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Luís Araujo Pereira em Florações Professor e escritor | Publicado em 27 de setembro de 2026

Luís Araujo Pereira
Professor e escritor
27/09/2026 em Florações

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Cinco poemas de Manuel António Pina

[Curadoria de Luís Araujo Pereira]

[1]

Schlesiches Tor

É domingo ainda e chove ainda

num vago jardim perdido.

Fora de mim qualquer coisa em mim finda

como em alguém desconhecido.


Como se fosse domingo

no desfeito sonho de alguém

sonhando comigo,

lembro-me (quem?)


de outro jardim, de outro domingo,

indistintamente existindo,

como eu próprio, em mim.

Agora em que jardim


alheio e indiferente

chove em mim para sempre?

Também eu sou outro

transportando um morto.

Nenhum sítio (1984)

⃰  ⃰  ⃰


[2]

[Lugares da infância]

Lugares da infância onde

sem palavras e sem memória

alguém, talvez eu, brincou

já lá não estão nem lá estou.


Onde? Diante

de que mistério

em que, como num espelho hesitante,

o meu rosto, outro rosto, se reflecte?


Venderam a casa, as flores

do jardim, se lhes toco, ficam hirtas

e geladas, e sob os meus passos

desfazem-se imateriais as rosas e as recordações.


O quarto eu não o via

porque era ele os meus olhos;

e eu não o sabia

e essa era a sabedoria.


Agora sei estas coisas

de um modo que não me pertence,

como se as tivesse roubado.


A casa já não cresce

à volta da sala,

puseram a mesa para quatro

e o coração só para três.


Falta alguém, não sei quem,

foi cortar o cabelo e só voltou

oito dias depois, já o

jantar tinha arrefecido.


E fico de novo sozinho,

na cama vazia, no quarto vazio.

Lá fora é de noite, ladram os cães;

e cubro a cabeça com os lençóis.

Um sítio onde pousar a cabeça (1991)

⃰  ⃰  ⃰


[3]

Metade da vida

Perdi-me em Hölderlin e achei-me em Dante

no sítio mais distante da estante;

a meio da vida, quando a seara de-

via estar semeada e a casa construída.


Enquanto lia os clássicos e me dava

inutilmente para a melancolia,

Maria Hermínia, a Musa, ávida, deitava

contas à vida, à minha única vida:


faltava-me algures uma Ode (e um Amor Louco)

e, fora isso, lia muito e escrevia pouco;

os tempos iam para a Crítica, e ela seria,

a Musa-Ela-Própria, a minha tão certa secretária.


E por aí fora; que, se não me atasse

por minhas mãos ao Destino, desatinaria

(se não me matasse). Despedi-a.

Não me peças pois Harmonia, irmão leitor, meu semelhante:


pede-me medo. Sob o seu telhado dissonante

fiz o fogo e consumi a forma, e atrás da porta

guardei a minha vida, metade viva metade morta,

e os meus livros, seu cego instrumento.


Igual aos deuses (com poucos me contento),

de livros e silêncio me alimento.

Cuidados intensivos (1994)

⃰  ⃰  ⃰


[4]

O nome do cão

O cão tinha um nome

por que o chamávamos

e por que respondia,


mas qual seria

o seu nome

só o cão obscuramente sabia.


Olhava-nos com uns olhos que havia

nos seus olhos

mas não se via o que ele via,


nem se nos via e nos reconhecia

de algum modo essencial

que nos escapava


ou se via o que de nós passava

e não o que permanecia,

o mistério que nos esclarecia.


Onde nós não alcançávamos

dentro de nós

o cão ia.


E aí adormecia

dum sono sem remorsos

e sem melancolia.


Então sonhava

o sonho sólido em que existia.

E não compreendia.


Um dia chamámos pelo cão e ele não estava

onde sempre estivera:

na sua exclusiva vida.


Alguém o chamara por outro nome,

um absoluto nome,

de muito longe.


E o cão partira

ao encontro desse nome

como chegara: só.


E a mãe enterrou-o

sob a buganvília

dizendo: “É a vida…”

Nenhuma palavra e nenhuma lembrança (1999)

⃰  ⃰  ⃰


[5]

The house of  life

Como Rossetti resgatando a dádiva de amor

verso a verso ao corrupto corpo

de Elizabeth Eleanor, o escritor

é um ladrão de túmulos. E é um morto


dormindo um sono alheio, o do livro,

que a si mesmo se sonha digerindo

sua carne e seu sangue e dirigindo

a sua mão e o seu livre arbítrio.


Quem construiu a sua casa? Quem semeou

a sua vida, quem a colherá?

Nem a sua morte lhe pertence, roubou-a

a outro e outro lha roubará.


Toma, come, leitor: este é o seu corpo,

a inabitada casa do livro,

também tu estás, como ele, morto,

e também não fazes sentido.

Os livros (2003)

Manuel António Pina, escritor e jornalista português, nasceu em Sabugal, região da Beira Alta, no dia 18 de novembro de 1943 e faleceu em 19 de outubro de 2012 na cidade do Porto. Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra, mas exerceu principalmente atividades no jornalismo, atuando no Jornal de Notícias durante três décadas. Sua extensa obra se divide entre livros de poemas, literatura infantil e livros de crônica, teatro e crítica. Recebeu diversos prêmios, entre os quais o prestigioso Camões. Na poesia, publicou os seguintes títulos: Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde (1974), Aquele que quer morrer (1978), A lâmpada do quarto? A criança? (1981), O pássaro da cabeça (1983), Nenhum sítio (1984), O caminho de casa (1989), Um sítio onde pousar a cabeça (1991), Algo parecido com isso, da mesma substância (1991), Farewell happy fields (1993), Cuidados intensivos (1994), Nenhuma palavra e nenhuma lembrança (1999), Atropelamento e fuga (2001), Poesia reunida (2001), Os livros (2003), Poesia, saudade da prosa: uma antologia pessoal (2011), Como se desenha uma casa (2011) e Todas as palavras: poesia reunida (2012). Em 2018,  com seleção e estudo crítico de Leonardo Gandolfi, a Editora 34 publicou do autor uma seleção de poemas intitulada O coração pronto para o roubo.

Tag's: literatura, Manuel António Pina, poesia, poesia portuguesa

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