de investigação dos processos inconscientes do psiquismo e sua relação com a formação do indivíduo expressa em seus comportamentos são um dos pilares da psicanálise. A análise é frequentemente associada à ideia de um tratamento sem fim, uma concepção que, em uma sociedade imediatista, pode gerar desconforto ou até rejeição. A busca por soluções rápidas e eficazes parece ser o caminho preferido em um mundo caracterizado pela agitação, pela sensação de atraso constante e pela idealização de vidas perfeitas, amplamente disseminadas nas redes sociais.
Freud (1927/1974, p.23) já apontava que “a vida, tal como a encontramos, é árdua demais, proporciona-nos muitos sofrimentos, decepções e tarefas impossíveis”. Esse sofrimento, no contexto contemporâneo, parece agravado pela busca de uma felicidade idealizada, frequentemente associada às imagens projetadas nas redes sociais. Nesse cenário, a demanda por atendimento psicológico tem crescido significativamente, mas a permanência dos pacientes em processos analíticos de longo prazo mantém-se como um desafio.
Bauman (2001) descreve a sociedade contemporânea como “líquida”, caracterizada por relações frágeis, fugazes e maleáveis, profundamente marcadas pela tecnologia. Essa descrição é particularmente pertinente à Geração Z, compreendida como os indivíduos nascidos entre 1995 e 2010, também conhecidos como nativos digitais. A relação intensa dessa geração com a tecnologia tem produzido sujeitos com dificuldades em desenvolver uma subjetividade sólida, frequentemente desconectados de relações significativas. A comparação constante, o consumismo exacerbado e a imersão em realidades paralelas digitais contribuem para um desenvolvimento psíquico fragilizado.
Nesse contexto, observa-se um aumento na procura por psicólogos e psiquiatras, que se tornam figuras indispensáveis. Contudo, a expectativa dos pacientes, especialmente da Geração Z, é por soluções tão rápidas quanto um clique, o que contrasta com a duração exigida pelo processo psicanalítico. A busca pelo autoconhecimento, comparada a uma viagem em busca do próprio eu, torna-se inviável para muitos, que preferem especular sobre as vidas idealizadas nas telas a investir tempo na introspecção.
Segundo Freud (1915/2010), o inconsciente é composto por desejos, conflitos e conteúdos reprimidos. Embora esses elementos permaneçam como fundamentos da psique, seus conteúdos sofreram transformações no contexto da Geração Z. Os conflitos emergem das comparações com padrões inatingíveis, enquanto a repressão dá lugar a uma liberdade desprovida de cuidado e afeto, contribuindo para o que se pode chamar de uma sociedade patológica.
Enquanto a psicanálise exige tempo, introspecção e um mergulho nos processos inconscientes, os jovens dessa geração, imersos em uma cultura digital imediatista, buscam soluções rápidas e superficiais para seus sofrimentos. A idealização de vidas perfeitas nas redes sociais e a fragilidade das relações líquidas descritas por Bauman reforçam uma subjetividade frágil e desconectada, distante da paciência e da profundidade exigidas pela análise. Assim, o desafio clínico persiste: como adaptar um método centenário a uma geração que valoriza a velocidade e a efemeridade, sem perder a essência transformadora do processo analítico? A reflexão permanece aberta, urgente e necessária.
Referências
BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2001
FREUD, S. O inconsciente. In: FREUD, Sigmund. Obras completas. v. 12. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
FREUD, S. O mal-estar na civilização. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de S. Freud. Tradução de J. Salomão. v. 21. Rio de Janeiro: Imago, 1974.
[Revisão de Maria Clara de Freitas Barcelos e Caroline Guedes. Revisão final e edição de Rosângela Chaves]
[1] Psicóloga, mestranda em psicologia pela UFMS. E-mail: carolineguedes.psic@gmail.com
O artigo é o 16° da oitava edição do Projeto Ensaios, um projeto de divulgação filosófica coordenado pelo professor Weiny César Freitas Pinto, do curso de Filosofia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em parceria com o site Ermira Cultura, que visa colocar em diálogo a produção acadêmica com a opinião pública por meio da publicação de ensaios. Até o dia 13 de dezembro, sempre aos sábados, serão publicados em Ermira textos de estudantes, pesquisadores e professores de diversos lugares do país, envolvendo diversas áreas do conhecimento, em diálogo com a filosofia. Confira os outros artigos publicados:
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- Meandros da antropologia brasileira, de Glícia Aparecida Gomes Souza e Priscila Lini.
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- “O Planeta dos Macacos”: uma reflexão foucaultiana sobre poder e sociedade , de Gabriel Filipe Rosa Alves e Jeferson Camargo Taborda.
- A extinção da verdade: inteligência artificial e a morte do real , de Kauê Barbosa de Oliveira Lopes e Weiny César Freitas Pinto.
- Notas sobre a psicanálise: quais são o potencial e os possíveis impactos de uma análise no sujeito?, de Khadija de Oliveira Moreira e Caroline S. dos Santos Guedes.
- Sísifo escolheu a pedra, de Orivaldo Gonçalves de Mendonça Junior e Antônio Carlos do Nascimento Osório.
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- Um disfarce para a violência?, de Maria Clara de Freitas Barcelos e Flávio Amorim da Rocha.
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- Você escreve decolonial ou de(s)colonial? Tem diferença?, de Felipe Gabriel de Angelo Batista e Jeferson Camargo Taborda.
- À sombra, a sombra e a sobra de Lombroso, de Viviane Burger Balarotti e Weiny César Freitas Pinto.
- A questão das “outras mentes” e a ética animal, de Francisco de Paula Santana de Jesus e Jonathan Postaue Marques.




