Uma versão errante, entre outras dispersas: assim a história foi ganhando acréscimos. Quem a ouviu passou-a adiante do jeito que a recebeu. Segundo testemunhos, a voz do Mago estava debilitada – frases com inflexão de dor e murmúrios escorrendo lamentos. Desse modo, em seu relato hesitante, disse o seguinte, naquela noite de atrações circenses:
“Eu não sei se tive a oportunidade de dizer, mas eu sou uma pessoa triste, daquelas que ficam mais deprimidas ainda quando se deparam com tardes completamente cinzas, acentuadas por nesgas de azul, pra falar o mínimo de cores. Ai daquelas tardes de sexta-feira, quando, às dezoito horas, passavam carros cantando pneus em direção a um lugar indeterminado! E, nessa hora, cheia de meandros, eu não sabia se a vida poderia ser melhor aqui ou num story-board de Fellini. Por causa da minha admiração por Cartier-Bresson, o melhor prestidigitador das imagens, penso em todos os cenários – os únicos, que seduzem um fotógrafo – porque, na minha memória, permanecem registrados entre o cinza e o preto, o branco como espanto. São nessas tardes, quando a alma está por um fio, que Ismália sai da redoma, a personagem oscilante de Alphonsus. O poema trata de uma indecisão: o voo ou o mergulho. O alto e o baixo. A loucura pertence – se algum dia ela pertenceu a alguma coisa – ao fato de que o céu e o mar são antagônicos e complementares. Os deuses, nesse assunto, são nulos.”
Assim, naquele circo e naquela noite, falou o Mago.
Triste, abatido, estava em pé no meio do picadeiro. A sua história – a que acabara de contar – exigia um ouvinte raro. Tudo o que ele dissera, o sentido do que a sua revelação escondia, só foi percebido por uma garotinha que, num estalo, concluiu:
“Encontrei o meu igual.”
E esperou, aflita, que ele continuasse a sua melancólica narração.
Mas os magos – aqueles que de fato são originais e, por isso, nos causam sentimentos de estranheza e maravilhamento – escondem um quinto naipe. No Tarô, o inexplicável escorre pelos dedos dos arcanos.
Por isso, fez um movimento, enfiou a mão no bolso do casaco e tirou uma bola vermelha. Os que estavam nas primeiras filas notaram de imediato que era uma bola de pano, macia e leve. Em seguida, atirou-a para cima.
Erguendo o mais alto possível a cabeça, as pessoas tentavam localizar o ponto em que o objeto havia desaparecido. Elas dobravam o pescoço para trás, com renovado esforço, até que, num movimento contrário, foram atraídas para outro ato, que agora se desenrolava no meio do picadeiro.
Para perturbar mais ainda a atenção de todos, o Mago abriu um baú e fez com que as pessoas esquecessem a bola no alto. De dentro, a partir de um gesto esotérico, surgiu um enorme sapo que em seguida alçou voo e ficou planando. O bicho, após a sua performance, desceu sob uma miríade de luzes, como se fosse um Fred Astaire dos pântanos.
Sem querer aparecer muito e causar alarde, o animal – sofrendo a repulsa eterna dos répteis, o que lhe valia reações de nojo – abriu a bocarra e anunciou:
“A bola foi para Marte.”
Na saída, por causa do ar atônito que fincava o rosto das pessoas, a garotinha, sem muito esforço, foi a única que compreendeu o selvagem mundo em que vivia – e, a caminho de casa, ria, enquanto vagalumes iluminavam o seu rosto.




