• Sobre Ermira
  • Colunas
    • Aboios
    • Arlequim
    • Arranca-toco
    • Chapadão
    • Chispas
    • Dedo de prosa
    • Errâncias
    • Especial
    • Espirais
    • Florações
    • Margem
    • Maria faz angu
    • Matutações
    • Miradas
    • Mulherzinhas
    • Projeto Ensaios
    • NoNaDa
    • Pomar
    • Rupestre
    • Tabelinha
    • Terra do sol
    • Veredas
  • Contribua
  • Colunistas
  • Contato
  • Instagram
  • Facebook
  • YouTube
  • Twitter

ERMIRA

  • Instagram
  • Facebook
  • YouTube
  • Twitter
  • Sobre Ermira
  • Colunas
    • Aboios
    • Arlequim
    • Arranca-toco
    • Chapadão
    • Chispas
    • Dedo de prosa
    • Errâncias
    • Especial
    • Espirais
    • Florações
    • Margem
    • Maria faz angu
    • Matutações
    • Miradas
    • Mulherzinhas
    • Projeto Ensaios
    • NoNaDa
    • Pomar
    • Rupestre
    • Tabelinha
    • Terra do sol
    • Veredas
  • Contribua
  • Colunistas
  • Contato
Foto: Melissa Guimarães
Foto: Melissa Guimarães
Foto: Melissa Guimarães

Luís Araujo Pereira em Florações Professor e escritor | Publicado em 23 de abril de 2021

Luís Araujo Pereira
Professor e escritor
23/04/2021 em Florações

  • Compartilhar no Twitter
  • Compartilhar no Facebook
  • Compartilhar no Google +
  • Compartilhar no WhatsApp
← Voltar

Cinco poemas de Micheliny Verunschk

[Curadoria de Luís Araujo Pereira]

[1]

todos os versos que quero escrever

todos os versos que quero escrever

já foram escritos por alguém

por poetas russas polonesas portuguesas canadenses


não sei

todo exílio cabe em uma paisagem insólita


tudo o que quero dizer já foi dito

mas o bedel impõe o seu próprio ritmo

escreva cinquenta vezes na lousa


é proibido atrapalhar a aula

é proibido atrapalhar a aula

é proibido atrapalhar a aula


mas tudo o que quero gritar

está contido no engasgo


a terra se penetra de terra

raízes penhascos pedras

a terra se penetra de terra

e vento e água e espécies nunca vistas a olho nu


é assim que palavra fronteira

passa a não fazer mais sentido algum


mas isso

tenho certeza

alguém já disse.

O movimento dos pássaros (2020)

• • •


[2]

às escuras

é preciso escrever o pouso

do mesmo modo

que se escreve o voo.


é preciso escrever o ninho

do mesmo  modo

que se escreve a árvore.


é preciso escrever a queda

do mesmo modo

que se escreve a curva.


é preciso escrever o ataque

do mesmo modo

que se escreve a perda.


é preciso escrever a ausência

do mesmo modo

que se escreve o pássaro.


é preciso sobretudo

escrever aquilo que você não sabe.

O movimento dos pássaros (2020)

• • •


[3]

um pouco depois, o nome

há uma dor

no centro da palavra

um novo corpo

irredutível em sua luz

manhã

ofuscante

que germina

e cresce

vertical

ou voa.


sístole e diástole

o seu nome arde.


você que se chama vento

não é você o assobio do vento

você que se chama cordilheira

não é você o caramujo

sob a sombra da pedra

você que se chama água

não é você o contínuo dos pingos

numa folha depois da chuva.


há uma música que nunca cessa

e a isso chamamos existência

mas o que não definimos

é o que melhor nos sabe.


um copo se partiu em infinitos estilhaços:

salamandras ou pássaros?

O movimento dos pássaros (2020)

• • •


[4]

gnus migram através do Serengeti

gnus migram através do Serengeti

borboletas monarcas aos milhões

atravessam as Américas

as renas percorrem mil quilômetros

para chegar ao norte

e o bobo-escuro

quase um albatroz

dá uma volta e meia no planeta

sessenta e três mil quilômetros em bater de asas

quase a mesma coisa que o trinta-réis do Ártico


só o homem

essa espécie estranha

feita de papel e assinaturas

entende o que é limite fronteira borda

só o homem

sabe o que é corrente cadeado corda

só o homem

essa espécie estranha

entende o que é polícia.

O movimento dos pássaros (2020)

• • •


[5]

roteiro

quando você anda pelas ruas

de uma grande cidade

São Paulo ou Nova York

Londres ou Cidade do México

com quantas cores você pinta seus pés?

quanto sangue você injeta no peito

quando calmamente coloca

aquele blues para tocar

no gramofone antigo e original

que comprou no Mercado Livre

e restaurou com um velho de sotaque

de algum dialeto russo que você

não sabe distinguir

porque a Rússia é muito longe daqui?

todos os dias você migra.

todos os dias você migra e nem se dá conta.

todos os dias procurando um refúgio

mais ou menos seguro

num país que não é o seu.

e no entanto

pés pintados

sangue traficado

você,

você mesmo

não passa de apenas mais um romano de livro didático

temendo pela invasão dos bárbaros

e sofrendo antecipadamente pela queda do império.

quando o meu avô

chegou a esse país

era para escravo

que o queriam

(como aos outros

antes dele)

esse sobrenome

que hoje carrego

pelos corredores da universidade

pelas calçadas de outono

com meu cachecol de tricô

e sobretudo profundamente azul

atravessou o mar

fugindo da fome

na velha Europa

(o mar

um vasto espaço

cercado de piolhos e cólera).

toda terra é feita dessa gente que se move.

O movimento dos pássaros (2020)

Micheliny Verunschk nasceu no dia 10 de julho de 1972 em Recife-PE. Graduou-se em história. É doutora em semiótica pela PUC-SP. Vive atualmente em São Paulo. Como poeta, escreveu Geografia íntima do deserto (2003, finalista do Prêmio Portugal Telecom de Literatura), O observador e o nada (2003), A cartografia da noite (2010), b de bruxa – bonnus bonnificarum (2014), maravilhas banais (2017) e o movimento dos pássaros (2020), os dois últimos editados pela martelo casa editorial, na coleção “cabeça de poeta”. Como romancista, é autora dos seguintes títulos: Nossa Teresa – vida e morte de uma santa suicida (2014, Prêmio São Paulo de Literatura), Aqui, no coração do inferno (2016), O peso do coração de um homem (2017), O amor, esse obstáculo (2018) e O som do rugido da onça (2021). Tem publicações em diversas antologias, impressas e eletrônicas. A sua literatura foi divulgada na França, em Portugal, no Canadá, na Espanha e nos Estados Unidos.

Tag's: martelo casa editorial, Micheliny Verunschk, o movimento dos pássaros, poesia, poesia brasileira

  • Rato na gaiola

    por Luís Araujo Pereira em Espirais

  • Do outro lado do rio

    por Rosângela Chaves em Dedo de prosa

  • A sensibilidade autobiográfica de Jheferson Rosa

    por Paulo Manoel Ramos Pereira em Veredas

  • Compartilhar no Twitter
  • Compartilhar no Facebook
  • Compartilhar no Google +
  • Compartilhar no WhatsApp

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site.

1 comentários em “Cinco poemas de Micheliny Verunschk”

  1. ANGELA disse:
    18 de dezembro de 2021 às 17:08

    Poemas maravilhosos. Leiam se for possível O SOM DO RUGIDO DA ONÇA. É emoção pura.

    Responder

Deixe um comentário (cancelar resposta)

O seu endereço de e-mail não será publicado. Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

ERMIRA
  • Instagram
  • Facebook
  • YouTube
  • Twitter