[Curadoria de Luís Araujo Pereira]
[1]
Registro de voo
eu quis desvendar
a face clara
do pássaro
descobrir
a astúcia do
crespo
na palma lisa
do vidro
surpreender
o avesso
onde o direito
não há
nem faz sentido
quis denunciar
no pássaro
outro pássaro
e em sua pele
outro vidro
consegui
um voo plúmbeo
de sol a solo
e uma ave
pousada com
o duro grão
de uma canção
no bico
conquistei
um pássaro
despertencido
uma ave
rara feita de
dúvidas
água e vidro
Pássaro de vidro (2006)
⃰ ⃰ ⃰
[2]
Olho
Existe um primeiro
tempo do olho. É
quando as coisas têm
contornos firmes e
cada mirada é flecha
no alvo, cristal perfeito,
cálculo exato. E tudo
que se vê pertence à
cumplicidade do sonho.
Depois vem outro
tempo do olho, um
calendário de brumas.
É quando as facas
perdem seus gumes,
os sóis se recolhem
ao rastro indeciso
dos vaga-lumes e as
certezas bruxuleiam.
Não falo, claro, do
olho oftálmico, mas de
outro olho mais dentro,
mais no centro da
tempestade. Aquele
olho que percebe a
direção dos ventos mas
já não crê na exatidão
dos cálculos nem nas
certezas afiadas em
pedras de amolar.
Tesoura cega (2015)
⃰ ⃰ ⃰
[3]
Cidades
Sodoma Hiroshima
Gomorra Nagasaki
Que nome têm vossos crimes?
Quais os pecados fatais
de vossos réus-cidadãos?
Que coisas abomináveis
fizeram vossas crianças?
A mulher de Ló (2018)
⃰ ⃰ ⃰
[4]
Estrada velha de São Félix
Pedras do tempo do império,
respondei-me:
quanto sangue bebestes
quantas mãos escalavrastes
em vosso duro minério?
Aí estais, pedras mudas,
deslembradas dos homens
descendo
e subindo a serra
pedestres
ou no lombo de alimárias.
Lisas
embriagadas de tempo
aí estais em silêncio
limpas de toda a História.
A chuva e a lixa
dos séculos
varrem de vossa face
a marca do que passou:
casco de burro
rastro de besta-madrinha
pé ressequido
de homem escravizado.
Passa o muladeiro
e com medo
se benze para a santa-cruz.
Passa o viajante
perdido nos côncavos
da alma.
Vós os vistes
– cativos e senhores
feitores e malfeitores –
e tocastes
com as patas das bestas
a música do ferro.
Pedras da estrada velha:
vistes e ouvistes
– mas esquecestes.
Cicatrizes (2023)
⃰ ⃰ ⃰
[5]
Chispas
Os verbos se liquefazem
na fogueira do verão.
O excesso de luz, a ausência
quase feroz de fronteiras
(entre o que brilha e o que apenas
reflete chispas de estrelas)
prendem as asas da morte
com laços de claridade.
E somos eternos. Sim,
somente por uma tarde.
Cais da memória (2024)
Carlos Machado nasceu em Muritiba (BA) em 1951. Cursou Engenharia Mecânica na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e jornalismo na Faculdade Cásper Líbero de São Paulo. Desde 1980, reside na capital paulista. É jornalista, especializado em informática, tendo trabalhado em diversos veículos de comunicação. Desde 2002, edita na internet o site Alguma poesia e a página poesia.net. Publicou os seguintes livros de poemas: Pássaro de vidro (2006), Tesoura cega (2015), A mulher de Ló (2018), Cicatrizes (2023), Cais da memória (2024) e ainda o livro infantojuvenil Cada bicho com seu capricho (2006). Em 2025, a Editora Cavalo Azul publicou a antologia Vieram me chamar para ver o anjo, organizada pelo poeta, professor e crítico literário Alexandre Bonafim, que, no prefácio, considera que “Seus livros formam uma constelação em que memória, mito, cidade, corpo e história se entrelaçam em múltiplos registros existenciais, sociais, filosóficos e éticos. O eu lírico quase sempre fala a partir da experiência concreta do presente, mas, em muitas situações, é também atravessado por forças ancestrais e simbólicas que expandem sua visão. Cada volume amplia e desdobra questões que percorrem toda a sua trajetória: o tempo em suas diversas faces, o olhar como gesto de conhecimento e suspeita do real, a memória como energia individual e coletiva, a violência como marca histórica, a palavra como ofício e destino. Esses elementos se revezam em um movimento contínuo de variação, no qual cada imagem reencontra outra sob nova luz expressiva e semântica. Tal efeito gera uma poética que pensa em redes, tecendo vínculos entre o íntimo e o ancestral, o cotidiano e o mítico, a linguagem e a realidade concreta, ocupando um lugar singular na literatura brasileira contemporânea” (p. 14).





