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Foto: Divulgação
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Luís Araujo Pereira em Florações Professor e escritor | Publicado em 18 de fevereiro de 2024

Luís Araujo Pereira
Professor e escritor
18/02/2024 em Florações

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Cinco poemas de Nelson Ascher

[Curadoria de Luís Araujo Pereira]

[1]

elegia

Primeiro, fatos: uma

fuselagem de penas

há pouco destroçada

no asfalto, por assim


dizer, indiferente

às mesmas, antes brancas,

que, se já não contestam

a hegemonia cinza


do acaso ao fim da tarde

exceto pela mancha

vermelho-suja, ou seja,

o voo em negativo


de vísceras explícitas,

sugerem, todavia, o

que, sem dúvida, fora

um pombo. Nada trágico:


um episódio apenas

na sequência total de

fenômenos anônimos

e além disso complexos


demais para a cabeça

de um pássaro, aliás,

somente uma cloaca

volante, ameaçando a


tranquilidade asséptica

dos pedestres. Contudo,

na reformulação de

seus componentes, algo,


anódino talvez, se

perdeu. – Mesmo o poema,

na melhor das hipóteses,

não passa de uma autópsia.

Ponta da língua (1983)

• • •


[2]

Fim das contas

Tudo o que conta é menos

que o mais indivisível,

mais ínfimo fragmento

que, menos que o pensado,


menos que o dito, menos

que o escrito, ainda menos

que o extrato publicado

do irredutível mínimo


sumário do mais breve

que a máxima, epigrama

gravado em grão de areia,

partícula invisível


ao olho não só nu

como vestindo lentes

de exorbitante aumento,

resume-se à parcela


menor da mais lacônica

sinopse taquigráfica

de um aforismo expresso

pelo estilhaço mais


minúsculo da mais

subdividida inter-

jeição quase inaudível

que diz mais do que fala


e mais cala que diz

nas entrelinhas, entre

um som mal concluído

e um outro nem sequer


bem começado, ponto

de fuga do mais mudo

fonema do silêncio:

tudo o que conta é menos.

O sonho da razão (1993)

• • •


[3]

Deitada de bruços

Segundo a pincelada

que, súbito, um calígrafo

traçasse da cerviz

ao cóccix, delineia-se,


no avesso do papel

de arroz em que a tensão

dos músculos transforma

a pele ao retesá-la,


não tanto uma coluna

dorsal quanto – serpente

cuja intenção jamais

se expõe, salvo no lapso


entre tocaia e bote –

a hipótese de, em torno

ao próprio eixo, a espinha

se contorcer tão látex


que, vertebrando sub-

cutânea o cerne imóvel

da mais perfeita inércia,

suponha um coreógrafo


capaz de destilar

sem pressa a extrema dança

que, implícita nas formas,

dispensa o movimento.

Algo de sol (1996)

• • •


[4]

Metade

Eles escrevem (elas

também) e têm metade

da minha idade escrevem

não sei se muito bem


tampouco escrevo bem

(eu sei) mas tenho o dobro

da idade que eles têm

(e elas também) mas tenho


metade ou talvez menos

(principalmente caso

não largue o tabagismo)

de sua expectativa


de vida e escrevo menos

por dia mês ou ano

também talvez metade

ou menos talvez tenha


escrito (e isso no dobro

do tempo) muito menos

do que a metade seja

(nem sei se muito bem)


do que eles escreveram

ou elas escreveram

(e nada me garante

que o tenha escrito bem).

Parte alguma (2005)

• • •


[5]

Código morse

Se indagas como assim

sei que, no fundo, atrai-te,

mais que o de Shere Hite,

o Relatório Kinsey


e, quanto ao nosso encaixe

(que anseio), não me dói de-

clarar que, a Sigmund Freud,

prefiro Wilhelm Reich –


só para que me entendas

melhor, deixa-me, dentro

das zonas mais pudendas,


expor meu argumento

– com dedos – à mucosa

do teu botão de rosa.

Parte alguma (2005)

Nelson Ronny Ascher nasceu em São Paulo (SP) em 1º de janeiro de 1958. Graduou-se em Administração na Fundação Getúlio Vargas e pós-graduou-se em Comunicação e Semiótica na PUC-SP. Traduz poesia de diversas línguas e, desde 1970, dedica-se à crítica literária. Foi editor da Revista da USP e do Folhetim, suplemento cultural da Folha de S. Paulo já extinto. Como poeta, publicou os seguintes livros: Ponta da língua (1983), O sonho da razão (1993), Algo de sol (1996) e Parte alguma (2005).  Como pesquisador, organizou, junto com Rui Moreira Leite, a antologia Cocktails, poemas de Luis Aranha (1984). Em seguida, agora como tradutor, publicou os seguintes títulos: Vida sem fim, poemas de Laurence Ferlinghetti, com Paulo Leminski e outros (1984); Canção antes da ceifa, versão para o português da poesia húngara moderna, com prefácio de Paulo Rónai (1990); Quase uma elegia, poemas de Joseph Brodsky, com Bóris Schnaiderman (1995); e Desencontrários/ Unencontraries: seis poetas brasileiros, em edição bilíngue, com Haroldo de Campos (1995), e O lado obscuro,  uma coletânea de poesia hispano-americana (1996). Por fim, como ensaísta, lançou Pomos da discórdia (1996).  Sobre o livro O sonho da razão, o grande crítico Antonio Candido fez o seguinte comentário: “Eu diria que todos os poemas de O sonho da razão são bons e que o título é perfeito como reflexo da obra. Diria mais que não é frequente encontrar um livro tão bem realizado, dando a impressão de que o autor não escorrega nem erra a mão. […] O resultado é sempre uma surpresa metodicamente construída”.

 

Tag's: literatura, literatura brasileira, Nelson Ascher, poesia, poesia brasileira

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