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Foto: Renato Parada
Foto: Renato Parada
Foto: Renato Parada

Luís Araujo Pereira em Florações Professor e escritor | Publicado em 18 de agosto de 2024

Luís Araujo Pereira
Professor e escritor
18/08/2024 em Florações

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Cinco poemas de Marília Garcia

[Curadoria de Luís Araujo Pereira]

[1]

uma linha que não fecha

aqui o rio é verde, tem o mesmo tom do

gradil da ponte. um dia você

disse que a única coisa verde

dessa cidade

era o rio.

            o resto,

                          disse,

                                     só galho seco.


o resto não apaga, pensei,

e hoje quando cruzei a ponte

lembrei da sua voz

na gravação:

– é uma linha que nunca se fecha.

os anos vão passando

e a gente em cidades

diferentes –

quando vi o rio passando

lembrei dessa linha e do dia em que

nos conhecemos.


você sabe o que se diz para alguém

no primeiro encontro? ele me disse:

– sabia que nessa cidade

quando chega o inverno

a grama entra em repouso?


eu poderia ter dito

– quer ver na ilha em frente

os emus australianos?

mas não disse nada, fiquei

muda olhando a grama em repouso.


ele usava 24 tons de verde

para desenhar, só não via do lado

de fora. quando lembro

dele, não penso no verde das telas.

só penso no buraco:

– como se apaga um buraco?    


hoje quando fecho os olhos

penso naquela linha que não fecha

e no primeiro dia, quando ele

disse:

            – você ainda vai me ver três vezes

antes do fim. fique atenta

aos sinais.

Câmera lenta (2017)

• • •


[2]

terremoto

um terremoto replicando

por vários dias,

à noite as luzes de néon paradas

e, na manhã seguinte,

a tremedeira outra vez.

você pensa que o futuro

ainda não chegou, mas

de repente o terremoto

replicando faz tremer a língua

os dentes e tudo o que é

matéria.


por mais que use as palmas

para cobrir os ouvidos,

a ternura – o que você quer dizer? –

aliás, a tremura chega

arrastando tudo.

era como um país virando mar

um terremoto replicando

sem parar. se as réplicas consistem

em tremedeiras, e se uma língua é desenhada

fora das linhas,

como conciliar o

inconciliável?, pergunto

no momento de maior

desligamento e

ele responde:

– agora o seu wasabi

tem radioatividade.

essa cor brilhante,

de um verde quase prata,

era como a luz batendo no mar

bem na hora em que o chão –

e tudo recomeça.


quero pedir

silêncio, mas não sei lidar

com o imponderável.

um dia acordo

e não espero

mais resposta.

Câmera lenta (2017)

• • •


[3]

diferenças

a realidade é o que não

desaparece quando

deixamos de acreditar nela,

você dizia com os dedos abertos

tentando afastar aquela névoa dos

olhos.

           ali podia quase tocar o real,

mas no fim não entendia o

que ele tentava dizer. Seguiam

pelo rio tentando deixar

a linha de sombra do outro lado.

até hoje ao passar ali lembro do esforço

naquele dia para perceber o que estava

errado.


ele escrevia para contar que lá

tinham um templo dedicado aos gatos,

para contar que ela chorava

todas as tardes no mesmo horário,

para contar que largaria tudo

e cruzaria o oceano.


talvez essa já seja a terceira vez que

ele aparece. só lembro que antes

de ir embora,

parecia um espectro

no meio da poeira.

olhou para fora

e disse              conheci alguém.

então, 24 chamadas

perdidas de propósito

e o bilhete

debaixo da porta:


diga alguma coisa pelo menos

diga que o avião não caiu

que não queimaram os carros

e que ainda existe um bulevar periférico ao redor

da sua casa.


a realidade é o que não

desaparece depois de tudo, penso,

mas esta cidade não é real:

o rio fica na parte alta –

como faz para não escorrer

sobre o asfalto?

Câmera lenta (2017)

• • •


[4]

assim se diz está chovendo

enquanto aponto

o lápis

            fecho os olhos

e abro a janela do poema – para que entrem

todos os insetos


mas está chovendo

as gotas respingam      e molham o chão

uma imensa tempestade cobre a paisagem

eu abro os olhos     pego um livro

na estante e

vejo


é um dia de verão

sylvia plath está sentada

diante da janela vendo a chuva que cai

é dia 1º de julho

está quente úmido fumegante

e chove torrencialmente


ela pega uma caneta sem tirar os olhos

do molhado       está tentada a escrever um

poema

ela apoia a caneta no papel

e anota: nunca esquecer

da carta de recusa que um dia recebi

contendo três linhas

     

        “após o aguaceiro

poemas intitulados          chuva

inundam o país inteiro”

Expedição: nebulosa (2023)

• • •


[5]

perder o chão

você tem dedos

você é uma máquina

o polegar não deve se ouvir

indicador  médio  anular  dedo mínimo ou

auricular


as teclas vão num ritmo que varia

soltar os dedos     os punhos engessados

procurar aquela palavra que estava

colada na mão       não encontra

onde ela caiu? caminhar num lugar

sem chão

perder o chão


era um ponto vermelho

minúsculo escondido

um cisco


“Trinta dias sem ver você”

“Em silêncio sem saber nem ouvir nada”


escrevi as duas frases

a lápis num caderno

estava no meio de um sonho

depois li e chorei pensando que

ela tinha acabado


saturno não tem superfície

não tem chão       é um planeta feito

de gás com um pequeno núcleo de

rocha e metais


não ter onde pisar é estarrecedor

Expedição: nebulosa (2023)

Marília Garcia nasceu no Rio de Janeiro em 29 de novembro de 1979. Graduada em Letras pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) em 2002, doutorou-se em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Além de poeta, é artista performática, tradutora e trabalha com edição. Com Leonardo Gandolfi, foi fundadora da editora Luna Parque.. É autora dos seguintes livros de poemas: 20 poemas para o seu walkman (2007), Engano geográfico (2012), Um teste de resistores (2014), Paris não tem centro (2016), Câmera lenta (2017, Prêmio Oceanos), Parque das ruínas (2018) e Expedição: nebulosa (2023). Seus livros foram publicados na Argentina, Colômbia, no Chile, nos Estados Unidos, em Portugal e na Espanha.

Tag's: literatura, Marília Garcia, poesia, poesia brasileira

  • Rato na gaiola

    por Luís Araujo Pereira em Espirais

  • Do outro lado do rio

    por Rosângela Chaves em Dedo de prosa

  • A sensibilidade autobiográfica de Jheferson Rosa

    por Paulo Manoel Ramos Pereira em Veredas

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