A obra do filósofo francês Paul Ricoeur (1913-2005), Tempo e narrativa, publicada em três volumes entre 1983 e 1985, ajudou a redimensionar o papel da narrativa na produção do conhecimento histórico. A tese principal nessa obra é de que “o tempo torna-se tempo humano na medida em que está articulado de modo narrativo, e a narrativa alcança sua significação plenária quando se torna uma condição da existência temporal” (Ricoeur, 2010, p. 93).
Essa leitura de P. Ricoeur contrastava com a posição ainda forte na historiografia francesa de meados do século XX, qual seja, a narrativa seria secundária no ofício do historiador. Tratava-se de uma herança do modelo epistêmico da Escola Metódica do século XIX, a qual, sob inspiração dos princípios científicos do historicismo alemão, defendia a escrita apenas como registro da investigação empírica das fontes. Conforme Guy Bourdé e Hervé Martin (1983, p. 97), “A escola metódica quer impor uma investigação científica afastando qualquer especulação filosófica e visando a objetividade absoluta no domínio da história”.
A renovação proposta pela Escola dos Annales para a historiografia francesa a partir de 1929 apresentou a “história-problema” como uma alternativa ao modelo narrativo dos historiadores metódicos. Com a história-problema, a crença de que a narrativa registraria de modo cristalino o passado tal como ele aconteceu foi posta em dúvida. Passou a se admitir que é o historiador que constrói o seu objeto e que interroga o passado. O texto histórico seria o resultado da sua construção teórica, com o sujeito-historiador sendo o seu construtor: “A história-problema não trata de eventos, indivíduos e política, dados objetivamente, mas de estruturas, conjunturas, coletividades, massas, economias, sociedades e civilizações” (Reis, 2006, p. 19).
Mas, em meados do século XX, o modelo de história-problema começou a sofrer contestações em um cenário historiográfico que passou a repensar o significado da narrativa no ofício do historiador. Sintomáticas desse “repensar” foram as publicações das obras Meta-História (Hayden White) e A escrita da história (Michel de Certeau) no início dos anos 1970. Uma nova geração de historiadores avaliou a história-problema como uma análise lógico-estrutural de teor excessivamente abstrato, estático, sem eventos e sujeitos. E “espera-se da história uma relação mais estreita com o vivido, com o tempo, com os homens” (Reis, 2006, 20).
A publicação da trilogia Tempo e narrativa na primeira metade da década de 1980 se insere nesse cenário de debate historiográfico. Com base em uma análise da obra Poética, de Aristóteles, o filósofo Paul Ricoeur argumentou que a narrativa histórica seria uma poética, ou seja, uma intriga que faria surgir o inteligível do vivido acidental e o universal do fato particular: “o conceito de atividade mimética (mímesis) pôs-me na trilha da segunda problemática, a da imitação criativa da experiência temporal viva pelo viés da intriga” (Ricoeur, 2010, p. 56).
A articulação entre tempo e narrativa ocorreria por meio do círculo hermenêutico, através da mímesis I, a dimensão da pré-compreensão prática do mundo da ação, “de suas estruturas inteligíveis, de seus recursos simbólicos e de seu caráter temporal” (Ricoeur, 2010, p. 96); mímesis II, o reino metafórico do “como se”, ou seja, a operação de configuração, produzida por um autor, que imita e dá forma ao vivido através da intriga; e mímesis III, etapa em que a narrativa é recebida por um público. Nesse momento, a narrativa adquire seu sentido pleno, pois é restituída ao tempo do agir e do sentir do leitor: “O ato de leitura é assim o operador que une mímesis III a mímesis II. É o último vetor da refiguração do mundo da ação sob o signo da intriga” (Ricoeur, 2010, p. 132).
No entanto, em Tempo e narrativa Paul Ricoeur faz uma observação sobre essa discussão: a existência de duas classes de discursos narrativos, a narrativa de ficção e a historiografia, levanta uma série de questões, como a assimetria entre os modos referenciais da narrativa histórica e da narrativa de ficção. Entre esses dois tipos de narrativa, “somente a historiografia pode reivindicar uma referência que se inscreve na empeiría, na medida em que a intencionalidade histórica visa a acontecimentos que efetivamente ocorreram” (Ricoeur, 2010, p. 139).
Nesse caso, a narrativa histórica seria uma representação de fatos históricos construída pelo historiador, mas cujo aspecto ficcional seria limitado pela documentação e pela interpretação do leitor. E, nas mãos do público, a narrativa histórica seria lida e reinterpretada como uma referência na construção de sentidos para a existência humana no tempo.
[Exposição apresentada no Painel Ricoeur e a História, da Jornada Ricoeur UFMS, realizada no dia 25 de junho de 2024, na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande]
Referências
BOURDÉ, Guy e MARTIN, Hervé. As escolas históricas. Portugal: Fórum da História, 1983.
REIS, José Carlos. Tempo, história e compreensão narrativa em Paul Ricoeur. Locus – Revista de História, Juiz de Fora, v. 12, n. 01, p. 17-40, jan./jun. 2006.
RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa. 1. A intriga e a narrativa histórica. Tradução Claudia Berliner. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010.
[Revisão de Caroline Guedes e Maria Clara de Freitas Barcelos. Revisão final e edição de Rosângela Chaves]
O artigo é o 19° e último da oitava edição do Projeto Ensaios, um projeto de divulgação filosófica coordenado pelo professor Weiny César Freitas Pinto, do curso de Filosofia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em parceria com o site Ermira Cultura, que visa colocar em diálogo a produção acadêmica com a opinião pública por meio da publicação de ensaios. Confira os outros artigos publicados:
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