No novo livro de Luís Araujo Pereira, Raso quase fundo – que será lançado nesta quinta-feira, dia 27 de novembro, a partir das 18 horas, na Old Monkey Cervejaria, no Setor Sul –, o poeta duvida. Cogita. Que faço? Que sou? Sou raso? Sou fundo? Sou quase raso, quase fundo? O que é ser raso? O que é ser fundo? Passando do “eu sou…” para “as coisas acontecem”, temos o fazer poético, livre das identidades, da fixidez imaginária, quer o poeta saiba disso ou não. Sua inquietação se resolve no texto, em se fazer texto. Sua obra se completa na recepção do leitor, para que, socialmente, se dê a sublimação de que falava Freud. Nenhum poeta é obrigado a saber das tecnicalidades analíticas, mas de ingênuo o poeta nada tem.
É de caso pensado que Luís Araujo estruturou sua obra em “I”, o poema-prólogo da obra, em que anuncia sua dúvida:
Porque está escrito
a maior parte
dos meus poemas
é rasa
muitos poucos
porém
são fundos
Não sei
o que dizer
sobre esse
descompasso
Logos – o pêndulo
que me desnorteia
no seu pulsar
e no “II”, o poema-epílogo, retornando à questão:
Nunca pensei ser raso
ora, direis, fundo
– os opostos se atraem,
diz o vulgo
É por isso que
ao ter escrito
este pequeno livro
digo, sem pressa de dizer
:
Sem raso, sem fundo
só um inútil
book on the table
Se pensar for um descuido, e não por acaso, esses específicos versos não guardam títulos, meramente apresentados no índice como I e II.
Luís Araujo Pereira adora os tempos e as vivências que lhe restaram de sua estada em Paris, e talvez seja de lá que lhe sobrevenham os ecos de um quase Descartes: se duvido, penso. Se Descartes se contentasse em flagrar o Absoluto, teria parado por aí, o que não seria pouca coisa. Teria chegado à certeza absoluta, imune a qualquer tipo de dúvida, um vazio porto seguro para todo conhecimento futuro. Não precisaria nem da ajuda de Deus, blindado até mesmo contra a suposta malignidade divina, se ela se dispusesse a enganá-lo. O primeiro tempo do cogito é o porto seguro da ciência. Mas Descartes, no segundo tempo, deu o “mau passo”: se penso, existo. Fez depender a existência da consciência. Luís Araujo Pereira aproxima poesia e filosofia, mantém-se na dúvida produtiva, publica poemas, dá significados, vai além da pureza do cogito infalível e estéril. Se não publicasse, sua dúvida seria apenas improdutiva, fechada no “quem sou?”. Os significados “contaminam” a pureza da invenção cartesiana, o vazio de significações. É que não há saída, o homem não pode não significar.
Entre prólogo e epílogo, o poeta espalha suas preparações para o Nada, toda uma criação de expectativa que desemboca numa desacontecência, como no filme de Kubrick, De olhos bem fechados, como nas crônicas que ele próprio publicou no jornal O Popular, e agora publica em Ermira.
No final, depois do epílogo, e para que não restasse a menor dúvida, Luís Araujo ainda faz uma citação, o poema de Adília Lopes, “Um jogo bastante perigoso”, como se dissesse “olhaaí, cambada”: “Os poemas que escrevo/são moinhos/que andam ao contrário/as águas que moem/os moinhos/que andam ao contrário/são águas passadas” . Talvez Adília e Luís fossem solidários de uma topologia psicanalítica, que valoriza o tempo do só-depois, e que entende o depois como causa do antes. Topologia que bem nos ensinaria a apreciar questões de raso, de fundo, de superfície.
Freud já dizia que o órgão sexual por excelência é a pele, o que temos de mais superficial, o que nos envelopa, nosso ego. Lacan ensinava que o mais superficial é o mais profundo, deslocando as ideias fixas de raso e fundo. Afinal, perguntava, por que o celeiro seria menos verdadeiro que a adega? Nessa topologia sua de raso quase fundo, Luís Araujo repete suas acontecências-desacontecências, desdobradas numa linha tendenciosa quanto aos temas. Seus preferidos são, pela ordem quantitativa, os animais (Tom-Tom, o gato da casa, depois as cidades, em seguida a morte e a lua, as reflexões sobre poesia, mulheres, enigmas e outros mais esparsos). Entre surfista e mergulhador, de vez em quando dá uma dica, como em “DNA”:
O poema escreve-se
depois de muitos
bouleversements
na cabeça no lápis
no papel
e talvez no piso
onde os vestígios
da minha alma
vigiam-me
É assim que surgem
poemas aflitos
líricos tortos
cegos
que tropeçam
– rasos quase fundos –
versos capengas
poesia à deriva
que me devora
Vemos que o poema pode até nascer “no lápis”, esse objeto privilegiado, que excede em importância os “pixéis de felicidade/ que sobrevivem apenas/ na memória/ dos smartphones”, em “Diavolo”, já que, em “Objeto”, “O lápis pois é o meu ego”. Sorriso de Freud: o ego é apenas um objeto, entre outros.
Tom-Tom é o gato da casa. Daiane é a gatinha preta. Laika em meio a ganidos e gemidos de quem a soltou da guia e aí “veio uma caminhonete bastarda – e te matou”. Não pude impedir a lembrança de Iracema que “travessou contramão” no samba de Adoniran. São aracnídeos, irmãos de ofício, coruja no pio, libélula nas trevas, umidade do frescor da manhã, abelhas que adivinharam Tchernóbil e perderam a capacidade de voar, sapinho bonitinho, vaga-lumes dando sopa, escape das serpentes, para virar sapinho de bronze “peso dos meus papéis”. Sem falar nos camarões que “nada sabem dos relevos abissais” (ah, a certeza dos poetas…), como em “Oceano”, onde o mineiro de Pirapora vê nessas “Águas sempiternas” (o mar está pra peixe?) um mar (caso de amor dos mineiros) todo particular, onde “Cavalos-marinhos por sua vez escorregam em ondas indomáveis”. Inda bem que nesse mítico oceano sobrevive uma divindade degradada, sobrevive inda que no marketing, divertida.
Náufrago de um reino líquido
Netuno diverte-se com sardinhas
que um dia serão
Coqueiro ou Gomes da Costa.
Ternura para os animais, plantas e cidades, amizade que define uma linha de partilha, divisor de águas, como em “Manos”:
Pra honrar a verdade
são muitos os meus amigos
todos tortos mas certos
E essas mulheres
que sangram
se o batom
é muito vermelho
Em Província, a exigência da violência pura entre os vates que se desencontram, violência e estranhamento que, quem sabe, poderão diluir-se nos versos:
Toda vez
que eu sair à noite
vou levar no bolso
um soco-inglês
Cada dente
quebrado
– poeta de araque –
será mais uma nota
desafinada
na tua lira
“Academia” seria um hermético à clef?
O poeta Horácio não é sertanista
mas quando vai à floresta
onde vivem os vates selvagens
distribui Lucrécio ao longo da trilha
Entre tantos há dois apenas
– se quisermos contá-los –
que riem como os bobos
– são estes que vê com desprezo
Um condoreiro – baba na gravata
o outro cult – bate a testa na tevê
Porrada democrática, à esquerda e à direita, numa briga de cachorro grande, como em “Cartum”:
Nenhum stalinista
suporta a cruz
dos evangelistas
No entanto
se falo de Trótski
os filhotes de Stálin
começam
no mesmo instante
a pegar as mamadeiras
e a sair
de fininho
um por um
[O rabinho
escondido
nas fraldas]
Entre os herméticos, um me intriga, até mesmo pelo título, “d.C”:
No tormento do corpo retorcido
espero diferente do Homem do Madeiro
que a tua vida não tenha sido adormecida em vão
nem levantada tão alta que não possamos vê-la
espatifar-se como fruta madura sobre o tapete
que narra a tua vanglória, oh, reino ignoto
Posto que somos pó – e no pó nos reencontraremos
Exu da minha vida Mulher Maravilha
boy soprano que canta em Sol maior
Âmbar que aprisiona o inseto e a eternidade
viram-se como a luz diante da escuridão
sem ais nem Ur o tempo transbordou
e ambos foram tragados pelo Verbo
que tudo esboroa e tudo suprime
– tanto profeta quanto centurião
Deixemo-lo como está.
“Clichê”, depois de beijo voraz dos “lábios rapaces”, termina na “velha cantilena/: I love you”, que soa desinibidamente, não pra tocar no rádio, mas pra matar o tédio. “Aldeia” traz o seu périplo afetivo por seis cidades até que se sinta em casa:
Terrível tédio
o dia torna-se cego
o vinho vinagra
o relógio manca
Não sei se me exilo
não sei se me mato
não sei se te escrevo
com tinta de merlot
Mas se soubesse
algo do futuro
os meus últimos dias seriam
em cidades risonhas
onde o vinho decanta
o humor
Montevidéu Buenos Aires
Santiago Lima Paris Lisboa
[chez nous]
Não fica longe, por que procurar tanto, se o poeta já encontrou sua musa em “À coté”:
Ainsi
ferme les yeux
et dors
mon amour
Depuis des années
je comprends
malgré tout :
La femme
qu’est à coté de moi
c’est la Muse
des mes jours
Que o leitor decida se é raso, se é fundo, ou quase. O poeta é um privilegiado, pois tem um irmão, Laerte, de quem gosta muito, e aspira a ter também como irmão Graciliano Ramos (e é por isso que chamo de cabra da peste o mineiro de Pirapora), descobriu que sua mulher, ao lado, é sua musa, e – o que é decisivo – está em casa, chez soi, pelo saber-fazer com a língua.
Serviço
Lançamento do livro: Raso quase fundo, de Luís Araujo Pereira
Quando: 27 de novembro, quinta-feira, a partir das 19 horas
Local: espaço de eventos da Old Monkey Cervejaria – Rua 89, Q. F29, 642, Setor Sul
Ficha técnica
Livro: Raso quase fundo
Autor: Luís Araujo Pereira
Editora: Cavalo Azul
Páginas: 96
Preço: 50 reais





