O recém-nascido estava abandonado num lote baldio, entre dejetos, aproximando-se da condição de um bicho. Como era de se esperar, chorava atormentado pela fome, pelas moscas, formigas e, pra piorar, pelo tempo ruim. Na vida urbana, era só mais um filhote entregue ao turbilhão das indecências humanas, que descartam bebês, largando-os à própria sorte.
No retorno do trabalho, o operário, ao passar por ali, ouviu um choro aflito que ele interpretou, por instantes, como a algazarra de uma gata no cio. Todavia, mais atento, distinguiu sem dificuldade, por ser evidente, a choramingação de um bebezinho.
Guiado pelo choro, conseguiu chegar ao local onde estava a criança, embrulhada em trapos de algodão, o rostinho redondo lembrando a feição de um oriental. Ele espantou as moscas e retirou, uma por uma, todas as formigas. Só não mudou o tempo.
Aí, lembrou-se de que logo adiante ficava um sindicato, no qual havia uma creche com atendimento de gente capacitada. Preocupado com o destino daquela criancinha, ele a levou.
“É seu filho?” – indagou com um risinho de ironia ao ver o bebê.
O operário, surpreso com a pergunta, respondeu:
“Não. Acabei de achá-lo aqui perto, largado no meio do mato.”
Pela urgência do atendimento, o pediatra foi chamado.
Como se sentia responsável pela criança, ficou no posto médico com as mãos no bolso da calça, aguardando e andando impaciente pelo corredor. Ele bem que gostaria de ter uma chance, suplicava o seu coração.
No apego à sua vida besta, monótona e previsível, alimentava a esperança de que o menino pudesse ser criado por ele. Afinal, não tivera filhos e fora a pessoa responsável pela descoberta do menino no monturo.
Duas horas depois de espera, a mulher do serviço social perguntou qual era o seu interesse:
“Bom, eu só achei ele, gostei dele e, se fosse possível, gostaria de ficar com o garotinho”.
“Ele vai permanecer internado até ficar saudável. É o que precisa ser feito de imediato. São as formalidades. Se você o quiser, vai ter de entrar com pedido de adoção.”
O operário morava sozinho, tinha uma casa simples e um emprego. Por tudo isso, passou a devanear com um filho. Na fábrica, o torno que castigava as mãos fora, nos últimos anos, a sua única vigilância. Um filho talvez aliviasse os seus vazios e desse novo sentido à sua vida simplória.
Enquanto organizava papéis para solicitar a adoção, perguntou várias vezes pelo menino na recepção.
“Está bem, cada dia melhor” – era sempre a resposta da atendente. Sentindo-se preterido, foi conversar novamente com a assistente social.
“É um menino branco, você sabe como é.”
Ele se revoltou, ofendido, diante do insulto. Como se entendesse tudo muito bem, retrucou:
“Quer dizer que eu não posso adotar ele? Só por que sou preto?”
“Não quero polêmica, mas esse caso foi entregue ao juizado de menores.”
O operário era forte, ombros esparramados, gestos nervosos e um torno no bíceps. Quando falava, gesticulando, as suas mãos pareciam pás esmagando ventos. Um peso-médio desperdiçado.
“Mas isso é sacanagem, fui eu que encontrei o menino!”
“O órfão está nas mãos da Justiça. Se o senhor insistir e quiser criar confusão, vou chamar a segurança.”
Sem se importar com os bons modos e tendo pouca tolerância com a burocracia, empurrou a mulher que só lhe criava embaraços, invadiu o berçário e foi buscar o menino. Na saída, nocauteou o segurança e espantou o vigia. Ninguém interviu.
Já bem adiante, em passos ligeiros, carregando a criancinha nos braços, o homem estava tão feliz e desinteressado de todos os seus problemas futuros, que chegou a pensar em montar na casa, pela primeira vez, uma árvore de Natal, a maior de todas, de modo que iluminasse a cidade inteira – e suas luzes fossem contempladas de longe, estrelas de uma noite de dezembro que brilham sobre os homens que ainda sonham.




