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Foto: Cassiano L. Fróes/Divulgação
Foto: Cassiano L. Fróes/Divulgação
Foto: Cassiano L. Fróes/Divulgação

Luís Araujo Pereira em Florações Professor e escritor | Publicado em 23 de novembro de 2025

Luís Araujo Pereira
Professor e escritor
23/11/2025 em Florações

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Cinco poemas de Leonardo Fróes

[Curadoria de Luís Araujo Pereira]

[1]

Interior

E como ao coração doesse tanto

o breve, despistante amor, fumaça

ou tiro nos espelhos, como espanto


e fúria se mesclassem num perfume

de dois, enquanto em face da mobília

o pó serpenteando sob o lume


vazava pelas frestas, como fora

da íntima penumbra transcorresse

o cínico espetáculo da história


em transe, como a calma não baixasse

nas almas, giro estanque, nem o rosto

vencido pelos beijos derrotasse


em nós aquele impulso, puro assombro

ou lúcida ilusão de eliminar-se

na esdrúxula alquimia de outro ombro –


– ficamos, imersão do corpo numa

pressão de inúteis fragas, simulando

conversas no vazio sobre alguma


matéria secundária. Às vezes, tarde

da noite, quando a lâmpada se alonga

e o ar balança vultos, nossa carne


cogita, o braço pende, o instinto erra

e o sonho deste ser que amamos finda,

madura aceitação, no amor da terra.

Lingua franca (1968)

⃰  ⃰  ⃰


[2]

Sono livre

Cada vida na varanda

quando eu deito na morte

irmão das almas


Calmas caras caladas

olham pelo travesseiro de banda

que é a minha nuca


A calma das caras loucas

imprime sentido a tudo

olhos estrelados

piscam no travesseiro-cérebro


Durmo na grade

do princípio obscuro,

vou virando pedra e livre

vou virando um cisco

Anjo tigrado (1975)

⃰  ⃰  ⃰ 


[3]

Leyenda

O urubu compadecido

disse que a mulher ioruba

era muito malvada

não ligava pro menino

que chorava o dedo

desastradamente cortado.

Mas o sapo atrevido

achou que ela era sábia

como todas as iorubas

costumavam ser.

Que o menino doesse,

pois não tinha jeito.

Esse mundo é o mais perfeito

para a gente chorar.

Assim (1986)

⃰  ⃰  ⃰


[4]

A very eventful life

Máscaras de máquinas endurecidas

paradas como estátuas numa exposição

de valores desertos porém ativos

como a dentição dos sorrisos

trocados, os juízos confusos

projetando conceituações camaradas


(máscaras de cama ou de câmera

contendo caras ameríndias

e a fama fria, rica, norte-americana

dos seus invejáveis retoques).

Argumentos invisíveis (1995)

⃰  ⃰  ⃰ 


[5]

Amor na moita

Enfiado na moita ele espiava a menina

pelada tomando banho no açude.

Uma gracinha. Rodeada de papiros

cujos penachos se dobravam na beira,

e com seios redondos como os seixos

que a água, massageando, endurece,

ela era um indicativo de calor saciado,

ora afundando, ora voltando à tona.


Mas na moleza morena dos seus pelos

havia um complicador que era a fome

de braços para massageá-la também, de

língua de homem que a lambesse e colasse

na sua pele tentadora, como,

sem que no plano consciente ela soubesse,

apesar do desejo que a inundava,

ele estava fazendo atrás da moita,


pensando nela, e nela, e nela, e nela.

Chinês com sono (2005)

Leonardo Fróes nasceu em Itaperuna (RJ) no dia 17 de fevereiro de 1941 e morreu em 21 de novembro de 2025, na cidade de Petrópolis (RJ). Morou em Nova York, Paris e Berlim, onde trabalhou em editoras. Foi editor, tradutor, jornalista e enciclopedista. Entre 1971 e 1983, assinou a coluna “Natureza”, no Jornal do Brasil. Tem o mérito de ser um dos primeiros a divulgar no Brasil a importância da ecologia. Viveu os seus últimos anos num sítio no interior do Rio de Janeiro. Como tradutor, verteu para o português dezenas de livros do inglês, francês e alemão, colocando o leitor brasileiro em contato com obras de Shelley, Goethe, Swift, Faulkner, Virginia Woolf, entre outros. Montanhista e naturalista amador, traduziu também livros de especialistas em ciências da natureza. Em 1996, foi premiado com o Jabuti de Poesia pelo livro Argumentos invisíveis. Além desse, recebeu também prêmios por tradução de diversas instituições culturais. Como poeta, publicou os seguintes livros: Língua franca (1968), A vida em comum (1969), Esqueci de avisar que estou vivo (1973), Anjo tigrado (1975), Sibilitz (1981), Assim (1986), Argumentos invisíveis (1995), Um mosaico chamado a paz do fogo (1997), Quatorze quadros redondos (1998), Chinês com sono (2005) e A pandemônia e outros poemas (2021). Em 2021, a Editora 34, de São Paulo, publicou sua poesia reunida (1968-2021). Cide Piquet, na apresentação, considera sua “poesia eminentemente reflexiva, mas sua reflexão não se dá apenas no plano mental ou discursivo, nem se restringe aos limites do ego. Melhor dizendo, trata-se de uma poesia meditativa, aberta a múltiplos atravessamentos. É como se, vinda da terra, dessa conexão mais funda do poeta com a natureza, ela passasse pelo corpo antes de chegar à linguagem. Daí, também, sua qualidade fortemente sensual ou sensorial”.

Tag's: Leonardo Fróes, poesia, poesia brasileira

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