[Curadoria de Luís Araujo Pereira]
[1]
Interior
E como ao coração doesse tanto
o breve, despistante amor, fumaça
ou tiro nos espelhos, como espanto
e fúria se mesclassem num perfume
de dois, enquanto em face da mobília
o pó serpenteando sob o lume
vazava pelas frestas, como fora
da íntima penumbra transcorresse
o cínico espetáculo da história
em transe, como a calma não baixasse
nas almas, giro estanque, nem o rosto
vencido pelos beijos derrotasse
em nós aquele impulso, puro assombro
ou lúcida ilusão de eliminar-se
na esdrúxula alquimia de outro ombro –
– ficamos, imersão do corpo numa
pressão de inúteis fragas, simulando
conversas no vazio sobre alguma
matéria secundária. Às vezes, tarde
da noite, quando a lâmpada se alonga
e o ar balança vultos, nossa carne
cogita, o braço pende, o instinto erra
e o sonho deste ser que amamos finda,
madura aceitação, no amor da terra.
Lingua franca (1968)
⃰ ⃰ ⃰
[2]
Sono livre
Cada vida na varanda
quando eu deito na morte
irmão das almas
Calmas caras caladas
olham pelo travesseiro de banda
que é a minha nuca
A calma das caras loucas
imprime sentido a tudo
olhos estrelados
piscam no travesseiro-cérebro
Durmo na grade
do princípio obscuro,
vou virando pedra e livre
vou virando um cisco
Anjo tigrado (1975)
⃰ ⃰ ⃰
[3]
Leyenda
O urubu compadecido
disse que a mulher ioruba
era muito malvada
não ligava pro menino
que chorava o dedo
desastradamente cortado.
Mas o sapo atrevido
achou que ela era sábia
como todas as iorubas
costumavam ser.
Que o menino doesse,
pois não tinha jeito.
Esse mundo é o mais perfeito
para a gente chorar.
Assim (1986)
⃰ ⃰ ⃰
[4]
A very eventful life
Máscaras de máquinas endurecidas
paradas como estátuas numa exposição
de valores desertos porém ativos
como a dentição dos sorrisos
trocados, os juízos confusos
projetando conceituações camaradas
(máscaras de cama ou de câmera
contendo caras ameríndias
e a fama fria, rica, norte-americana
dos seus invejáveis retoques).
Argumentos invisíveis (1995)
⃰ ⃰ ⃰
[5]
Amor na moita
Enfiado na moita ele espiava a menina
pelada tomando banho no açude.
Uma gracinha. Rodeada de papiros
cujos penachos se dobravam na beira,
e com seios redondos como os seixos
que a água, massageando, endurece,
ela era um indicativo de calor saciado,
ora afundando, ora voltando à tona.
Mas na moleza morena dos seus pelos
havia um complicador que era a fome
de braços para massageá-la também, de
língua de homem que a lambesse e colasse
na sua pele tentadora, como,
sem que no plano consciente ela soubesse,
apesar do desejo que a inundava,
ele estava fazendo atrás da moita,
pensando nela, e nela, e nela, e nela.
Chinês com sono (2005)
Leonardo Fróes nasceu em Itaperuna (RJ) no dia 17 de fevereiro de 1941 e morreu em 21 de novembro de 2025, na cidade de Petrópolis (RJ). Morou em Nova York, Paris e Berlim, onde trabalhou em editoras. Foi editor, tradutor, jornalista e enciclopedista. Entre 1971 e 1983, assinou a coluna “Natureza”, no Jornal do Brasil. Tem o mérito de ser um dos primeiros a divulgar no Brasil a importância da ecologia. Viveu os seus últimos anos num sítio no interior do Rio de Janeiro. Como tradutor, verteu para o português dezenas de livros do inglês, francês e alemão, colocando o leitor brasileiro em contato com obras de Shelley, Goethe, Swift, Faulkner, Virginia Woolf, entre outros. Montanhista e naturalista amador, traduziu também livros de especialistas em ciências da natureza. Em 1996, foi premiado com o Jabuti de Poesia pelo livro Argumentos invisíveis. Além desse, recebeu também prêmios por tradução de diversas instituições culturais. Como poeta, publicou os seguintes livros: Língua franca (1968), A vida em comum (1969), Esqueci de avisar que estou vivo (1973), Anjo tigrado (1975), Sibilitz (1981), Assim (1986), Argumentos invisíveis (1995), Um mosaico chamado a paz do fogo (1997), Quatorze quadros redondos (1998), Chinês com sono (2005) e A pandemônia e outros poemas (2021). Em 2021, a Editora 34, de São Paulo, publicou sua poesia reunida (1968-2021). Cide Piquet, na apresentação, considera sua “poesia eminentemente reflexiva, mas sua reflexão não se dá apenas no plano mental ou discursivo, nem se restringe aos limites do ego. Melhor dizendo, trata-se de uma poesia meditativa, aberta a múltiplos atravessamentos. É como se, vinda da terra, dessa conexão mais funda do poeta com a natureza, ela passasse pelo corpo antes de chegar à linguagem. Daí, também, sua qualidade fortemente sensual ou sensorial”.





