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Ilustração: @lele.artee, 2026
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Beatriz Gomes Cruz em Projeto Ensaios Psicóloga e mestranda em Psicologia pela UFMS. E-mail: cgbeatrizcruz@gmail.com | Publicado em 31 de outubro de 2026

Beatriz Gomes Cruz
Psicóloga e mestranda em Psicologia pela UFMS. E-mail: cgbeatrizcruz@gmail.com
31/10/2026 em Projeto Ensaios

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Corpos que envelhecem, mulheres que reexistem

[Coautoras: Tayna Schoeffel Rodrigues Neto[1] e Natasha Garcia Coelho[2]]

O corpo da mulher é, desde cedo, atravessado por expectativas sociais que o submetem a padrões rígidos de aparência e juventude. Diferentemente dos homens – para os quais o envelhecer costuma ser associado ao acúmulo de prestígio –, para as mulheres, o envelhecer é vivido como uma perda do valor social. O que deve se colocar em questão não é apenas a posição ocupada na estrutura produtiva, mas o próprio valor simbólico da existência da mulher. Nesse sentido, o etarismo opera por meio de um processo lento e progressivo de invisibilização, tratando um processo natural como um declínio a ser camuflado para que a mulher permaneça socialmente aceita.

Essa dinâmica revela mais sobre valores que organizam a cultura do que sobre o corpo em si. O ciclo da vida é mediado por normas que priorizam o imperativo da juventude em detrimento da organicidade, reduzindo o corpo a  um mero objeto  que precisa ser “consertado”. No Brasil, país que ocupa a segunda posição mundial em cirurgias plásticas, o vigor juvenil tornou-se um marcador de prestígio e valor econômico. Tais procedimentos, majoritariamente procurados por mulheres, comprovam o poder estratégico da indústria da beleza em transformar o desejo de pertencimento em mercadoria lucrativa, sob a promessa de restaurar o reconhecimento, visibilidade e aceitação social. Importante destacar que essa pressão não atinge todas as mulheres da  mesma forma, ela é atravessada por marcadores de raça e classe, que determinam quais corpos possuem direito ao cuidado e quais são precocemente descartados (Beauvoir, 1970; Butler, 2003).

Ao privilegiar uma representação única de ser “mulher”, sustenta-se uma identificação que serve como base para a regulação das subjetividades femininas. Contudo, a impossibilidade de alcançar essa perfeição inatingível gera conflitos subjetivos difíceis de sustentar. Desse descompasso emergem diferentes formas de sofrimentos que muitas vezes são silenciadas. O filme A Substância (2024) ilustra esse quadro de maneira simbólica: a protagonista Elizabeth Sparkle, ao ser demitida por envelhecer, recorre a uma droga clandestina para construir uma versão “perfeita” de si mesma, enquanto sua identidade original é progressivamente isolada e mutilada. Tal narrativa revela que o mal-estar da mulher que envelhece é um sintoma cultural de uma sociedade que nega sua integralidade.

Diante da crescente medicalização do desejo de juventude, impõe-se uma reflexão: será que a resistência feminina à passagem do tempo é realmente uma escolha autônoma ou uma internalização, mesmo que inconsciente, da pressão para manter uma aparência idealizada? Essa pergunta convida a uma análise crítica acerca das complexas relações entre identidade e mercado, incentivando o leitor a problematizar posicionamentos diante de padrões economicamente explorados.

Para compreender essa exclusão, as lentes teóricas de Simone de Beauvoir e Judith Butler são essenciais. Beauvoir (1970) analisa a rejeição aos corpos envelhecidos como expressão de um medo coletivo da finitude e da improdutividade, que permeia os discursos que desvalorizam a mulher madura. Butler (2003), por sua vez, discute os regimes de visibilidade, evidenciando como o envelhecimento rompe com padrões normativos de desejo, tornando-se “ilegível” e desestabilizando os parâmetros de aceitação. Essa diferenciação mantém as mulheres confinadas a uma luta exaustiva contra o tempo, enquanto os homens podem habitar a maturidade com maior liberdade.

Ao planejar o próprio envelhecimento de forma consciente, a mulher subverte a lógica da aprovação externa. Essa postura aponta para a necessidade de ir além do debate estético para pensar a saúde de modo integral – incluindo o bem-estar emocional e a inserção social –, aspectos frequentemente negligenciados por visões mecanicistas. A interpretação de processos naturais, como a menopausa, muitas vezes reforça a restauração de uma performance juvenil em vez do acolhimento das novas subjetividades. Assim, é urgente um paradigma que compreenda o envelhecimento como uma forma artesanal de existir, oposta à lógica da eficiência, baseada em uma relação mais honesta com o próprio corpo.

Valorizar a trajetória vivida é o caminho para romper com a sensação de impotência diante da passagem do tempo. Como propõe Joyce Moreno na música “Velha maluca”: “No dia em que ficou velha / A moça ficou contente / Pra ela era indiferente / Foi bom pra se libertar / Da escravidão da beleza / Do empenho em viver bonita / E ser a velha esquisita / Maluca de arrepiar”. Se a dita normalidade nos sugere ser sempre outra, moldada por padrões inalcançáveis, talvez a verdadeira libertação resida em assumir o risco de ser um pouco maluca. Ao desvincular seu valor desses imperativos, a mulher recupera a soberania sobre sua história, transformando marcas de expressão em registros de uma identidade que se recusa a silenciar. Nesse sentido, reconhecer o tempo é afirmar a maturidade como uma presença potente e política, ancorada na capacidade de narrar a própria trajetória com inteireza. Assim, envelhecer deixa de ser um fardo para tornar-se o alicerce de uma nova forma de estar no mundo: uma presença que se afirma na bagagem acumulada e na liberdade de quem não precisa pedir licença para existir.

Referências

A SUBSTÂNCIA. Direção de Coralie Fargeat. Reino Unido/EUA/França: MUBI, 2024. 1 filme (141 min)


BEAUVOIR, S. de. A velhice. Nova Fronteira, 1970.

BUTLER, J. Corpos que importam: Sobre os limites discursivos do “sexo”. Editora ABC, 2003.

INTERNATIONAL SOCIETY OF AESTHETIC PLASTIC SURGERY. (2020). ISAPS international survey on aesthetic/cosmetic procedures. Disponivel em:  https://www.isaps.org

LIMA, C. F. da M.; RIVEMALES, M. da C. C. Corpo e envelhecimento: Uma reflexão. Estudos Interdisciplinares sobre o Envelhecimento, v. 18, n. 1, 153–166, 2013. Disponível em: https://doi.org/10.5007/1808-4281.2013v18n1p153

MORENO, Joyce. A velha maluca. In: 50. São Paulo: Biscoito Fino, 2018. CD/Disco. Faixa 13.

SANTOS, M. H. A.  Envelhecimento e saúde integral da mulher: Desafios contemporâneos. Revista Brasileira de Saúde da Mulher, v. 12, n. 3, 45–62, 2020.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE CIRURGIA PLÁSTICA. Relatório de cirurgias estéticas, 2021. Disponível em: https://www.sbcp.org.br

[Revisão de Khadija de Oliveira Moreira e Maria Eduarda Rodrigues. Revisão final e edição de Rosângela Chaves]


[1] Psicóloga. Graduada e mestranda em Psicologia pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). E-mail: schoeffel.tayna@ufms.br

[2] Graduanda em Filosofia pela UFMS. E-mail: n.garcia@ufms.br

O artigo é o 12° da nona edição do Projeto Ensaios, um projeto de divulgação filosófica coordenado pelo professor Weiny César Freitas Pinto, do curso de Filosofia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em parceria com o site Ermira Cultura, que visa colocar em diálogo a produção acadêmica com a opinião pública por meio da publicação de ensaios. Até o dia 26 de dezembro, sempre aos sábados, serão publicados em Ermira textos de estudantes, pesquisadores e professores de diversos lugares do país, envolvendo diversas áreas do conhecimento, em diálogo com a filosofia. Confira os outros textos publicados nesta edição:

  1. O romance familiar no mito de Perseu,  de Ana Tércia Rosa Alves e Weiny César Freitas Pinto.
  2. Educação como mercadoria? Ciências Humanas em tempos de metodologia Steam,  de Bruna Mariane Gomes de Camargo, Juarez Moreno de Camargo e Silva e Pedro Damasceno Uchôas.
  3. Dizer ‘não’ é um direito? A diferença entre seguir a consciência e protestar, de Gabriel Filipe Rosa Alves e Tiago Koutchin.
  4. Sobre o direito de ir e vir, como mulher, de Maria Clara de Freitas Barcelos e Maíra de Souza Borba.
  5. Quando o desejo silencia: apagamento de si e suicídio entre universitários, de Tayna Schoeffel Rodrigues, Beatriz Gomes Cruz e Natasha Garcia Coelho.
  6. O fim do outro entre o toque das telas , de Carlos Busón Buesa e Weiny César Freitas Pinto.
  7. Travesti é substantivo coletivo: o que a cultura ballroom ensina sobre a vida, de Jolie Gregório Caetano e Jeferson Camargo Taborda.
  8. “Pensar com as mãos”, de Luiggi de Barros Cestari e Pedro Damasceno Uchôas.
  9. A ilusão da neutralidade: afeto e ética na formação do psicólogo sob a perspectiva psicanalítica, de Giovana Santos e  Alexsandro Nobres de Moura.
  10. Pois o mesmo é pensar e ser, de Gabriel Luiz Campos Dalpiaz e Vinícius Carvalho da Silva.
  11. A coisa mais importante do mundo é invisível e imaterial, de Davi Barbosa Ferreira e Ronaldo Amaral.

Tag's: envelhecimento, etarismo, feminismo, mulheres

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