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Foto: Raul Junior/Divulgação
Foto: Raul Junior/Divulgação
Foto: Raul Junior/Divulgação

Luís Araujo Pereira em Florações Professor e escritor | Publicado em 15 de fevereiro de 2026

Luís Araujo Pereira
Professor e escritor
15/02/2026 em Florações

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Cinco poemas de Carlos Machado

[Curadoria de Luís Araujo Pereira]

[1]

Registro de voo

eu quis desvendar

a face clara

do pássaro


descobrir

a astúcia do

crespo

na palma lisa

do vidro


surpreender

o avesso

onde o direito

não há

nem faz sentido


quis denunciar

no pássaro

outro pássaro

e em sua pele

outro vidro


consegui

um voo plúmbeo

de sol a solo

e uma ave

pousada com

o duro grão

de uma canção

no bico


conquistei

um pássaro

despertencido

uma ave

rara feita de

dúvidas

água e vidro

Pássaro de vidro (2006)

⃰  ⃰  ⃰


[2]

Olho

Existe um primeiro

tempo do olho. É

quando as coisas têm

contornos firmes e

cada mirada é flecha

no alvo, cristal perfeito,

cálculo exato. E tudo

que se vê pertence à

cumplicidade do sonho.


Depois vem outro

tempo do olho, um

calendário de brumas.

É quando as facas

perdem seus gumes,

os sóis se recolhem

ao rastro indeciso

dos vaga-lumes e as

certezas bruxuleiam.


Não falo, claro, do

olho oftálmico, mas de

outro olho mais dentro,

mais no centro da

tempestade. Aquele

olho que percebe a

direção dos ventos mas

já não crê na exatidão

dos cálculos nem nas

certezas afiadas em

pedras de amolar.

Tesoura cega (2015)

⃰  ⃰  ⃰


[3]

Cidades

Sodoma Hiroshima

Gomorra Nagasaki


Que nome têm vossos crimes?

Quais os pecados fatais

de vossos réus-cidadãos?


Que coisas abomináveis

fizeram vossas crianças?

A mulher de Ló (2018)

⃰  ⃰  ⃰


[4]

Estrada velha de São Félix

Pedras do tempo do império,

respondei-me:

quanto sangue bebestes

quantas mãos escalavrastes

em vosso duro minério?


Aí estais, pedras mudas,

deslembradas dos homens

descendo

e subindo a serra

pedestres

ou no lombo de alimárias.


Lisas

embriagadas de tempo

aí estais em silêncio

limpas de toda a História.


A chuva e a lixa

dos séculos

varrem de vossa face

a marca do que passou:

casco de burro

rastro de besta-madrinha

pé ressequido

de homem escravizado.


Passa o muladeiro

e com medo

se benze para a santa-cruz.


Passa o viajante

perdido nos côncavos

da alma.


Vós os vistes

– cativos e senhores

feitores e malfeitores –

e tocastes

com as patas das bestas

a música do ferro.


Pedras da estrada velha:

vistes e ouvistes

– mas esquecestes.

Cicatrizes (2023)

⃰  ⃰  ⃰


[5]

Chispas

Os verbos se liquefazem

na fogueira do verão.

O excesso de luz, a ausência


quase feroz de fronteiras

(entre o que brilha e o que apenas

reflete chispas de estrelas)


prendem as asas da morte

com laços de claridade.


E somos eternos. Sim,

somente por uma tarde.

Cais da memória (2024)

Carlos Machado nasceu em Muritiba (BA) em 1951. Cursou Engenharia Mecânica na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e jornalismo na Faculdade Cásper Líbero de São Paulo. Desde 1980, reside na capital paulista. É jornalista, especializado em informática, tendo trabalhado em diversos veículos de comunicação. Desde 2002, edita na internet o site Alguma poesia e a página poesia.net. Publicou os seguintes livros de poemas: Pássaro de vidro (2006), Tesoura cega (2015), A mulher de Ló (2018), Cicatrizes (2023), Cais da memória (2024) e ainda o livro infantojuvenil Cada bicho com seu capricho (2006). Em 2025, a Editora Cavalo Azul publicou a antologia Vieram me chamar para ver o anjo, organizada pelo poeta, professor e crítico literário Alexandre Bonafim, que, no prefácio, considera que “Seus livros formam uma constelação em que memória, mito, cidade, corpo e história se entrelaçam em múltiplos registros existenciais, sociais, filosóficos e éticos. O eu lírico quase sempre fala a partir da experiência concreta do presente, mas, em muitas situações, é também atravessado por forças ancestrais e simbólicas que expandem sua visão. Cada volume amplia e desdobra questões que percorrem toda a sua trajetória: o tempo em suas diversas faces, o olhar como gesto de conhecimento e suspeita do real, a memória como energia individual e coletiva, a violência como marca histórica, a palavra como ofício e destino. Esses elementos se revezam em um movimento contínuo de variação, no qual cada imagem reencontra outra sob nova luz expressiva e semântica. Tal efeito gera uma poética que pensa em redes, tecendo vínculos entre o íntimo e o ancestral, o cotidiano e o mítico, a linguagem e a realidade concreta, ocupando um lugar singular na literatura brasileira contemporânea” (p. 14).

Tag's: Carlos Machado, poesia, poesia brasileira

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