Kuarup e outros textos é o quadro vivo de uma existência sensível. Se Jheferson Rosa pretendia, como afirma na nota que precede os poemas do novo livro, oferecer variados matizes de sua produção para servir de aperitivo a um público amplo, terminou, sem prejuízo do objetivo inicial, por confirmar a própria identidade em versos de rara delicadeza. A obra será lançada nesta sexta-feira, dia 23 de janeiro, a partir das 18h30, na Livraria Tekoá, no Setor Sul.
Acima de tudo, a dicção confessional que envolve o livro permitiu ao autor, além de articular seus sentimentos imediatos, resolver o passado por meio da memória e se projetar no futuro com a imaginação. A detida investigação dos assuntos poéticos, entre os quais estão a viagem ao Chile com a esposa, as relações intrafamiliares, a história dos familiares, o monstro metafórico da morte, as casas em que residiu e a semiótica dos nomes das coisas, transforma o conjunto de textos em um meticuloso quebra-cabeças, cuja solução estampa a paisagem geral da experiência de um indivíduo no mundo, a quem apetece vasculhar os momentos da vida em busca de expressá-los, erguendo, ao fim da empreitada, os totens de uma mitologia particular.
Afinal, “só através do nome as coisas assumem memória/ e a memória é um lugar onde as coisas podem envelhecer/ sem nome”, muito embora “(me sinto vulnerável quando leem meus nomes)”. Assim se comunica a principal ferramenta poética de Rosa, o pacto autobiográfico, para abusar do conceito de Philippe Lejeune, urdido entre aquele que escreve, aquilo que é escrito e aqueles que leem, de maneira que os últimos são impelidos à aceitação plena da suposta sinceridade do primeiro, que não poupa a si, ou a diversas versões de si, do desvelamento emocional. Alguém, após virar a página final do livro, pode se convencer de que é amigo próximo do poeta, tão habituado estará ao repertório metafórico dele.
Por outro lado, não se trata apenas de um novo apanhado de poemas, mas do destino definitivo de algumas de suas criações mais interessantes, que antecedem, acompanham ou sucedem a escrita de Avião de papel (2021), Dança comigo enquanto eles dormem (2021) e Trote (2024). É que há uma seção inteiramente dedicada à reprodução dos fanzines que Jheferson Rosa publicou no curso de sua carreira literária, os quais deixam observar a formação gradual de um poeta. Nota-se que tamanha abrangência não desequilibra o tom da obra, já que oferece outra intimidade possível entre criador e interlocutor.
Por todas essas razões, Kuarup e outros textos funciona como uma antologia afetiva e autobiográfica. Não à toa, a ilustração da capa, assinada pela artista plástica Bruna Cruz, é uma composição de retratos do autor, formando uma espécie de álbum de fotografias ideal. A construção de uma mitologia pessoal (a partir do estudo da juventude, dos lutos, dos lares, das viagens e de outros objetos poéticos obsessivamente tratados na publicação) quer mostrar uma escrita que é rito de passagem, exorcismo, arquivo e casa, tencionando, sobretudo, reorganizar, ainda que provisoriamente, o caos por intermédio da linguagem.
Sim, ao longo das páginas, o leitor atento experimentará emoções insólitas, quase sempre pronunciadas com cadência original, o que as livra da impermanência das palavras rotineiras. O livro sai pelo selo de formação literária e publicação independente Lola Frita.
Serviço
Lançamento do livro: Kuarup e outros textos, de Jheferson Rosa
Quando: 23 de janeiro, sexta-feira, a partir das 18h30
Local: Livraria Tekoá – Avenida Cora Coralina, 140, Setor Sul
Ficha técnica
Livro: Kuarup e outros textos
Autor: Jheferson Rosa
Editora: Lola Frita
Páginas: 200
Preço: R$ 35





