• Sobre Ermira
  • Colunas
    • Aboios
    • Arlequim
    • Arranca-toco
    • Chapadão
    • Chispas
    • Dedo de prosa
    • Errâncias
    • Especial
    • Espirais
    • Florações
    • Margem
    • Maria faz angu
    • Matutações
    • Miradas
    • Mulherzinhas
    • Projeto Ensaios
    • NoNaDa
    • Pomar
    • Rupestre
    • Tabelinha
    • Terra do sol
    • Veredas
  • Contribua
  • Colunistas
  • Contato
  • Instagram
  • Facebook
  • YouTube
  • Twitter

ERMIRA

  • Instagram
  • Facebook
  • YouTube
  • Twitter
  • Sobre Ermira
  • Colunas
    • Aboios
    • Arlequim
    • Arranca-toco
    • Chapadão
    • Chispas
    • Dedo de prosa
    • Errâncias
    • Especial
    • Espirais
    • Florações
    • Margem
    • Maria faz angu
    • Matutações
    • Miradas
    • Mulherzinhas
    • Projeto Ensaios
    • NoNaDa
    • Pomar
    • Rupestre
    • Tabelinha
    • Terra do sol
    • Veredas
  • Contribua
  • Colunistas
  • Contato
Foto: Isabel Ribeiro Moreira
Foto: Isabel Ribeiro Moreira
Foto: Isabel Ribeiro Moreira

Luís Araujo Pereira em Florações Professor e escritor | Publicado em 23 de abril de 2023

Luís Araujo Pereira
Professor e escritor
23/04/2023 em Florações

  • Compartilhar no Twitter
  • Compartilhar no Facebook
  • Compartilhar no Google +
  • Compartilhar no WhatsApp
← Voltar

Cinco poemas de Lucíola Macêdo

[Curadoria de Luís Araujo Pereira]

[1]

zéfiro

outra vez improviso um

alinhavo embrenhada em meio ao

bambuzal guiada pelo esfuzio das

cigarras. os pés afundados

naquele chão areento. constelado de

formigas e liquens de outras eras

as palavras me escapam feito

tainhas-de-boca-grande

Balões vítreos (2022)

• • •


[2]

segredo

isto é quase luz

porque a luz não sabe

que se chama: luz

ela atende por tantos

outros nomes: azuláceo

vivaz bendenguê piano aquático

pingo de chuva gameleira

e até embarcação

basta chamá-la sussurrando

baixinho: quebra-mar

ventarola goivo ventilador

ou mudando o tom e desde

então vocifero treva imensa

e ainda assim ela me atende

bastando escutar a sua música

e a língua me fere de

levezas brincando com o

cochicho da brisa com o varal

basta chamá-la de mansinho

que o temor desliza entre

seixos escorregadios até que

a fulgência do riso se

espraie até que o acaso

grite: silêncio! Mas

continuo a chamá-la

bem baixinho em tom

quase inaudível: é quando

lânguida ela se espraia

Balões vítreos (2022)

• • •


[3]

videira

escrevo porque no interior das seriguelas

resmungam buganvílias escrevo

enquanto as noites das sucuris avançam

no íntimo dos dias incrédulos acídulos

lancinantes escrevo porque longe dos

ossos dissolvo o veneno das manhãs

em conchinhas do mar escrevo enquanto

entoo com fervor uma ária lusitana

em meio às águas caudalosas do

chuveiro respirando o vapor úmido

sedenta daquela noite de amor

na sala de banho turco em que

exalavas almíscar e hortelã


os ventos sobre as jangadas

vêm avisar que chegou a hora

veja que a bacia d’água entornou

encharcando a fibra do dendê

veja que anoitece só que por dentro

veja que o sabre não corta o verão

Balões vítreos (2022)

• • •


[4]

inutilidade

o luar avança sobre a relva

pressinto o pulso das palavras lançando-me

como só os camicases se lançam ao sabor das correntes

ultramarinas enquanto penso na resposta para o enigma

soprado pelo mistral: e se em vez de escrever com

palavras eu escrevesse com rajadas de vento?

mas isto não é cítara, Antônia, é antes

sonhar acordada, ouça bem o cântico das romãs maduras

e depois morda a sua polpa suculenta até sorver

todo o seu sabor e fartar-se de doçura

ou então, para que servem as palavras, se não

para lambuzar-se de todo tipo de delícias

e delírios inventados?

orvalho de manhã cedinho encharcando a terra queimada

ou aquela xícara rachada que você trouxe com tanto zelo

de Fira porque lembrava o chá verde diante do vulcão

inebriada de azuis em meio ao arco do Egeu

com seus aquedutos mergulhados em lugar algum

para quê, senão para ao dizer: quartzo

sentir o zumbido das abelhas na ponta da língua?

e tremer ao timbre da tuba do faraó enquanto o verão

viceja no espelho das águas e cantas a plenos pulmões

meu fado predileto, afiado em agulha de vitrola

cantarolando ao sabor dos caudais do mundo

pagão e dos teus desejos mais inconfessáveis

se não, para que servem as palavras?

Balões vítreos (2022)

• • •


[5]

Lorca e os vendavais

amor de minhas entranhas doce voragem

em vão espero qualquer vestígio de palavra escrita

e penso em turbilhões turvados de afetos inomináveis

e se vivo sem mim é para melhor perder-te


no ar vaguei inerme. o rochedo nem crepita

nem conhece a sombra nem a ressuscita

coração inflamado mergulhado em devaneios

o fel gelado imiscuído aos teus rodeios


porém eu te sorvi. rasguei-me as veias

banhei-me em teus enganos viços e vícios

em duelo de tormentas eu me perdi


esvaziada de palavras a minha loucura

permita-me viver tua face serena oh noite d’alma

numinosa e sempre e cada vez mais escura

Balões vítreos (2022)

Perfil

Lucíola Freitas de Macêdo nasceu em Fortaleza (CE) e mora em Belo Horizonte. É psicanalista e poeta. Viveu em Salvador, Brasília e Ghirlarza, na Sardenha. Membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise, é mestre em Filosofia e doutora em Psicanálise pela Universidade Federal de Belo Horizonte (UFMG). Realizou estudos de pós-doutorado na Pontíficia Universidade Católica de Minas Gerais (2017). Como poeta, publicou Soante (Scriptum, 2013) e Balões vítreos (Quixote+DO, 2022), além de Primo Levi, a escrita do trauma (Subversos, 2014), livro finalista do Prêmio Jabuti 2015. Publicou ainda artigos em coletâneas que tratam de sua experiência clínica, epistêmica e institucional. Dirigiu a coleção de psicanálise Estudos Clínicos, editada pela Scriptum. Segundo o escritor, tradutor e professor Lawrence Flores Pereira, em posfácio a Balões vítreos,  os poemas contidos nesse livro são vislumbres do sensório que perpassa a lembrança, ou seja, uma poesia metonímica, onde tudo desfalece diante das imagens. E arremata: “O livro labiríntico de Lucíola é quase o registro de um olhar que combina ironia e a fruição da vida, prazer, delicadeza”.

Tag's: Balões vítreos, Lucíola Macedo, poesia, poesia brasileira

  • Rato na gaiola

    por Luís Araujo Pereira em Espirais

  • Do outro lado do rio

    por Rosângela Chaves em Dedo de prosa

  • A sensibilidade autobiográfica de Jheferson Rosa

    por Paulo Manoel Ramos Pereira em Veredas

  • Compartilhar no Twitter
  • Compartilhar no Facebook
  • Compartilhar no Google +
  • Compartilhar no WhatsApp

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site.

Deixe um comentário (cancelar resposta)

O seu endereço de e-mail não será publicado. Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

ERMIRA
  • Instagram
  • Facebook
  • YouTube
  • Twitter