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Foto: Divulgação
Foto: Divulgação
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Luís Araujo Pereira em Florações Professor e escritor | Publicado em 18 de janeiro de 2026

Luís Araujo Pereira
Professor e escritor
18/01/2026 em Florações

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Cinco poemas de Adão Ventura

[Curadoria de Luís Araujo Pereira]

[1]

Preto de alma branca: ligeiras conceituações

o preto de alma branca

e o seu saco de capacho.


o preto de alma branca

e os seus culhões de cachorro.


o preto de alma branca

e a sua cor de camaleão.


o preto de alma branca

e o seu sujar na entrada.


o preto de alma branca

e o seu cagar na saída.


o preto de alma branca

e o seu sangue de barata.


cada vez mais distante

do corpo da Grande Mãe África.

A cor da pele (1980)

⃰  ⃰  ⃰


[2]

Meu pai

meu pai está velho

                 e cansado

em Serro ou em Soweto.


meu pai está velho

                  e cansado

ainda que faça sol

                  em Johanesburgo.


mas,

as suas mãos

ainda não estão

tão trêmulas,

a ponto de errar o corpo

de um Mr. Vorster.

A cor da pele (1980)

⃰  ⃰  ⃰


[3]

Origem

Vestir a camisa

de um poeta negro

– espetar seu coração

com uma fina

ponta de faca

– dessas antigas,

marca Curvelo,

em aço sem corte,

feito para a morte


– E acomodar

no exíguo espaço

de uma bainha

sua dor-senzala.

Texturaafro (1992)

⃰  ⃰  ⃰


[4]

Diário de Teodoro

– Foi quando senti dividirem meu corpo

em suásticas,

lâminas cortavam minha pele.

O sol desintegrava meus pés ante o pó

das estradas.


A fúria das palavras fazia

cegar os homens.

– seus chicotes classificavam

as carnes para o sacrifício.


Aí as palavras iam tendo vértebras nos

seus lençóis próprios, gerando gerais

comarcas de papéis que forçavam os

reis a reinarem nos seus séquitos de

súbitas samambaias.


A metade das montanhas apinhadas de

selos e brenhas

capitulava os voos dos pássaros

em suas moradas de origem.


Porque, na verdade, eu não possuía

mais a minha carta de alforria e todos

os mapas de identificação estavam

limitados às circunscrições de minha pele.


Tudo era começo

de um longo deserto

onde flores coloridas

anunciavam fluidos de um amargo sal.

Costura de nuvens (2006)

⃰  ⃰  ⃰


[5]

Poema

I

em batel

eu-pássaro

     em aço

redescubro a américa.


II

no mar, sepulto o túmulo

do teu rosto sobrevivente.


III

por

24 horas

cubro-me no atol

do mais puro sol.


IV

de espadachim

& lágrimas

financio o

meu próprio

aparta

     mento curvilíneo.


V

de escarpas

foi feito o

meu tapete.


VI

em lygia nascerá

uma flor supercolorida.


VII

o mundo mudou

suas aspas em asas

mas o tratado de Tordesilhas

é uma ilha fluor

      escente.

Outros poemas (1996-1987)

Adão Ventura nasceu em 1939, em Santo Antônio do Itambé (MG), e morreu em 2004 na cidade de Belo Horizonte, aos 65 anos. Na década de 1960, cursou direito na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)  e publicou seus primeiros poemas na revista literária da instituição e no Suplemento Literário de Minas Gerais, trabalhando nesse jornal como redator e revisor. Em 1973, foi convidado pelo diretor do Departamento de Português da Universidade de Indiana para lecionar literatura brasileira contemporânea na Universidade do Novo México. Nesse período, participou do Programa Internacional de Escrita (International Writing Program) promovido pelo Departamento de Letras da Universidade de Iowa. Em sua poesia reunida,  Fabrício Marques afirma que, “Quando retornou a Belo Horizonte, exatamente um ano depois, em 13 de janeiro de 1974, Adão estava transformado. Acompanhando de perto a luta por direitos civis dos negros, o contato com artistas e professores não só estadunidenses, mas de outros países, durante a estada nos EUA, abriu sua mente e seu coração e proporcionou a ele uma consciência aguda de suas raízes e da real condição do negro no Brasil e no mundo. Em outras palavras, como resultado dessa viagem, o poeta aprofundou a consciência política e a consciência afrodiaspórica, investindo ainda em uma consciência estética radicalmente diversa, na qual encontrou a melhor maneira de dizer sua visão de mundo em nova perspectiva, que seria, dali em diante, expressa em poemas concisos e contundentes, com vocabulário simples e direto. Foi um choque e tanto, mas teve tempo suficiente para colocar em forma de poema o que de fato sentira em vida até ali.” Escreveu os seguintes livros de poemas: Abrir-se um abutre ou mesmo depois de deduzir dele o azul (1970), As musculaturas do Arco do Triunfo (1975),  A cor da pele (1980), Jequitinhonha: poemas do Vale (1980-1997), Texturaafro (1992), Litanias de cão (2002), Duas vinhetas sobre uma viagem: África Austral (1990), Costura de nuvens (2006) e Outros poemas (1966-1987). Em outra fase de sua vida, durante os anos 1990, morou em Brasília por seis anos, onde presidiu a Fundação Palmares e empreendeu uma viagem a países da África Austral e outra à República do Senegal. Em 2025, pelo selo Círculo de poemas, da editora Fósforo (SP), com organização, posfácio e notas de Fabrício Marques, foi publicado A cor da pele: poesia reunida.

Tag's: Adão Ventura, literatura, literatura brasileira, poesia, poesia brasileira

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