Há pouco mais de dez anos, a banda Chá de Gim lançou Comunhão, que se firmou como um dos registros mais singulares da música autoral goiana. Através das oito faixas, em cada um dos 32 minutos de duração do álbum, pulsam utópicas e corajosas intenções de unificar gêneros e se expressar de maneira inovadora numa sociedade fragmentada. O retorno do grupo aos palcos acontece nesta sexta-feira, dia 27 de fevereiro, às 21h, no Estádio Olímpico Pedro Ludovico Teixeira, no Centro de Goiânia, em abertura ao show de Zeca Baleiro, dentro da programação do Claque Cultural.
O que a obra de estreia quis provar, e o fez com suficiência, foi a urgência de comungar, sobretudo na acepção de “tomar parte em; participar”, como esclarece o verbete do dicionário. Esse ímpeto dará origem a um universo sonoro em que é permitido amalgamar variadas referências, produzindo relações de som e sentido descentralizadas, com pouca hierarquia no horizonte sensível. Convém comentar brevemente a tracklist que sintetiza um inconformismo essencial.
Não à toa, a canção que abre o álbum, “Maracujá”, é um convite à meditação profunda que autoriza, ao ouvinte concentrado nas minúcias da vida, despertar de um sono alienante e observar a marcha louca do progresso com o distanciamento propiciado por delicados versos, que emergem da percussão opressora para dizer que “gente correndo de lá pra cá” jamais perceberá “o que de bom a vida tem pra dar”. É uma pílula zen que contrasta com “Samba Verde”, que opõe à violência cotidiana, refletida numa batida policial noturna, o grito da coletividade cuja “onda ninguém vai cortar”. Pontua-se a problemática repressão ao uso recreativo da maconha (“é muita lei pra eu decorar / nenhuma pra legalizar”), denunciando-a como verdadeira repressão à reunião – para não utilizar o sinônimo que intitula o disco – de pessoas comuns que, por se equilibrarem na corda bamba do dia a dia, anseiam pelo desestressar dos sentidos.
A fim de escancarar as portas da “percepção que abre as pregas do infinito”, há “Dropei”, espécie de exortação à lisergia. Instrumentos e letra celebram uma existência inconformada e convidam a enxergar mais beleza a partir de um espectro cromático mais colorido. A mensagem é inscrita no dístico “alucinar a ideia torta, a experiência / da pele a flor e dos sentidos a essência”. A rima, que aloca “essência” em “experiência”, quer mostrar a imprescindibilidade de extrair a primeira da segunda, isto é, de sugar o tutano da realidade.
Por sua vez, “Baião” não poderia explicitar mais o programa estético da Chá de Gim: “quando eu toco o meu baião / toco o baião com distorção”, conclui a voz poética após resumir de maneira mítica o surgimento dos sons brasileiros. Essa comunhão de sonoridades e referências aparentemente incongruentes, ora roqueirizando o regional, ora regionalizando o rock, reconstitui a antropofagia aperfeiçoada por expoentes do tropicalismo e do manguebeat. Um poeta português anunciou que “o universal é o local sem paredes.”
A complexidade de “Cordeiro do Mundo” é notável, na medida em que a canção traduz, por intrincadas sugestões religiosas, uma pertinente crítica social. No primeiro verso, a ríspida aliteração que se escuta no uso combinado de “trago”, “tato” e “contrato” evoca o impasse existencial parcialmente resolvido, na estrofe seguinte, pela assonância suave de “alma” e “calma”. Ouve-se um tensionamento melódico que conduz ao ápice da revolta contra os modernos vendilhões do templo, consubstanciada nos brados retumbantes de Judas! É tudo Judas! Tudo Judas! É tudo Judas! É, por assim dizer, Mateus 21:12 plugado no amplificador.
Depois de tamanha descarga energética e da reflexão trazida pelo interlúdio lírico de “A Benção”, escuta-se “Benzim”, que se mostra um passeio afetivo pelas ruínas de um relacionamento amoroso à beira do colapso. No caminho, imagens brandas (o retrato comprado num camelódromo qualquer, o cafuné praticado durante as músicas do Tom Zé, a farpa que não se tira com pinça) levam ao arremate lógico, à aceitação de que “a felicidade tem um lado oposto”.
Por fim, “Zé” confidencia uma discussão, quase como se o ouvinte não devesse presenciar conversa tão inflamada. Duas faces da mesma pessoa, ou dois companheiros inseparáveis, divergem em opiniões numa altercação violenta, a concluir pela minguada alteridade que rege as relações humanas. A marginalidade errante e a rotina conformada se estranham de novo, ao passo que a melodia conduz a uma tensão crescente. Talvez se trate do diálogo impossível com o reflexo no espelho, que responde o que não deve após ouvir o que não deseja.
A qualidade do álbum grassa na ousadia de misturar gêneros e nos retratos da experiência coletiva e da subjetividade ferida, abrindo espaço para celebração e questionamento. O recente single “Demita Seu Patrão” reafirma isso. Permanecem o vigor estético e a densidade crítica de Comunhão, a confirmar a proeminência da banda, que enriqueceu o boom criativo que renovou as artes goianas em meados de década de 2010. Seu retorno aos palcos é uma notícia auspiciosa.
Para ouvir Comunhão:
https://open.spotify.com/intl-pt/album/7HTeDNB90C10Xc72VFoi9O
https://www.youtube.com/watch?v=PvYnS5-B1s4&list=PL_CdFUrDtuWoemVfkauqaEYg3AsOV47bg
Para ouvir o single “Demita Seu Patrão”:
Serviço
Show: Chá de Gim
Quando: 27 de fevereiro de 2026, às 21h
Local: Estádio Olímpico Pedro Ludovico Teixeira – Rua 74, 41, Setor Central, Goiânia-GO
Entrada gratuita




