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Foto: Martin Kraft
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Rosângela Chaves em Miradas Jornalista, doutora em Filosofia pela UFG e editora de Ermira Cultura | Publicado em 30 de setembro de 2026

Rosângela Chaves
Jornalista, doutora em Filosofia pela UFG e editora de Ermira Cultura
30/09/2026 em Miradas

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A mulher, esse monstro

No ensaio “A psicologia do narrador”, incluído em seu livro Escrever é muito perigoso, a escritora Olga Tokarczuk discorre sobre um tipo de voz narrativa que ela nomeia de panóptica. O “narrador panóptico”, nas suas palavras, é uma figura ficcional que atua como um elo entre o autor e o universo da narrativa, como se fosse “um radar ou um enorme telescópio”. Essa espécie de “entidade” que não tem forma nem identidade – mas pode assumir qualquer forma e figura – desloca-se livremente ao longo do texto, penetrando diferentes consciências e revelando ao leitor dimensões que nenhum personagem isolado poderia perceber. No último romance da autora, Terra de empusas, publicado recentemente no Brasil, esse narrador panóptico pode ser associado à presença das “empusas” do título, criaturas da mitologia grega que seduzem e destroem os homens e que no livro simbolizam o Feminino que a racionalidade masculina e ocidental expulsou para o domínio do monstruoso. O olhar das empusas, que transcende o humano para abarcar a própria natureza, atravessa as frestas, posiciona-se atrás de móveis e sob as fissuras de paredes, telhados e assoalhos para observar as personagens masculinas que povoam a trama das perspectivas mais insólitas.

Nesse novo livro da autora premiada com o Nobel, portanto, o foco é sobre um microcosmo masculino, embora o tema subjacente a toda a trama seja a Mulher-monstro encarnada na figura das empusas. A trama é ambientada em 1913, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, nas montanhas da Silésia, na Prússia, que abriga um famoso hospital onde doentes de tuberculose de toda a Europa buscam tratamento. A referência ao romance A montanha mágica, de Thomas Mann, é explícita, com a trama girando em torno de homens de diferentes nacionalidades isolados em uma estação de cura, os quais passam o tempo envolvidos em intermináveis discussões sobre filosofia, ciência, política, religião e, acima de tudo, mulheres.

Olga Tokarczuk se vale de todo um inventário da misoginia produzido pela cultura ocidental nesses diálogos, em que os interlocutores procuram definir o que é uma mulher, como ela deve se comportar, o que é capaz de produzir e se é capaz de pensar. Reproduzem teorias médicas, filosóficas e pseudocientíficas sobre a suposta inferioridade feminina, a sexualidade, a reprodução e a racionalidade da mulher, convencidos de que podem explicar a sua natureza. Ao final do romance, a autora oferece uma lista de autores canônicos de cujas obras extraiu as visões misóginas reproduzidas nessas conversas, que vão desde Platão e Santo Agostinho, passando por Nietzsche, Schopenhauer e Freud, até Sartre, Joseph Conrad e D.H. Lawrence.

O romance não concentra sua crítica apenas à opressão das mulheres, como também expõe como o patriarcado continuamente precisa fabricar um modelo do masculino, ancorado no desprezo pela sensibilidade, no controle do corpo, na violência e, sobretudo, na radical rejeição de tudo que possa ser associado ao feminino. Como contraponto a esse ideário, o protagonista Mieczysław Wojnicz, um jovem frágil e inseguro, tem dificuldades de se ajustar a esse padrão de masculinidade que as figuras à sua volta – Opitz, August, Lukas, Frommer e o médico e psicanalista Semperweiβ – consideram natural: virilidade, autoridade, racionalidade e autodomínio.

Além do mais, há uma ironia fundamental nessa exaltação da força e do poder: esses homens que se esforçam por afirmar uma masculinidade fundada no controle de si e do mundo são criaturas profundamente débeis, com seus pulmões corroídos pela doença. A tuberculose contradiz sua retórica de virilidade: enquanto procuram enfatizar sua autonomia, eles são obrigados a se confrontar incessantemente com a precariedade de seus corpos, que tossem, escarram e sangram. A moléstia torna visível aquilo que o ideal masculino procura ocultar: a vulnerabilidade, a dependência e a própria condição mortal do sujeito.

Fora do ambiente aparentemente controlado e organizado pela racionalidade masculina, representado pela pensão onde as personagens se instalam e o sanatório no qual recebem tratamento, o espaço externo que o circunda, a floresta e as montanhas, emerge como um lugar hostil, selvagem, indomável – e feminino. É nele, onde no passado mulheres acusadas de bruxaria tiveram de se refugiar para escapar da perseguição e da morte, que estranhas coisas ocorrem: desaparecimentos, alucinações coletivas e rumores sobre mortes e a presença de criaturas inumanas. Os integrantes do círculo masculino do romance tentam buscar explicações racionais para esses fenômenos, buscando reduzir tudo a manifestações de loucura e histeria, mas não conseguem perceber que aquilo que eles consideram como irracional pertence, na verdade, a uma ordem de inteligibilidade que escapa às suas categorias predefinidas.

E aqui voltamos à narração panóptica que tem nas empusas uma de suas encarnações mencionada no início do texto. Os homens da história dedicam-se continuamente a definir e etiquetar as mulheres, mas são eles, no fim das contas, que estão continuamente expostos à observação dessas misteriosas entidades – portanto, não são mais os sujeitos, mas os objetos do olhar.  Tornam-se o alvo de um detalhado escrutínio, microscópico, quase entomológico, que investiga seus corpos, seus hábitos, seus humores, escuta suas conversas, devassa seus pensamentos, revela seus desejos, expõe suas pretensões intelectuais e suas pequenas vaidades. São, assim, deslocados do lugar que historicamente ocuparam, como detentores exclusivos de uma Razão com o poder de definir, classificar e dominar o mundo natural, incluído esse Outro por excelência que a mulher representa. Não à toa a deliberada ausência de mulheres na história – que aparecem de forma incidental e silenciosa apenas como figurantes passageiras ou na memória da personagem principal – é sobejamente compensada pela inteligência feminina coletiva manifesta nas empusas, que atuam como uma consciência presente em toda a parte.

Nesse romance, porém, Olga Tokarczuk vai além de uma discussão centrada em um binarismo homem/mulher ou na oposição simplista entre o mundo masculino da civilização e a natureza, lugar do sagrado e do feminino. Ainda no seu ensaio sobre os tipos de narrador, ela deplora “a redução de tudo a uma simples distinção entre feminino e masculino. Há, de fato, uma parte gigantesca do mundo que não cabe nessa vulgaridade generalizada”. Nesse sentido, o universo representado pelas empusas não é só o território do feminino, mas também uma zona de indeterminação que escapa à estrutura social assentada na inflexibilidade dessa rígida divisão de gêneros – e que, ao final da trama, é simbolizada pela aparição surpreendente de uma figura andrógina, que assume livremente o seu corpo.

Título: Terra de empusas

Autora: Olga Tokarczuk

Tradução: Luiz Henrique Budant

Editora: Todavia

Páginas: 332

Tag's: literatura, Olga Tokarczuk, Terra de empusas

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