Naquela noite, a insônia convidou todos os diabos para uma festa na minha cama. Por causa desse ataque noturno, desci os dois andares do meu prédio, fiz num instante – o frio era de lascar a pele – o percurso pela quadra e cheguei esfregando as mãos ao La Chope, na esquina da Praça de la Contrescarpe. Quando abri a porta, uma lufada de vozes e fumaça quase me nocauteou. No fundo, uma jukebox expelia uma canção francesa que mal se destacava no burburinho. Devia passar da meia-noite. Como de costume, o bar estava animado.
Tive sorte de encontrar um lugar no balcão. O garçom disse o preço da dose do armanhaque e entreguei-lhe o dinheiro. Provei a bebida e senti um grande acolhimento. Um conforto, só isso, que o sabor do destilado proporciona aos que estão insones na noite.
Apoiado na madeira escura, no momento em que comecei a examinar o ambiente, um homem aproximou-se e fez-me a pergunta, tão imprevisível quanto inusitada.
“Escusez-moi, monsieur, venez-vouz de quel pays ?”
Não respondi. Eu nunca gostei de ser incomodado quando estou sozinho num bar. Fiz de conta que não era comigo emitindo um sinal com o ombro e, para não ser completamente rude, ofereci-lhe um dos meus cigarros.
Em contrapartida, ao meu lado, intrometendo-se, um casal sorriu, e a mulher disse – o bom humor francês:
“Parece que vamos ter uma aula de geografia!” – e piscou em seguida para o seu parceiro, que emitiu um sorriso debochado, divertindo-se com a situação.
A brincadeira do casal afugentou o homem.
À direita, na parte mais ampla do bar, vi uma mesa na qual havia uma loura cujos ombros voluptuosos estavam cobertos por uma echarpe lilás. Eu não conseguia ver o seu rosto, apenas as suas mãos que se movimentavam com elegância à medida que tagarelava.
Em outra direção, mais próximo de mim, notei um grupo que se comunicava em uma língua cuja pronúncia não reconheci de imediato. Algum tempo depois, prestando mais atenção, percebi que falavam russo e não escondiam a alegria de estarem juntos.
No meu terceiro armanhaque, o homem retornou:
“Excusez-moi, monsieur, venez-vouz de quel pays ?”
Só nesse momento, prestei atenção ao homem que me fazia a mesma pergunta pela segunda vez. De forma miserável, estava agasalhado com uma velha jaqueta, as calças sujas, os sapatos rotos, as mãos trêmulas. Tudo nele indicava o assombro dos que foram humilhados. De seu rosto sobressaía, por fim, uma expressão que a gente só encontra nas pessoas que perderam a esperança. E, mais uma vez, afastou-se rapidamente. O casal que se divertira com ele ocupava agora uma mesa.
Na primeira oportunidade, indaguei ao garçom quem era aquele senhor que me interpelara duas vezes.
Como se estivesse acostumado a uma curiosidade turística, disse-me que era um homem sem memória, que tinha vindo de um continente distante, que procurava reencontrar na pergunta que fazia o nome do país que esquecera. Para encerrar a sua informação, resumiu ele, como se essa frase explicasse o sentido de uma vida:
“É apenas um homem desmemoriado, que aparece por aqui de vez em quando e sai pelo bar fazendo a mesma pergunta, à procura do nome do seu país.”




