[Curadoria de Luís Araujo Pereira]
[1]
A mais suave
Por milagre, a flor mais suave,
não a colheram os ventos.
Ficou na haste toda a noite,
trêmula e alta sob a chuva.
Quando foi de madrugada,
o jardim pasmou:
suas corolas jaziam
sobre a terra umedecida;
uma entretanto, a mais suave,
sustinha-se contra a aragem.
As outras flores por terra,
dálias, papoulas, crisântemos,
– ruivas cabeças – plasmavam
seus espasmos derradeiros:
mártires decapitados,
magdalas em desespero.
Nas fúrias espirituais
e nas ardências do sangue
dir-se-ia que estavam vivas.
Entretanto a flor mais suave,
como que ausente do mundo
na sua pureza lívida,
era um pequeno cadáver
que todo o jardim chorava.
Prisioneira da noite (1941)
⃰ ⃰ ⃰
[2]
Alarido
E veio a noite do alarido.
A noite clara, a noite fria,
com perfurados calafrios.
A noite com punhais erguidos
e olhos devassando perigos.
A noite cava, com ladridos
de cães atiçados. E espias.
A noite com tremores lívidos
e com membros estarrecidos
diante de ovelhas suicidas.
A noite de mármore e níquel
despedaçando-se em tinidos
no cristal violento das criptas.
Montanhas de ferro em vigília,
longas árvores comprimidas
e astros de fogo em carne viva
pasmaram de tanto alarido.
A face lívida (1945)
⃰ ⃰ ⃰
[3]
As coleções
Em primeiro lugar as magnólias.
Com seus cálices
e corolas: aquarelas
de todas as tonalidades e suma
delicadeza do toque.
Pequena aurora diluída
com doçura, nos tanques.
Depois a música: frêmito
e susto de pássaro.
As valsas – que sorrateiras. E as flautas.
As noites com flauta sob a janela
inaugurando a lua nascida
para o suspirado amor.
Mais tarde os campos, as grutas,
a maravilha. E o caos.
Com seus favos e suas hidras,
o mundo. O mar com seus apelos,
horizontes para o éter,
desespero em mergulho.
Com o tempo, o ocaso. As lentas
plumas, os reposteiros
com seus moucos ouvidos,
a tíbia madeira para
o resguardo das cinzas,
as entabulações – e com que recuos –
da paz.
Finalmente os endurecidos espelhos,
os cristais sob o quebra-luz,
dos ângulos o verniz,
o ouro com parcimônia, a prata,
o marfim com seus esqueletos.
A flor da morte (1949)
⃰ ⃰ ⃰
[4]
O tempo e a fábula
O tempo farejou a fábula.
Contaminou-a. Projetou-a
talhado à sua própria imagem.
Quem surpreendera nas origens,
antes dos primeiros refolhos,
o ruborescer das papoulas?
Pelas águas em que Narciso
se reconhecia ainda há pouco
broncos sargaços se diluem.
À hora em que o verde-malva toca
as nuanças do âmbar, porventura,
já outros nimbos se formaram.
De que miraculoso arco-íris
os dedos ágeis de Penépole
teriam recolhido o zéfiro?
Porém o zéfiro que esgarça
a flor da espuma nos recifes
carrega o pólen de outra flor.
Perde-se em mares sem memória
Todo o velame ao vendaval.
Mas salva-se o ânimo do nauta.
Cavalos árdegos dos montes,
ontem dormidos nas planícies,
rompem as rédeas à miragem.
E no evolver de novos signos,
com as orvalhadas já destelam
brandos casulos de ouro e azul.
Destece, ó noite, por que o dia
teça com virginais matizes
a fábula da mesma fábula.
Além da imagem (1963)
⃰ ⃰ ⃰
[5]
Parábola
Do funil dos olhos
em áscuas – o azul.
Da risada estrídula
ao rubor – o rubro.
Do vômito em jorro
– que verde – no vácuo.
Da calúnia acéfala
– o amarelo esgar.
Da injustiça em peso
– o roxo do tombo.
Do suco dos gomos
no tonel das iras
multimatizadas
– a sucinta cólera
em rolo de plexos
a rolar declives
– a neve na bola
cada vez mais álgida
– a bola de neve
cada vez mais límpida.
Alvo humano (1973)
Henriqueta Lisboa nasceu em Lambari (MG) no dia 15 de julho de 1901 e morreu em Belo Horizonte em 9 de outubro de 1985. Transferiu-se em 1935 para a cidade de Belo Horizonte, onde, além de exercer outras atividades profissionais, foi inspetora federal de ensino secundário e tornou-se professora de literatura hispano-americana e de história da literatura na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Em 1963, entrou para a Academia Mineira de Letras. Recebeu em 1984 o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra. Foi também tradutora e ensaísta. Manteve diálogo e correspondência com os escritores de sua geração, particularmente com Mário de Andrade. Conforme Fábio Lucas, a autora “se fez pioneira na escrita de poemas para crianças fora da tradição moralista ou de cunho meramente pedagógico”. Como fonte de origens, o simbolismo e o modernismo são marcas expressivas de sua lírica. Além de ensaios, traduções e organização de antologias, escreveu os seguintes livros de poemas: Enternecimento (1929), Velário (1936), Prisioneira da noite (1941), O menino poeta (1943), A face lívida (1945), Flor da morte (1949), Madrinha lua (1952), Azul profundo (1958), Montanha viva-Caraça (1959), Além da imagem (1963), Reverberações (1976), Miradouro e outros poemas (1976) e Celebração dos elementos (1977).





