Jalapão, estado do Tocantins, Brasil. Sol e calor, muito calor. Tomamos banho em um fervedouro, uma nascente de água doce que brota de um rio subterrâneo e forma uma piscina natural de beleza evidente. No meio do nada, quilômetros e quilômetros de terra desabitada, é como se estivéssemos numa sucursal do paraíso, exclamo, e ela responde que não acredita em nada, que não consegue, mas que sente pena porque, pensa, acreditar que existe algo depois conforta o crente. Ao que respondo que comigo acontece o contrário. Para mim, digo, nada me confortaria tanto quanto saber que depois disso não há mais nada. Ponto final, acabou.
No conto homônimo que abre O Muro de Jean-Paul Sartre, Pablo Ibbieta, um dos três prisioneiros políticos republicanos condenados à morte pelas forças fascistas do general Franco, enquanto aguarda a hora da sua execução, rumina que a vida é uma grande mentira, pois ela tem fim. Sente-se incapaz de julgá-la, pois percebe que é apenas um esboço. De modo que todos os castelos que até então construíra sobre a eternidade eram absurdos, inúteis, e lamenta não ter compreendido isso antes. De todas as coisas que poderia ter saudade, Ibbieta já não sente falta de nada, pois a morte, assegura, rouba o encanto de tudo.
Sartre se serve de um personagem prestes a ser fuzilado para expressar uma reflexão sobre a vida à sombra da morte. Como minha amiga, Ibbieta pensa que, se tudo acaba, nada faz sentido. Ao contrário, eu considero que a morte ilumina a vida. Nada me perturbaria tanto quanto saber com certeza que esta vida se eterniza, da forma que for, mas que nunca termina. Nem crença, nem conhecimento, apenas a expressão de um desejo. Morrer, penso, é o que realmente dá valor à existência humana em geral, o que faz com que de alguma forma se justifique a premissa sobre a qual, uma vez adquirida a consciência de nossa finitude, cada um tenta dar sentido à própria vida.
Em um aforismo póstumo, Cioran nos diz que o efêmero é a fonte de todo canto, que se a vida fosse eterna, a poesia seria impossível, porque a inspiração se alimenta de tudo aquilo que está em processo de deixar de ser.
Gosto, sinto-me à vontade com essas palavras, e em paz.




