Hoje, decorridos tantos anos, pensando naquele verão que vivi intensamente, a grande casa não parecia lúgubre ou malévola, embora aquela janela misteriosa, na fachada esquerda, quase encoberta pelos galhos de uma árvore frondosa, nos causasse certos receios e sobressaltos.
Naquele tempo, éramos apenas uns pobres meninos que nada sabíamos do mundo. Para nós, a vida era feita de passeios diários pelos campos, quando procurávamos frutos silvestres e ninhos de passarinhos, além de fazermos explorações pela mata e caminhadas pelas margens do córrego, o qual, sinuoso, entoava uma melodia murmurante ao longo de suas águas límpidas, sob o encanto do nado ligeiro de peixinhos. Depois, atingíamos o poço onde nadávamos felizes. A cada incursão, formávamos um bando de meninos folgados.
Como muitas crianças, tínhamos medo do desconhecido, do vento, da noite, das enchentes, dos relâmpagos e da janela fechada do casarão que se localizava na parte alta da cidade. A passagem diante dessa construção antiga era obrigatória, porque nos conduzia aos lugares mais emocionantes de nossas explorações. Por causa de seu aspecto soturno, ela nos infundia um autêntico terror gótico.
Era o casaréu de um povo muito branco e extinto, agora abandonado e praticamente destruído. A fachada dianteira até que estava bem preservada, assim como parte do seu telhado. As construções laterais, porém, tanto a da esquerda quanto a da direita, ambas, sucumbiam ao abandono: enormes fendas – que iam do piso ao teto – mostravam a estrutura interna, como intestinos carcomidos, onde a argamassa, o tijolo e a madeira desfaziam-se sob a impiedade do tempo. Aquela janela, bastante preservada não sei por que, sempre atraiu o meu olhar, visto que o conjunto de sombra e abandono lembrava-me, de algum modo, a vida que se abria outrora para a parte baixa da cidade, onde residiam os menos favorecidos que gostavam de admirar o esplendor do casarão que se impunha na parte alta.
Essa janela, construída por um artesão extremamente habilidoso, ainda mantinha os seus entalhes e as suas inscrições em alto-relevo, resguardando toda a sua antiguidade – para não dizer toda uma concepção estranha de arte oriunda de uma terra distante.
Uma vez, naquelas férias, depois de termos permanecido a tarde inteira nos arredores, sob o apelo da natureza, esquecemos a hora, porque era uma tarde encantadora e nada nos obrigava ao retorno. Quando o sol aproximou-nos da noite, percebemos que a nossa folga havia terminado, sem que nos déssemos conta. Decepcionados, tínhamos que retornar. Ali, naqueles arredores verdejantes, o tempo parecia transcorrer de outro jeito, mais lento, rastejante.
No caminho de volta, ao passarmos diante do casarão, contive o susto escandaloso e guardei somente para mim o que vi. Também não comentei nada, mesmo quando já estávamos sob o abrigo de nossas casas na parte baixa.
Entre todos os meninos, fui o único a olhar em direção à janela. Até hoje, não tenho certeza do que vi, mas tive a nítida impressão de que, sob a luz tênue da lua, a janela abriu-se espontaneamente – e uma mulher apareceu na moldura olhando fixamente para mim. Também não sei se o movimento que ela fez com o braço diáfano foi um recado ou o esboço de um signo, cujos significados de ambos desconheço.
Não sei a razão de eu ter sido o único do grupo a enxergar esse espectro e ter contato com o sobrenatural. Mas, diante da oportunidade que tive de fazer, naquele início de noite, contato com o mundo dos espíritos, lamento até hoje a minha total incompetência para conversar com almas penadas ou de entendê-las – mesmo as mais brancas e translúcidas, que talvez nem exijam missas.




