[Coautores: Juarez Moreno de Camargo e Silva[1] e Pedro Damasceno Uchôas[2]]
Em fevereiro de 2026 cursamos, na Fundação Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), a disciplina de verão Epistemologia das Ciências Humanas. Nela, algumas reflexões foram promovidas pelos professores Weiny e Pedro. Entre elas, surgiu a nós o questionamento: como está a valorização das Ciências Humanas na própria UFMS?
A partir disso, lembramo-nos da Feira de Tecnologias, Engenharias e Ciências de Mato Grosso do Sul (Fetecms), que atua como um agente de integração da educação básica com o ambiente universitário, estimulando o interesse de jovens estudantes pela ciência. Esse evento, inclusive, ocorre no próprio ambiente acadêmico desta universidade e já participamos de algumas edições como orientadores de grupos finalistas e premiados.
Posto esse fato, decidimos verificar as listas de premiação de pesquisas de nível Fetecms das edições 2024 e 2025, pois a nossa experiência com a feira em questão nos fez levantar uma hipótese: mesmo dentro da academia – que, a princípio, deveria fomentar igualmente, sem hierarquizações, todos os campos do conhecimento – há uma distinção, ainda que não evidente, daquilo que é prestigiado como ciência e o que não é.
Nesse prisma, ao observar as listas oficiais das duas últimas edições, é notável que há a premiação dos três primeiros colocados de uma diversidade de áreas de conhecimento: exatas e da terra; humanas; da saúde; biológicas; linguística, letras e artes; engenharias; agrárias; sociais. Entretanto, um ponto chama a atenção: dentre os projetos selecionados para representarem o estado na Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace) de 2024, não houve trabalhos da área de humanas; e, dentre os projetos selecionados em 2025, houve apenas um – mas este previa o desenvolvimento de um aplicativo. Além disso, para o Programa de Feiras de Ciências da Unipampa (Fecipampa), nos últimos dois anos, também não foram selecionados projetos da área de Humanas. Fato que se repete com a seleção de trabalhos para reapresentação na Mostra Internacional de Ciência e Tecnologia (Mostratec) e na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT-Brasília), eventos com projeção nacional e internacional.
Se, por um lado, tais premiações podem ser um indicativo da exaltação das demais ciências em detrimento das Humanidades, por outro, demonstram de maneira evidente a predileção por projetos que tragam a possibilidade de resolução de um problema por meio de um produto. Dessa forma, a problematização aqui está no fato da neoliberalização da ciência.
Ao observar a influência neoliberal na educação brasileira – evidenciada pelo crescimento de conglomerados, como o Grupo Salta e Arco Educação –, é fundamental atentar-se aos reais objetivos desses agentes. Inseridos em uma lógica que busca a eficiência e a empregabilidade imediata, tornam-se comuns feiras e grandes eventos patrocinados (Bett Brasil, por exemplo) que movimenta milhões para a promoção de produtos educacionais e da educação Steam (abordagem educacional interdisciplinar que integra Ciências, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática, com foco na resolução de problemas por meio da aprendizagem ativa).
Assim, um exemplo dessa afirmação é o fomento do Ministério da Educação à divulgação da Liga Steam (criada pela Fundação ArcelorMittal), por meio do curso Projetos Integradores Steam no Desenvolvimento de Saberes Digitais”, disponível no AVAMEC. Esse curso, ministrado pela própria fundação, revela que o projeto Liga Steam busca promover a elaboração de pesquisas pelos membros da educação básica e conectá-los a parceiros, a fim de angariar o investimento em educação.
Nessa perspectiva, destaca-se que a abordagem valoriza a contribuição coletiva em sala de aula, bem como a aplicação de conhecimentos de Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática (do qual deriva o acrônimo em inglês, Steam). Contudo, há a expressa valorização de pesquisas que necessariamente apresentam produtos para o enfrentamento e para a resolução de questões sociais, econômicas ou climáticas, vividas cotidianamente pelos estudantes em sua respectiva comunidade.
Adicionalmente, as reformas educacionais recentes no Brasil (como o Novo Ensino Médio), além da ampliação do ensino profissionalizante (Brasil. Lei nº 13.415, de 16 de fevereiro de 2017), também refletem a lógica mercadológica. Obviamente, devemos ter cautela aqui, pois não se trata da condenação da base técnica escolar, mas de sua ampliação em detrimento de componentes curriculares tradicionais como Filosofia e Sociologia.
Portanto, a desvalorização das Ciências Humanas – que ocorre tanto no campo simbólico do discurso (figuras públicas que acusam as humanidades de doutrinação ou apontam uma suposta inutilidade) quanto na materialidade da práxis (diminuição da carga horária no Novo Ensino Médio) – fragiliza o pensamento crítico dos estudantes e transforma a educação em mero treinamento de mão de obra, sem o desenvolvimento pleno da cidadania.
Por fim, deve-se salientar que o problema não é a metodologia Steam ou as feiras científicas em si, mas a imposição do utilitarismo da pesquisa, com a necessária apresentação de produto de pesquisa. Principalmente, porque uma educação de excelência exige a interdisciplinaridade, a pluralidade assim como a educação integral do estudante e as Ciências Humanas são essenciais para garantir uma leitura crítica sobre o mundo que o modelo Steam, por sua natureza estrutural, não compreende. Posto isso, conclui-se que as Humanidades precisam ser valorizadas como ferramenta de emancipação social e de fortalecimento da democracia em face do utilitarismo neoliberal.
[Revisão de Khadija de Oliveira Moreira e Maria Eduarda Rodrigues. Revisão final e edição de Rosângela Chaves]
Referências
ARBEX, Pedro. Grupo Salta volta aos M&As e vai faturar R$ 3 bi este ano. Brazil Journal, [S. l.], 29 abr. 2025. Disponível em: https://braziljournal.com/grupo-salta-volta-aos-mas-e-vai-faturar-r-3-bi-este-ano/. Acesso em: 31 mar. 2026.
BRASIL. Lei nº 13.415, de 16 de fevereiro de 2017. Altera as Leis n os 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, e 11.494, de 20 de junho de 2007, que regulamenta o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) […]. Brasília, DF: Presidência da República, [2017]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/l13415.htm. Acesso em: 31 mar. 2026.
MATO GROSSO DO SUL. Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Premiações FETEC 2024. Campo Grande, MS: UFMS, 2024. Disponível em:https://pt.scribd.com/document/795204592/Premiacoes-FETEC-2024. Acesso em: 31 mar. 2026.
MATO GROSSO DO SUL. Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. LISTA DE PREMIAÇÕES XV FETECMS. Campo Grande, MS: UFMS, 2025. Disponível em: https://www.fetecms.com/_files/ugd/12904e_ce3ca263506943118bab02e798379a21.pdf. Acesso em: 31 mar. 2026.
[1] Licenciado em História (UFMS), especialista em Contabilidade Financeira e Controladoria (UCDB), mestrando em Linguagens – Estudos Comparados e Culturais (UFMS). Premiado em feiras científicas (como FETECMS), tem produção bibliográfica focada em inclusão social, questões socioambientais e cinematografia. juarezcamargo@gmail.com
[2] Doutor em Filosofia pela UFSCar e pós-doutorando do programa de pós-graduação em psicologia da UFMS. E-mail: pedruchoas@gmail.com
O artigo é o segundo da nona edição do Projeto Ensaios, um projeto de divulgação filosófica coordenado pelo professor Weiny César Freitas Pinto, do curso de Filosofia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em parceria com o site Ermira Cultura, que visa colocar em diálogo a produção acadêmica com a opinião pública por meio da publicação de ensaios. Até o dia 26 de dezembro, sempre aos sábados, serão publicados em Ermira textos de estudantes, pesquisadores e professores de diversos lugares do país, envolvendo diversas áreas do conhecimento, em diálogo com a filosofia. Confira o primeiro texto publicado desta edição:
- O romance familiar no mito de Perseu | ERMIRA, de Ana Tércia Rosa Alves e Weiny César Freitas Pinto.




