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Imagem: Standard Station (Ed Ruscha, 1966)
Imagem: Standard Station (Ed Ruscha, 1966)
Imagem: Standard Station (Ed Ruscha, 1966)

Luís Araujo Pereira em Espirais Professor e escritor | Publicado em 25 de janeiro de 2026

Luís Araujo Pereira
Professor e escritor
25/01/2026 em Espirais

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Rato na gaiola

“Ainda falta muito?” – perguntou o cara que estava sentado no banco de passageiro, um tipo estranho, com olhar malévolo e tique nervoso no canto da boca.

Eu dirigia um Santana que sabia bravamente engolir quilômetros, um atrás do outro, como se as rodovias federais fossem o seu prato predileto.

Acho que ele perguntou por perguntar – uma curiosidade infantil dos viajantes, mesmo os que embarcam de carona. Como não percebi traço de animosidade em sua voz, respondi numa boa, fazendo brincadeira com um verso dos poetas árcades:

“Está vendo aquelas colinas, aqueles morros lá adiante?”

Em seguida, dei uma pausa – e completei com alguma precisão:

“A cidade fica logo depois, mais embaixo, uns cinco quilômetros, mais ou menos.”

Não me preocupei se ele prestou atenção ao que disse. Após essa explicação, passados alguns minutos, consultou o relógio. Pensando bem, talvez ele estivesse mesmo com pressa. 

Para colocar as coisas em seu devido lugar, não sei dizer quem é esse cara. Alguns quilômetros atrás, no posto da Texaco, ele me pediu carona enquanto eu pagava o frentista.

“O senhor está indo pra onde?” – indagou-me quando eu guardava o troco.

“Para o sul.”

Depois, examinei-o de alto a baixo. Apesar de achá-lo esquisito, não pensei que fosse um bandido mequetrefe, desses que andam pelas estradas assaltando motoristas.

“Você me dá carona até a próxima cidade?”

“Tudo bem, sem problema.”

Mais adiante, para diminuir a monotonia da viagem, perguntei-lhe o que fazia na vida. Ele foi evasivo:

“Não faço grandes coisas; um negocinho aqui, outro acolá – e assim vou levando.”

Num lampejo, tive a impressão de que o conhecia de algum lugar. Há duas coisas em que sou bom neste mundo: uma é lembrar de fisionomias; a outra, acertar um rato a mais de cem metros com um rifle calibrado.

Na barreira, parei o carro ao lado dos policiais e dei voz de prisão ao meu passageiro. Quando os seus dados apareceram no monitor, ficamos sabendo que o cara era um notável matador. Na sua doença ignóbil, assassinava agora advogados que incomodavam grileiros e madeireiros. Foragido da Justiça e acusado de um monte de crimes – o seu prontuário era um rolo de papel higiênico.

Para um agente da lei veterano como eu, que é honesto, trabalha duro, sofre de reumatismo e calibra os pneus do carro toda a semana, não existe nada pior do que um pistoleiro escapar das minhas algemas. Esse rato, ao contrário, caiu sem querer na minha gaiola. Um acontecimento pouco comum. Azar dele; sorte minha. Assim são as coisas.

Durante algum tempo, fiquei vendo-o sentado lá num canto, com as mãos presas às costas, à espera da viatura que viria buscá-lo. Estava triste e derrotado. Não tive pena dele.

Depois de muitos anos de atuação, um agente da lei fica com o couro grosso e passa a distinguir, num piscar de olhos, as pessoas que cheiram a urtiga das que são aromas de flores.

Tag's: conto, literatura, literatura goiana

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