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Foto: Reprodução
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Lia Raquel Toledo Brambilla Gasques em Matutações Arqueóloga e professora | Publicado em 1 de novembro de 2026

Lia Raquel Toledo Brambilla Gasques
Arqueóloga e professora
01/11/2026 em Matutações

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Levante a mão! Pare e reflita: o que mudou em 66 mil anos?

Há tensão no ar… Aliás, existiu algum tempo na história da humanidade que não existiu tensão? Uma mão se levanta, a palma se abre e o gesto transmite uma advertência: Pare! Antes de qualquer explicação, reconhecemos o chamado à atenção. A mão interrompe, estabelece um limite, pede proteção. Mas essa mesma mão pode acolher, oferecer ajuda, produzir alimento, fabricar ferramentas e criar imagens. Entre o cuidado e o perigo, entre a criação e a sobrevivência, as mãos atravessam nossa história. Olhar para elas é perguntar quanto mudamos e quanto de nossas necessidades, medos e possibilidades permanecem. Muito antes da escrita, pessoas deixaram imagens de suas mãos em paredes de cavernas e abrigos. Esses registros estão entre as mais antigas manifestações gráficas conhecidas. Em Maltravieso, na Espanha, uma representação de mão tem idade mínima estimada em aproximadamente 66,7 mil anos, estabelecida pela datação de depósitos minerais formados sobre o pigmento. A data não determina o instante exato da pintura: indica que ela já existia quando aquela cobertura mineral começou a se formar. É uma presença que nos alcança através de uma imensa distância temporal.

Desconhecemos o nome de quem produziu aquela imagem. Por que faltava um dedo? Não sabemos o que sentia nem o significado preciso daquele gesto para seu grupo. Ainda assim, reconhecemos algo familiar: uma mão humana colocada diante do mundo. Podemos recebê-la, hoje, como uma afirmação de existência “estive aqui”, desde que compreendamos que essa é uma leitura nossa, e não uma tradução comprovada da intenção de seu autor. A arqueologia aproxima vidas distantes, mas também nos ensina a respeitar aquilo que não podemos afirmar. Algumas dessas imagens foram produzidas pressionando a mão coberta de pigmento contra a rocha. Outras resultaram da projeção de pigmento ao redor da mão apoiada na superfície: ao retirá-la, permanecia seu contorno em negativo. O corpo tornava-se parte do processo de criação. A mão era instrumento e imagem, da presença física e vestígio. Encontramos mãos rupestres em lugares muito distantes entre si, Maltravieso e El Castillo, na Espanha; Gargas, na França; cavernas de Sulawesi, na Indonésia; sítios australianos; e a Cueva de las Manos, na Patagônia Argentina, cujo extraordinário conjunto integra o Patrimônio Mundial reconhecido pela Unesco. Essa distribuição não demonstra que todas essas sociedades compartilham uma mesma crença. Mostra, porém, a recorrência da mão como referência para produzir imagens, comunicar experiências e estabelecer relações com os lugares.

Em Alcinópolis, Mato Grosso do Sul, a mão pintada na Gruta do Barro Branco participa dessa história. Ela aproxima essa reflexão de nosso território e nos coloca diante das marcas deixadas por antigos habitantes da região. Sua presença lembra que as paisagens do Cerrado guardam histórias humanas profundas, que precisam ser pesquisadas, preservadas e reconhecidas. A história das imagens e dos símbolos também está inscrita aqui, nas rochas que fazem parte de nossas paisagens. Diante da mão de Alcinópolis, podemos sentir uma proximidade inesperada. O contorno nos parece conhecido porque reconhecemos nele uma parte de nosso próprio corpo. Mas essa familiaridade não apaga as diferenças entre sociedades e épocas. Cada registro pertence a um contexto, a conhecimentos e a formas particulares de compreender a existência. Reconhecer uma humanidade compartilhada exige também respeitar essa diversidade.

As mãos participam de nossa relação com o mundo. Tocamos para conhecer, seguramos para sustentar, gesticulamos para comunicar. Com elas, cultivamos, construímos, cozinhamos, escrevemos e cuidamos. Nas línguas de sinais, os movimentos das mãos, articulados às expressões faciais e corporais, integram línguas completas. Na arte, na vida cotidiana e nas relações sociais, as mãos ajudam a transformar experiências em sentidos. Por isso, sua simbologia é tão expressiva. A mão aberta pode acolher ou ordenar uma parada. A mão estendida pode oferecer auxílio ou solicitar apoio. As mãos unidas podem representar oração, compromisso e solidariedade. A mão erguida pode pedir a palavra, assumir uma responsabilidade ou manifestar resistência. Nenhum desses sentidos é universal ou imutável: os gestos são compreendidos dentro de relações culturais e históricas.

Ainda assim, impressiona quanto confiamos às mãos quando precisamos comunicar algo essencial. Na arte religiosa, essa força simbólica também aproxima o humano do sagrado. A expressão “dedo de Deus” evoca a ação divina, tornando imaginável uma presença que intervém, orienta ou cria. Em A criação de Adão, de Michelangelo, no teto da Capela Sistina, essa relação ganha uma de suas formas mais conhecidas: Deus estende a mão em direção a Adão, e seus dedos indicadores quase se encontram. A composição concentra nesse gesto o tema da transmissão da vida. O pequeno intervalo entre os dedos mobiliza nosso olhar. Há aproximação, expectativa e possibilidade de contato. Podemos encontrar nesta imagem uma pergunta que também pertence ao cotidiano: conseguiremos alcançar o outro? A mão estendida para alguém que caiu, para quem precisa de cuidado ou para quem procura abrigo transforma essa possibilidade em ação. O gesto só se completa quando a disposição de ajudar encontrar uma resposta concreta.

Mas as mãos também carregam as marcas dos riscos. Em Maltravieso, diversas representações apresentam ausência aparente do dedo mínimo. É um detalhe que provoca curiosidade e exige prudência: a falta de um dedo na imagem não comprova sua ausência no corpo. Ele poderia estar dobrado ou ocultado durante a aplicação do pigmento. Não podemos afirmar que aquelas pessoas perderam o dedinho em acidentes, no trabalho ou em práticas rituais. A evidência permite formular perguntas; não autoriza qualquer resposta.

É como aproximação simbólica, e não como equivalência histórica, que podemos relacionar essas imagens à mão de Luiz Inácio Lula da Silva. Em 1964, quando trabalhava como jovem operário metalúrgico, Lula perdeu o dedo mínimo da mão esquerda em um acidente de trabalho. Nesse caso, conhecemos a origem da ausência: ela faz parte de sua experiência concreta no trabalho industrial. A mão marcada pelo acidente lembra que o corpo guarda acontecimentos. O esforço, o desgaste e as condições de trabalho podem deixar consequências duradouras. Reconhecer essa história implica valorizar quem trabalha e defender sua proteção. Perder uma parte do corpo não deve ser romantizado como prova de dedicação. A dignidade está na pessoa, em sua trajetória e em seus direitos. Uma pessoa que perde um dedo permanece inteira em sua humanidade.

Nesse ponto, a mão volta a se erguer diante de nós: pare e reflita! Há pelo menos 66 mil anos, os seres humanos enfrentam os desafios da sobrevivência. Precisavam encontrar alimento, lidar com as condições ambientais, cuidar de si e manter relações que possibilitassem a continuidade da vida. Não conhecemos todos os perigos vividos por quem deixou a mão em Maltravieso, mas sabemos que a vulnerabilidade acompanha a existência humana. Hoje, continuamos vulneráveis. Mudaram as ferramentas, os conhecimentos, as instituições e muitas das ameaças. Vivemos transformações profundas, que não podem ser apagadas por uma comparação simples com a pré-história. Entretanto, quando observamos nossas necessidades fundamentais, talvez não tenhamos mudado tanto quanto gostamos de imaginar. Ainda precisamos comer, morar, pertencer, cuidar e receber cuidado. Ainda sentimos medo da perda, buscamos segurança e dependemos de outras pessoas. A tecnologia ampliou nossas possibilidades, mas não eliminou a fome, a violência, os acidentes ou a desigualdade. Temos recursos que nossos antepassados não poderiam conceber e continuamos diante de uma questão antiga: como sustentar a vida em meio aos riscos?

Hoje, essa pergunta exige também responsabilidade pelas condições que produzimos. Muitos perigos podem ser prevenidos; muitas perdas podem ser evitadas. A sobrevivência humana envolve esforço e cooperação. Uma mão isolada tem limites; mãos que trabalham juntas podem ampliar as possibilidades de cuidado e proteção. Essa constatação atravessa nosso cotidiano, do alimento que chega à mesa ao atendimento de saúde, da construção de uma casa à preservação de um sítio arqueológico. Dependemos de trabalhos e conhecimentos que frequentemente não vemos, realizados por pessoas cujas mãos sustentam a vida coletiva.

A mão de Maltravieso, a mão de Alcinópolis, os dedos quase unidos de Michelangelo e a mão de Lula pertencem a histórias distintas. Reunidas nesta reflexão, chamam nossa atenção para a presença, a criação, o trabalho e a vulnerabilidade. Elas nos permitem reconhecer que o passado não é apenas distância: também é uma oportunidade de interrogar o presente. Então, levante a mão. Pare e reflita! Se ainda compartilhamos necessidades tão antigas, o que estamos fazendo com o conhecimento que acumulamos? Como protegemos as mãos que trabalham? A quem estendemos as nossas? Que marcas deixaremos para quem vier depois? Talvez não tenhamos mudado tanto em nossos medos e em nossa necessidade de amparo ao longo de 66 mil anos. Mas podemos mudar a maneira de responder a eles. A mão aberta diante de nós pode ser uma advertência e um convite: interromper a indiferença, reconhecer a fragilidade da vida e assumir o cuidado como responsabilidade.

Há milênios procuramos sobreviver. Hoje, temos também o dever de criar condições para viver com dignidade. Levantemos as mãos, mesmo que nos faltem dedos! Na imagem do passado, a ausência aparente de um dedo atravessou milênios e chegou até nós: resistiu ao tempo como testemunho de uma presença humana. No presente, os nove dedos marcados pela história do trabalho tornam-se símbolo da resistência de uma nação, da luta por dignidade e da esperança de quem insiste em construir um futuro melhor. A história é cíclica naquilo que nos desafia novamente: o medo, a desigualdade, a necessidade de proteção e a busca por pertencimento. Mas cada retorno também oferece a possibilidade de escolher outros caminhos. Se aquelas mãos resistiram ao tempo, que as nossas resistam à indiferença! Repito: levantemos as mãos, mesmo que nos faltem dedos! Os vestígios do passado resistiram até nós; os nove dedos de hoje representam a resistência de uma nação. Que saibamos segurar essa mão e transformar a esperança em compromisso com a vida, a memória em aprendizado e a dignidade em realidade.

Tag's: arqueologia, Lula, política

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