[Curadoria de Luís Araujo Pereira]
[1]
Preto de alma branca: ligeiras conceituações
o preto de alma branca
e o seu saco de capacho.
o preto de alma branca
e os seus culhões de cachorro.
o preto de alma branca
e a sua cor de camaleão.
o preto de alma branca
e o seu sujar na entrada.
o preto de alma branca
e o seu cagar na saída.
o preto de alma branca
e o seu sangue de barata.
cada vez mais distante
do corpo da Grande Mãe África.
A cor da pele (1980)
⃰ ⃰ ⃰
[2]
Meu pai
meu pai está velho
e cansado
em Serro ou em Soweto.
meu pai está velho
e cansado
ainda que faça sol
em Johanesburgo.
mas,
as suas mãos
ainda não estão
tão trêmulas,
a ponto de errar o corpo
de um Mr. Vorster.
A cor da pele (1980)
⃰ ⃰ ⃰
[3]
Origem
Vestir a camisa
de um poeta negro
– espetar seu coração
com uma fina
ponta de faca
– dessas antigas,
marca Curvelo,
em aço sem corte,
feito para a morte
– E acomodar
no exíguo espaço
de uma bainha
sua dor-senzala.
Texturaafro (1992)
⃰ ⃰ ⃰
[4]
Diário de Teodoro
– Foi quando senti dividirem meu corpo
em suásticas,
lâminas cortavam minha pele.
O sol desintegrava meus pés ante o pó
das estradas.
A fúria das palavras fazia
cegar os homens.
– seus chicotes classificavam
as carnes para o sacrifício.
Aí as palavras iam tendo vértebras nos
seus lençóis próprios, gerando gerais
comarcas de papéis que forçavam os
reis a reinarem nos seus séquitos de
súbitas samambaias.
A metade das montanhas apinhadas de
selos e brenhas
capitulava os voos dos pássaros
em suas moradas de origem.
Porque, na verdade, eu não possuía
mais a minha carta de alforria e todos
os mapas de identificação estavam
limitados às circunscrições de minha pele.
Tudo era começo
de um longo deserto
onde flores coloridas
anunciavam fluidos de um amargo sal.
Costura de nuvens (2006)
⃰ ⃰ ⃰
[5]
Poema
I
em batel
eu-pássaro
em aço
redescubro a américa.
II
no mar, sepulto o túmulo
do teu rosto sobrevivente.
III
por
24 horas
cubro-me no atol
do mais puro sol.
IV
de espadachim
& lágrimas
financio o
meu próprio
aparta
mento curvilíneo.
V
de escarpas
foi feito o
meu tapete.
VI
em lygia nascerá
uma flor supercolorida.
VII
o mundo mudou
suas aspas em asas
mas o tratado de Tordesilhas
é uma ilha fluor
escente.
Outros poemas (1996-1987)
Adão Ventura nasceu em 1939, em Santo Antônio do Itambé (MG), e morreu em 2004 na cidade de Belo Horizonte, aos 65 anos. Na década de 1960, cursou direito na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e publicou seus primeiros poemas na revista literária da instituição e no Suplemento Literário de Minas Gerais, trabalhando nesse jornal como redator e revisor. Em 1973, foi convidado pelo diretor do Departamento de Português da Universidade de Indiana para lecionar literatura brasileira contemporânea na Universidade do Novo México. Nesse período, participou do Programa Internacional de Escrita (International Writing Program) promovido pelo Departamento de Letras da Universidade de Iowa. Em sua poesia reunida, Fabrício Marques afirma que, “Quando retornou a Belo Horizonte, exatamente um ano depois, em 13 de janeiro de 1974, Adão estava transformado. Acompanhando de perto a luta por direitos civis dos negros, o contato com artistas e professores não só estadunidenses, mas de outros países, durante a estada nos EUA, abriu sua mente e seu coração e proporcionou a ele uma consciência aguda de suas raízes e da real condição do negro no Brasil e no mundo. Em outras palavras, como resultado dessa viagem, o poeta aprofundou a consciência política e a consciência afrodiaspórica, investindo ainda em uma consciência estética radicalmente diversa, na qual encontrou a melhor maneira de dizer sua visão de mundo em nova perspectiva, que seria, dali em diante, expressa em poemas concisos e contundentes, com vocabulário simples e direto. Foi um choque e tanto, mas teve tempo suficiente para colocar em forma de poema o que de fato sentira em vida até ali.” Escreveu os seguintes livros de poemas: Abrir-se um abutre ou mesmo depois de deduzir dele o azul (1970), As musculaturas do Arco do Triunfo (1975), A cor da pele (1980), Jequitinhonha: poemas do Vale (1980-1997), Texturaafro (1992), Litanias de cão (2002), Duas vinhetas sobre uma viagem: África Austral (1990), Costura de nuvens (2006) e Outros poemas (1966-1987). Em outra fase de sua vida, durante os anos 1990, morou em Brasília por seis anos, onde presidiu a Fundação Palmares e empreendeu uma viagem a países da África Austral e outra à República do Senegal. Em 2025, pelo selo Círculo de poemas, da editora Fósforo (SP), com organização, posfácio e notas de Fabrício Marques, foi publicado A cor da pele: poesia reunida.





