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Luís Araujo Pereira em Florações Professor e escritor | Publicado em 26 de abril de 2026

Luís Araujo Pereira
Professor e escritor
26/04/2026 em Florações

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Cinco poemas de Henriqueta Lisboa

[Curadoria de Luís Araujo Pereira]

[1]

A mais suave

Por milagre, a flor mais suave,

não a colheram os ventos.

Ficou na haste toda a noite,

trêmula e alta sob a chuva.


Quando foi de madrugada,

o jardim pasmou:

suas corolas jaziam

sobre a terra umedecida;

uma entretanto, a mais suave,

sustinha-se contra a aragem.


As outras flores por terra,

dálias, papoulas, crisântemos,

– ruivas cabeças – plasmavam

seus espasmos derradeiros:

mártires decapitados,

magdalas em desespero.


Nas fúrias espirituais

e nas ardências do sangue

dir-se-ia que estavam vivas.

Entretanto a flor mais suave,

como que ausente do mundo

na sua pureza lívida,

era um pequeno cadáver

que todo o jardim chorava.

Prisioneira da noite (1941)

⃰  ⃰  ⃰


[2]

Alarido

E veio a noite do alarido.


A noite clara, a noite fria,

com perfurados calafrios.


A noite com punhais erguidos

e olhos devassando perigos.


A noite cava, com ladridos

de cães atiçados. E espias.


A noite com tremores lívidos

e com membros estarrecidos

diante de ovelhas suicidas.


A noite de mármore e níquel

despedaçando-se em tinidos

no cristal violento das criptas.


Montanhas de ferro em vigília,

longas árvores comprimidas

e astros de fogo em carne viva


pasmaram de tanto alarido.

A face lívida (1945)

⃰  ⃰  ⃰


[3]

As coleções

Em primeiro lugar as magnólias.

Com seus cálices

e corolas: aquarelas

de todas as tonalidades e suma

delicadeza do toque.

Pequena aurora diluída

com doçura, nos tanques.


Depois a música: frêmito

e susto de pássaro.

As valsas – que sorrateiras. E as flautas.

As noites com flauta sob a janela

inaugurando a lua nascida

para o suspirado amor.


Mais tarde os campos, as grutas,

a maravilha. E o caos.

Com seus favos e suas hidras,

o mundo. O mar com seus apelos,

horizontes para o éter,

desespero em mergulho.


Com o tempo, o ocaso. As lentas

plumas, os reposteiros

com seus moucos ouvidos,

a tíbia madeira para

o resguardo das cinzas,

as entabulações – e com que recuos –

da paz.


Finalmente os endurecidos espelhos,

os cristais sob o quebra-luz,

dos ângulos o verniz,

o ouro com parcimônia, a prata,

o marfim com seus esqueletos.

A flor da morte (1949)

⃰  ⃰  ⃰


[4]

O tempo e a fábula

O tempo farejou a fábula.

Contaminou-a. Projetou-a

talhado à sua própria imagem.


Quem surpreendera nas origens,

antes dos primeiros refolhos,

o ruborescer das papoulas?


Pelas águas em que Narciso

se reconhecia ainda há pouco

broncos sargaços se diluem.


À hora em que o verde-malva toca

as nuanças do âmbar, porventura,

já outros nimbos se formaram.


De que miraculoso arco-íris

os dedos ágeis de Penépole

teriam recolhido o zéfiro?


Porém o zéfiro que esgarça

a flor da espuma nos recifes

carrega o pólen de outra flor.


Perde-se em mares sem memória

Todo o velame ao vendaval.

Mas salva-se o ânimo do nauta.


Cavalos árdegos dos montes,

ontem dormidos nas planícies,

rompem as rédeas à miragem.


E no evolver de novos signos,

com as orvalhadas já destelam

brandos casulos de ouro e azul.


Destece, ó noite, por que o dia

teça com virginais matizes

a fábula da mesma fábula.

Além da imagem (1963)

⃰  ⃰  ⃰


[5]

Parábola

Do funil dos olhos

em áscuas – o azul.


Da risada estrídula

ao rubor – o rubro.


Do vômito em jorro

– que verde – no vácuo.


Da calúnia acéfala

– o amarelo esgar.


Da injustiça em peso

– o roxo do tombo.


Do suco dos gomos

no tonel das iras

multimatizadas


– a sucinta cólera

em rolo de plexos

a rolar declives


– a neve na bola

cada vez mais álgida


– a bola de neve

cada vez mais límpida.

Alvo humano (1973)

Henriqueta Lisboa nasceu em Lambari (MG) no dia 15 de julho de 1901 e morreu em Belo Horizonte em 9 de outubro de 1985. Transferiu-se em 1935 para a cidade de Belo Horizonte, onde, além de exercer outras atividades profissionais, foi inspetora federal de ensino secundário e tornou-se professora de literatura hispano-americana e de história da literatura na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Em 1963, entrou para a Academia Mineira de Letras. Recebeu em 1984 o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra. Foi também tradutora e ensaísta. Manteve diálogo e correspondência com os escritores de sua geração, particularmente com Mário de Andrade. Conforme Fábio Lucas, a autora “se fez pioneira na escrita de poemas para crianças fora da tradição moralista ou de cunho meramente pedagógico”. Como fonte de origens, o simbolismo e o modernismo são marcas expressivas de sua lírica. Além de ensaios, traduções e organização de antologias, escreveu os seguintes livros de poemas: Enternecimento (1929), Velário (1936), Prisioneira da noite (1941), O menino poeta (1943), A face lívida (1945), Flor da morte (1949), Madrinha lua (1952), Azul profundo (1958), Montanha viva-Caraça (1959), Além da imagem (1963), Reverberações (1976), Miradouro e outros poemas (1976) e Celebração dos elementos (1977).

Tag's: Henriqueta Lisboa, poesia, poesia brasileira

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