[Curadoria de Luís Araujo Pereira]
[1]
Schlesiches Tor
É domingo ainda e chove ainda
num vago jardim perdido.
Fora de mim qualquer coisa em mim finda
como em alguém desconhecido.
Como se fosse domingo
no desfeito sonho de alguém
sonhando comigo,
lembro-me (quem?)
de outro jardim, de outro domingo,
indistintamente existindo,
como eu próprio, em mim.
Agora em que jardim
alheio e indiferente
chove em mim para sempre?
Também eu sou outro
transportando um morto.
Nenhum sítio (1984)
⃰ ⃰ ⃰
[2]
[Lugares da infância]
Lugares da infância onde
sem palavras e sem memória
alguém, talvez eu, brincou
já lá não estão nem lá estou.
Onde? Diante
de que mistério
em que, como num espelho hesitante,
o meu rosto, outro rosto, se reflecte?
Venderam a casa, as flores
do jardim, se lhes toco, ficam hirtas
e geladas, e sob os meus passos
desfazem-se imateriais as rosas e as recordações.
O quarto eu não o via
porque era ele os meus olhos;
e eu não o sabia
e essa era a sabedoria.
Agora sei estas coisas
de um modo que não me pertence,
como se as tivesse roubado.
A casa já não cresce
à volta da sala,
puseram a mesa para quatro
e o coração só para três.
Falta alguém, não sei quem,
foi cortar o cabelo e só voltou
oito dias depois, já o
jantar tinha arrefecido.
E fico de novo sozinho,
na cama vazia, no quarto vazio.
Lá fora é de noite, ladram os cães;
e cubro a cabeça com os lençóis.
Um sítio onde pousar a cabeça (1991)
⃰ ⃰ ⃰
[3]
Metade da vida
Perdi-me em Hölderlin e achei-me em Dante
no sítio mais distante da estante;
a meio da vida, quando a seara de-
via estar semeada e a casa construída.
Enquanto lia os clássicos e me dava
inutilmente para a melancolia,
Maria Hermínia, a Musa, ávida, deitava
contas à vida, à minha única vida:
faltava-me algures uma Ode (e um Amor Louco)
e, fora isso, lia muito e escrevia pouco;
os tempos iam para a Crítica, e ela seria,
a Musa-Ela-Própria, a minha tão certa secretária.
E por aí fora; que, se não me atasse
por minhas mãos ao Destino, desatinaria
(se não me matasse). Despedi-a.
Não me peças pois Harmonia, irmão leitor, meu semelhante:
pede-me medo. Sob o seu telhado dissonante
fiz o fogo e consumi a forma, e atrás da porta
guardei a minha vida, metade viva metade morta,
e os meus livros, seu cego instrumento.
Igual aos deuses (com poucos me contento),
de livros e silêncio me alimento.
Cuidados intensivos (1994)
⃰ ⃰ ⃰
[4]
O nome do cão
O cão tinha um nome
por que o chamávamos
e por que respondia,
mas qual seria
o seu nome
só o cão obscuramente sabia.
Olhava-nos com uns olhos que havia
nos seus olhos
mas não se via o que ele via,
nem se nos via e nos reconhecia
de algum modo essencial
que nos escapava
ou se via o que de nós passava
e não o que permanecia,
o mistério que nos esclarecia.
Onde nós não alcançávamos
dentro de nós
o cão ia.
E aí adormecia
dum sono sem remorsos
e sem melancolia.
Então sonhava
o sonho sólido em que existia.
E não compreendia.
Um dia chamámos pelo cão e ele não estava
onde sempre estivera:
na sua exclusiva vida.
Alguém o chamara por outro nome,
um absoluto nome,
de muito longe.
E o cão partira
ao encontro desse nome
como chegara: só.
E a mãe enterrou-o
sob a buganvília
dizendo: “É a vida…”
Nenhuma palavra e nenhuma lembrança (1999)
⃰ ⃰ ⃰
[5]
The house of life
Como Rossetti resgatando a dádiva de amor
verso a verso ao corrupto corpo
de Elizabeth Eleanor, o escritor
é um ladrão de túmulos. E é um morto
dormindo um sono alheio, o do livro,
que a si mesmo se sonha digerindo
sua carne e seu sangue e dirigindo
a sua mão e o seu livre arbítrio.
Quem construiu a sua casa? Quem semeou
a sua vida, quem a colherá?
Nem a sua morte lhe pertence, roubou-a
a outro e outro lha roubará.
Toma, come, leitor: este é o seu corpo,
a inabitada casa do livro,
também tu estás, como ele, morto,
e também não fazes sentido.
Os livros (2003)
Manuel António Pina, escritor e jornalista português, nasceu em Sabugal, região da Beira Alta, no dia 18 de novembro de 1943 e faleceu em 19 de outubro de 2012 na cidade do Porto. Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra, mas exerceu principalmente atividades no jornalismo, atuando no Jornal de Notícias durante três décadas. Sua extensa obra se divide entre livros de poemas, literatura infantil e livros de crônica, teatro e crítica. Recebeu diversos prêmios, entre os quais o prestigioso Camões. Na poesia, publicou os seguintes títulos: Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde (1974), Aquele que quer morrer (1978), A lâmpada do quarto? A criança? (1981), O pássaro da cabeça (1983), Nenhum sítio (1984), O caminho de casa (1989), Um sítio onde pousar a cabeça (1991), Algo parecido com isso, da mesma substância (1991), Farewell happy fields (1993), Cuidados intensivos (1994), Nenhuma palavra e nenhuma lembrança (1999), Atropelamento e fuga (2001), Poesia reunida (2001), Os livros (2003), Poesia, saudade da prosa: uma antologia pessoal (2011), Como se desenha uma casa (2011) e Todas as palavras: poesia reunida (2012). Em 2018, com seleção e estudo crítico de Leonardo Gandolfi, a Editora 34 publicou do autor uma seleção de poemas intitulada O coração pronto para o roubo.





