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Foto: Andrea Fiamenghi/Divulgação
Foto: Andrea Fiamenghi/Divulgação
Foto: Andrea Fiamenghi/Divulgação

Luís Araujo Pereira em Florações Professor e escritor | Publicado em 26 de julho de 2026

Luís Araujo Pereira
Professor e escritor
26/07/2026 em Florações

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Cinco poemas de José Carlos Capinan

[Curadoria de Luís Araujo Pereira]

[1]

d

Vida que não é presente,

com lugar ou tempo entre,

vida à Bahia e São Paulo

tem clima diverso e amargo.


É mais de morte, é severo

à pele o clima do norte.

O sul tem clima de lâmina:

é frio, penetra e some.


De amor ao clima baiano,

do norte o mais puro e alvo,

dormiremos a Salvador

embora o corpo a São Paulo.


Como a pessoa do norte,

direta, lembra mais forte,

as gentes que se separem

estarão ao lado norte.


(Tendo mais luz a Bahia

grava firme sua imagem –

duram mais dentro dos olhos

seus traços de limpo lápis).

Ciclo de navegação, Bahia e gente (1963-1975)

⃰  ⃰  ⃰


[2]

Canto IV

O homem-senhor tem existência

Sobre posses e governa.

Boca estreita, de algarismos,

Corpo de lodo e pedras.


Grito de lobo e lâmina,

Memória de cifra e boi,

Fome extinta e lucros feitos

Dos que, sobre a terra, trabalham presos.

(O homem-senhor reina

Mas, coitado, nem sabe

Que todos os reinos caíram ontem.)


Não sabe ele as palavras

Em trânsito e a vida,

Lavra de ouro e comércio,

Nosso medo e vosso espanto.


Tudo, avisamos, em trânsito,

(As relações de trabalho)

Pastos, pontes, rios e posse.

Avisamos o tempo de homens claros.

Inquisitorial (1965)

⃰  ⃰  ⃰


[3]

Algumas fantasias

II

Hoje eu vi uma moça andando pela rua

Querendo, que não me ouça,

Que a visse andando nua

Quisera o sol mais claro

De todo o seu tempo de sol

Para que desde aquela hora aquela moça ficasse gravada

     em meus olhos

E quando todos os emboras se fossem

Eu estivesse ainda com ela eternamente e só

Confissões de Narciso (1995)


[4]

IV

Expulsaram as nuvens com a queimada das florestas

Queimaram o mel e as cinzas são pássaros sem asas

Que os ventos espalham como Oiá espalhou as folhas

Pelas auroras que agora não têm as flores


Tudo devastado pelo olhar nefasto do Deus Homem

O inventário eu peço, como quem pede ao bem-amado

Cama de malva, travesseiro de lua, olhos de alvorada

Peço em joelhos, humilde nocauteado desses Tysons


Peço o inventário das plantas e das auroras

Peço a exumação do corpo azul do tempo

Peço a reinvenção dos fitocromos devassados

Pelos tratores da inquisição dos jardins e campos


Peço pelo espanto de Gagarin e a dor das baleias

Peço pelos seres que sereias não são

E pela invenção dos seres que são humanas teias

Entre o mito e a dor da nossa condição.

Uma canção de amor às arvores desesperadas (1996)

⃰  ⃰  ⃰


[5]

Versos enviesados

VI

Paris ficou mais velha

Moscou ficou mais moça

O paraíso da forca

É a força da primavera


Vis-à-vis, olhando a mosca

Fiz o que deu na telha

Parisse eu uma velha

E a morte levasse a moça


Antes fechasse o ciclo

Invertendo velho e novo

A gente vai ser menino

Pra depois entrar no ovo


O que somos, o que eu sou

É amor demais feliz

Que diz amor depois do amor

E dá romã em flor de lis


E que floresça romance

Cresça manso o aprendiz

Um beijo de alcanfor

Num forasteiro nariz


A França já foi criança

A Rússia foi anciã

Eu tenho agora a lembrança

Do que serei amanhã

Poemas (1996)

José Carlos Capinan nasceu na cidade de Esplanada (BA) em 1941. Reside em Salvador. Formou-se em pedagogia e medicina. É poeta, letrista, dramaturgo e membro da Academia de Letras da Bahia. Integrou o movimento tropicalista. Foi um dos fundadores do Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE). É autor  da letra da canção “Ponteio”, com música de Edu Lobo, que venceu em 1967 o Festival de Música Popular. Como letrista, é parceiro de Gilberto Gil, Tom Zé, Caetano Veloso, Edu Lobo, Geraldo Azevedo, Jards Macalé, João Bosco, Paulinho da Viola, entre outros. Em 2025, o Sesc lançou o disco Cancioneiro Geral – Tributo a Capinan, com participação de Jards Macalé e Renato Braz. Além da peça Bumba meu boi (1963), escreveu os seguintes livros de poemas: Inquisitorial (1966), Ciclo de navegação, Bahia e gente (1975), Estrela do norte, adeus (1981), Poemas (1987), Confissões de Narciso (1995), Uma canção de amor às árvores desesperadas (1996), Balança mas hai-kai (1996), Poemas (antologia, 1996) e Vinte canções de amor e um poema quase desesperado (2014). Em 2024, com organização de Claudio Leal e Leonardo Gandolfi, o selo Círculo de Poemas lançou Cancioneiro geral (1962-2023) que reúne sua obra literária e uma seleção de letras de canções.

Tag's: José Carlos Capinan, poesia, poesia brasileira

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