Era primavera em Oxford. A luz da Inglaterra e a acolhida atenciosa de um coletivismo britânico na instituição de ensino revelaram-se aos olhos do estudante.
Com 20 anos de idade, eu tinha um walkman no qual ouvia fitas cassetes andando pelas ruas da cidade onde se podia mover de bicicleta, buscando de vez em quando a atmosfera dos meadows, prados ingleses que são resquícios arqueológicos de uma ocupação antiga. Eu ouvia muito o disco Joshua Tree, da banda irlandesa U2, tendo a vida pela frente. Ainda não encontrei o que estou buscando, como na letra da canção que eu ouvia sem me dar conta de seu fundo religioso e gospel.
“Estou lendo Ulysses”, disse ao inesquecível professor de literatura inglesa Ted May. “Verdade?”, respondeu May, “eu mesmo não consegui terminá-lo”. Muito English like, do professor gentil que gostava de ler Jane Austen, sempre sugerindo mais do que afirmando.
Eu apreciava os irlandeses desde que li no original Dubliners, o livro de contos do James Joyce que antecedeu Ulysses. Sendo uma língua estrangeira, uma coisa é ler e consultar o dicionário, outra é entender a letra da música que se ouve. Eu sentia a ambiência do disco na pele, o clima de dor e melancolia e realidade e esperança. As melodias e as letras cortantes. A presença do mar na cultura dos ilhéus gaélicos.
Eu não sabia que muito do disco fora inspirado na América do Norte, de onde viera após uma estadia de dois meses e meio estudando inglês na Universidade de Georgetown, na capital dos Estados Unidos – onde dividira um quarto com um refugiado sul-africano no tempo em que Nelson Mandela ainda estava preso que, anos depois, veio a colaborar com Madiba. Lá ouvíamos juntos Graceland, disco de Paul Simon com músicos africanos, e eu ouvia Tladi sobre a ignomínia do apartheid, contra o qual fiz uma dissertação oral na universidade.
Percebi muito menos que as balas no céu azul da América na letra da música do álbum Joshua Tree riscavam o firmamento de El Salvador. Não era possível divisar no disco que Bono e Edge eram influenciados pelos autores de ficção da corrente do New Jornalism norte-americano.
Tampouco imaginei que a mulher correndo para ficar parada da letra estaria numa viagem de heroína, na imaginação do Bono.
– Temos que fazer algo sobre para onde vamos. (We got to do something about where we’re going). Entrar num trem a vapor, sair da chuva cortante (Step on a steam train, step out of the driving rain).
O caminho aberto. Ao jovem ouvido jobiniano: Promessa de vida no meu coração.
Eram os idos de 1988, ainda havia terrorismo irlandês. O Hall onde estudava organizou uma excursão a Stratford-upon-Avon no aniversário de Shakespeare, cidade natal do bardo. Eu usava um rabo de cavalo e amarrei um grande paletó tweed azul comprado num brechó com um cinto para escapar do frio.
Recebi um lanche num papel pardo, que carregava comigo. Graças a isso fui abordado duas vezes, uma por policiais correndo na rua segurando desajeitadamente os capacetes custodian e outra por um paisano da Scotland Yard, assustados, temendo que eu fosse membro do IRA.
Os policiais vieram correndo esbaforidos perguntando o que eu tinha no saco, que estendi para exame.
– Almoço ! (Lunch!), disse o policial gordinho ao seu colega de farda, aliviado, com quem conversei rapidamente, identificando-me, antes de seguir.
Havia inúmeros eventos acontecendo simultâneos e eu olhava da porta de acesso a um destes, num jardim, decidindo se entrava. Eu vi que havia um homem de terno me olhando preocupado. Ele se aproximou diagonalmente cauteloso e perguntou o que tinha no saco, que estendi. Expliquei ao detetive que já tinha sido abordado antes e que estava em uma excursão desde Oxford, onde todos receberam frutas e sanduíche em papel pardo.
– Tente parecer menos suspeito (Try to look less suspicious), disse-me o homem de terno da Yard após inspecionar meu pacote e anotar a minha explicação sobre quem era. Se fosse um terrorista com certeza o faria, pensei, mas não disse, para escapar da dura. Em seguida, fui a um terreno baldio para comer o almoço e ficar menos irlandês.
No fim do dia, assistimos à peça encenada pela Cia. Real Shakespeare Muito barulho por nada (Much ado about nothing), no Royal Shakespeare Theatre, belo teatro sobre o rio Avon. Eu entendi apenas parcialmente a pronúncia do texto elisabetano, usufruindo como um sonho o agora sem volta.
O Ted May reconheceu a minha sensibilidade para a literatura e um dia me confidenciou, comovido, a frase poética de seu filho pequeno, quando contou a ele que o pássaro caído na rua estava era morto:
– Então ele não pode mais cantar! (So it cannot sing anymore!)
Antes de deixarmos a Inglaterra, eu e meu caro amigo José Eduardo Lacerda Soares, paulista de mãe carioca que estudava lá comigo – e com quem fiz uma viagem inesquecível ao velho País de Gales, mátria britânica, dirigindo do lado esquerdo da estrada –, compramos um livro de Jorge Luis Borges e o presenteamos ao Mr. May.
Passados alguns anos da guerra das Malvinas, o professor nunca tinha ouvido falar do argentino – que em Shakespeare muito preferia a peça Macbeth, com suas bruxas escocesas, ao Hamlet de origem nórdica.
E agora, décadas depois, termino a leitura de Surrender, a autobiografia do cantor, compositor e ativista dublinense Paul Hewson, conhecido como Bono. Poeta, dir-se-ia em Pernambuco, pois lá assim denominam os compositores, como os letristas.
Muito bem escrita, sincera, desprovida, reveladora da realidade e do percurso pessoal, psicológico e artístico do autor na sua jornada no U2 e da luta que foi universalizar remédios contra a aids, trazer a fome para a pauta desenvolvida, fazer da África mais do que um lugar exótico aos olhos do norte, ocidentais e eurocêntricos. Trazer a solidariedade à pauta de sucessivos governos norte-americanos.
A realidade de uma nacionalidade partida, como é o caso da intolerância entre protestantes e católicos no contexto do colonialismo inglês nas ilhas britânicas, foi o pano de fundo da família Hewson em Dublin, formada do casamento inter-religioso cristão que pulou a cerca do sectarismo. Loucura social do conflito entre religiões tão próximas, como se vê no filme recente Belfast, de Kenneth Brannagh.
Sunday Bloody Sunday, cantou o pacifista U2 sobre o Domingo Sangrento, incidente na Irlanda do Norte no inverno ocorrido a 30 de janeiro de 1972, quando o exército britânico abriu fogo contra manifestantes por direitos civis. O massacre foi retratado no filme de Paul Greengrass de 2002, uma ficcionalização com linguagem de documentário e câmera na mão, baseada no livro que registrou testemunhos oculares.
O livro do Bono é rico em relatos. A sua adolescência. O seu casamento com Ali, seu amor de juventude. Sua visão cristã. O encontro com Steve Jobs e a transição para o Ipod e as plataformas digitais, convencendo o americano a incluir a música do U2 na parada. O seu encontro com Nelson Mandela, a cujo enterro depois compareceu. Quincy Jones. Desmond Tutu. Sua militância em África. Não é caridade, é justiça.
O seu apoio ao Acordo da Sexta-feira Santa, superando os conflitos nacionalistas na Irlanda do Norte, quando muitos viam a conciliação pacifista como uma traição. A queda do muro de Berlim. O dia em que desmaiou na cama de Abraham Lincoln na Casa Branca de Obama, por uma alergia a vinho. Quando Sir Paul McCartney foi seu guia em Liverpool.
O encontro incrível em 2002 com Mikhail Sergeevitch Gorbachov, o líder de raízes russo-ucranianas que despontara como líder do Partido Comunista na União Soviética ao tempo do desastre de Chernobyl em 1986 e que depois tornou-se o chefe de estado a instituir a então impensável abertura política e transparência (Glasnost).
Ele foi visitar Bono e família em sua casa, em um domingo de visita aberta, sem saber que Ali recebia naquele momento a sua afilhada, uma menina vítima do acidente nuclear – a bielorussa Annastacia. Pura sincronicidade inesperada em um diálogo sincero.
O cantor revisita a sua longa jornada de ativista, entre o sonho e o realismo, com vivências em África, formando equipes, trabalhando nos hiatos da agenda do rock, relacionando-se com presidentes republicanos e democratas nos Estados Unidos.
Ele convenceu a duras penas o secretário do Tesouro Americano conservador sobre a positividade do investimento a fundo perdido para fazer o remédio contra a aids chegar aos africanos. A certo momento, o ativista entende-se como centrista radical. Não existe solução sem o diálogo.
Bono expõe sua fragilidade de artista e desvela a simbiose da banda e equipe, preocupadas com a vida dupla do cantor. A sua operação de coração, a relação conflituosa com o pai após a morte precoce da mãe. O momento da rendição, da entrega, Surrender.
É preciso fôlego para um livro bem urdido, onde as canções ilustram os capítulos: longo, imagético, divertido e confessional de sentimentos pessoais, caminho artístico e convicções religiosas. E da muita entrega, esforço, paciência e experimentação da banda que foi transformando-se sem perder a identidade.
O disco Joshua Tree – uma árvore encontrada na Califórnia que batizou Parque Nacional com o nome que remete ao hebraico Yeshua – foi gravado fora de estúdio, por sugestão do cantor e produzido por Brian Eno e Daniel Lanois na artesania da mixagem, na busca de timbres e texturas.
No documentário de Phillip King e Nuala O’Connor sobre a feitura do álbum, Bono diz que é um disco irlandês no seu sentido mais profundo e misterioso.
Tão irlandês quanto U2 Go Home, o concerto da banda em casa em 2001, no Slane Castle , cantando Elevation, show vibrante que foi lançado no Brasil. Onde o público também é irlandês, essa nacionalidade que, sob tanta história, sofreu com o colonialismo, as guerras, o êxodo pela fome e a busca do sonho americano.
Eu nunca imaginaria que o concerto ocorreu dias após a morte do pai do cantor; e que na manhã seguinte Bono se encontrou (em sua cozinha) com o músico Bob Geldof e outros ativistas para criar o acrônimo DATA (debt, aids, trade, Africa).
A essa altura do livro, Bono – que confessa no livro sofrer de uma síndrome do messias branco – reconhece retroativamente a arrogância em querer resolver os graves problemas alheios (muitos de origem colonialista) citando o provérbio senegalês: Se você quer cortar o cabelo de um homem, assegure-se de que ele esteja presente.
A primavera celta da conciliação na Irlanda superou muito leite derramado. Hoje, a Irlanda do Norte faz parte do Reino Unido e a Irlanda tornou-se uma república. No meio disso o Brexit, complicando a questão de fronteiras, do qual muitos se arrependem.
Bono segue engajado, foi cantar na Ucrânia, milita nos shows contra as ditaduras. Ele segue fiel ao berço de sua cultura. E o mundo segue um perigoso caminho maniqueísta, no recrudescimento das guerras. Seria preciso lembrar os exemplos dos líderes pacifistas e militantes por direitos civis assassinados, superando simplismos.
A guerra fratricida na Palestina, eivada do genocídio indizível, as batalhas na Ucrânia, o pesadelo infindável na Síria, os conflitos armados na África e alhures geram o caos e são alimentados pela intolerância e pelo ódio. Dão vazão a fascismos, racismos, totalitarismos e fundamentalismos – e são nutridos militarmente por potências plenas de problemas internos. Desumanidades de um caminho insano.
Não existe futuro na ótica reducionista, no crescimento da indústria bélica aliada à economia de reconstrução. No conflito do Ocidente com Rússia e China, na limpeza étnica, na alimentação de uma nova guerra fria por forças nucleares sobrepondo-se ao combate da crise tripla do clima, da perda da biodiversidade e da poluição crescente.
Não existe saída pela negação do outro e as soluções não podem prescindir do provérbio senegalês. Coexistam, militou o cantor.
O que a Rendição desvelamento de Bono comunica em seu belíssimo livro é a revelação do artista que nunca esteve incomunicado, alienado e ausente das questões prementes do seu tempo. A sua geração viveu a transição do milênio, uma aceleração econômica vertiginosa do mundo sobre uma divisão inenarrável de intolerâncias, ideologismos, pobreza e afluência, salvação e catástrofe, entendimento e alheamento.
Mergulhado desde cedo na senda visionária, o artista irlandês transmite a esperança dos que não estão sozinhos.




