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IIlustração: @be.are_, 2026
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Ana Tércia Rosa Alves em Projeto Ensaios Psicóloga e mestre em Psicologia pela UFMS. E-mail: ana.tercia@ufms.br | Publicado em 1 de agosto de 2026

Ana Tércia Rosa Alves
Psicóloga e mestre em Psicologia pela UFMS. E-mail: ana.tercia@ufms.br
01/08/2026 em Projeto Ensaios

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O romance familiar no mito de Perseu

[Coautor: Weiny César Freitas Pinto[1]]

Quando Otto Rank escreveu a obra O mito do nascimento do herói (1922/2020), ele estudou as lendas de 15 heróis de mitologias diversas para identificar semelhanças nas suas narrativas e estruturar a “lenda-padrão”, um modelo que apresenta os estereótipos das narrativas mitológicas, de forma auxiliar ao processo da interpretação psicanalítica. Um dos heróis estudados por Rank foi Perseu.

A inclusão de Perseu em seu trabalho não foi aleatória, pois Rank percebeu que esse mito realmente apresenta o seu protagonista como um herói clássico que possui muitas semelhanças com outros heróis mitológicos. Citado por Homero (Ilíada, 14, vv. 319-320) e Hesíodo (O escudo, vv. 216-220), Perseu configura-se como um dos heróis mais antigos e populares da mitologia grega, tendo seu mito plenamente registrado por autores mais tardios como Pausânias (2. 23. 7), Eratóstenes (Constelações do Zodíaco, 1. 22) e Pseudo-Apolodoro (2.4.2-5). Através das obras desses autores, é possível resumir o mito de Perseu da seguinte forma:

Acrísio, rei de Argos, escutou uma profecia de que seu futuro neto o mataria, então, aprisionou sua única filha, a princesa Dânae, em uma câmara no subsolo para evitar que ela tivesse contato com qualquer homem. Entretanto, a beleza de Dânae chamou a atenção de Zeus, que se uniu a ela na forma de uma chuva dourada, deixando-a grávida de Perseu. Quando Acrísio descobriu a gravidez de sua filha, a abandonou no mar com o neto dentro de uma arca de madeira. Felizmente, Dânae e Perseu foram resgatados por Díctis, que criou a criança como se fosse seu próprio filho.

 Anos depois, Polidectes, rei de Sérifo, desejou Dânae, mas não conseguia se aproximar dela, pois Perseu não permitia. Então, Polidectes planejou livrar-se de Perseu, ordenando que ele lhe entregasse a cabeça da górgona Medusa. Com a ajuda dos deuses, Perseu conseguiu decapitar a górgona e, enquanto retornava para Sérifo, encontrou uma bela princesa etíope acorrentada, chamada Andrômeda, que havia sido entregue como oferenda para um monstro marinho. Apaixonado pela princesa, Perseu utilizou a espada diamantada de Hefesto para matar o monstro e libertar Andrômeda, levando-a consigo para Sérifo.

Ao retornar para casa, Perseu encontrou Polidectes oprimindo Dânae e Díctis, e utilizou a cabeça da Medusa para transformá-lo em pedra, deixando o trono de Sérifo para Díctis. Tempos depois, Perseu foi convidado para participar de jogos atléticos na Arcádia, e, enquanto competia no pentatlo, arremessou um disco que atingiu um senhor na plateia, matando-o instantaneamente. Esse senhor era o rei Acrísio. Dessa forma, Perseu cumpriu o oráculo e tornou-se o único herdeiro ao trono de Argos, mas não conseguiu reivindicar o trono daquele reino por ter sido o assassino do monarca anterior. Portanto, ele ofereceu uma troca ao seu primo Megapentes, rei de Tirinto. Assim, Perseu tornou-se rei de Tirinto, e Megapentes governou Argos.

Para compreender o simbolismo de mitos como esse, Rank (1922/2020) propôs compará-los com a dinâmica do “romance familiar”, um conceito desenvolvido inicialmente por Freud, que ilustra o processo de independência da autoridade dos pais por meio das fantasias infantis. Segundo Freud (1909/2010), a criança, ao longo de seu desenvolvimento, elabora fantasias nas quais substitui seus pais reais por figuras idealizadas, ao mesmo tempo em que projeta sentimentos ambivalentes em relação à autoridade paterna. No contexto da mitologia, Rank (1922/2020) identifica esse processo como estruturante da chamada “lenda-padrão”, na qual o herói representa simbolicamente o “eu” infantil. Um dos aspectos centrais da lenda-padrão é a duplicação das figuras parentais, que se manifesta nos mitos por meio da coexistência entre pais nobres e pais substitutos. Perseu, por exemplo, conforme relatamos acima, é filho de Zeus, o que corresponde à fantasia infantil de possuir uma origem elevada e idealizada. No entanto, ele foi criado por Díctis, um mortal que desempenha o papel de pai adotivo. Essa duplicidade reflete diretamente a estrutura do romance familiar, na qual os pais biológicos são simultaneamente idealizados e substituídos por outros, revelando a tensão entre a realidade e a fantasia.

Outro elemento fundamental é a inversão da hostilidade infantil em relação ao pai. No romance familiar, a criança desenvolve impulsos de independência que podem assumir a forma de rejeição ou rivalidade com a figura paterna. No mito, entretanto, essa dinâmica é invertida: não é o filho que rejeita o pai, mas o pai (ou aquele que desempenha uma figura paterna) que tenta eliminar o filho. No caso de Perseu, essa função é exercida por Acrísio, que, ao receber a profecia de que seria morto pelo neto, tenta impedir seu nascimento e posteriormente o abandona à própria sorte. A presença do tirano como perseguidor do herói também reforça a estrutura do romance familiar. Em muitos mitos, conforme observa Rank (1922/2020), a figura paterna é desdobrada em um governante opressor que impõe provas impossíveis ao herói. No mito de Perseu, essa função é parcialmente assumida por Polidectes, que ameaça Dânae e envia o herói em uma missão mortal contra a Medusa. Tal figura representa uma forma deslocada da autoridade paterna, mantendo a dimensão de poder e hostilidade associada ao pai. Dessa maneira, o enfrentamento do tirano, pode ser interpretado como uma realização simbólica do desejo de superar a autoridade paterna.

Por fim, o desfecho do mito, no qual Perseu cumpre involuntariamente a profecia ao matar Acrísio, evidencia a ambivalência característica do romance familiar. A realização do destino, que implica a eliminação da figura paterna, é acompanhada por um gesto de renúncia, já que Perseu recusa o trono de Argos. Esse elemento sugere a presença do sentimento de culpa e a impossibilidade de usufruir plenamente da vitória sobre o pai, refletindo a tensão entre desejo e interdito que marca a experiência psíquica infantil. Assim, o mito de Perseu ilustra a teoria de Rank de que os mitos heroicos podem ser interpretados como projeções simbólicas do romance familiar, dramatizando os conflitos universais do desenvolvimento humano.

[Revisão de Khadija de Oliveira Moreira e Maria Eduarda Rodrigues. Revisão final e edição de Rosângela Chaves]

Referências

FREUD, S. O romance familiar dos neuróticos. In: FREUD, S. Obras completas, v. 8. Tradução de Paulo César de Souza. Companhia das Letras. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 295-298.

RANK, O. O mito do nascimento do herói. Tradução de Constantino Luz de Medeiros. São Paulo: Cienbook, 2020.

[1] Bolsista Produtividade em Pesquisa Fundect/Cnpq. Professor do Curso de Filosofia e dos Programas de Pós-graduação em Filosofia e Psicologia da UFMS. E-mail: weiny.freitas@ufms.br

O artigo inaugura a nona edição do Projeto Ensaios, um projeto de divulgação filosófica coordenado pelo professor Weiny César Freitas Pinto, do curso de Filosofia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em parceria com o site Ermira Cultura, que visa colocar em diálogo a produção acadêmica com a opinião pública por meio da publicação de ensaios. Até o dia 26 de dezembro, sempre aos sábados, serão publicados em Ermira textos de estudantes, pesquisadores e professores de diversos lugares do país, envolvendo diversas áreas do conhecimento, em diálogo com a filosofia.

Tag's: mito de Perseu, Otto Rank, psicanálise, psicologia

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