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Ilustração: @lele.artee, 2026
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Tayna Schoeffel Rodrigues Neto em Projeto Ensaios Psicóloga e mestranda em Psicologia pela UFMS. E-mail: schoeffel.tayna@ufms.br | Publicado em 29 de agosto de 2026

Tayna Schoeffel Rodrigues Neto
Psicóloga e mestranda em Psicologia pela UFMS. E-mail: schoeffel.tayna@ufms.br
29/08/2026 em Projeto Ensaios

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Quando o desejo silencia: apagamento de si e suicídio entre universitários

[Coautoras: Beatriz Gomes Cruz[1] e Natasha Garcia Coelho[2]]

O suicídio apresenta-se como um dos mais graves problemas de saúde pública no Brasil, afetando a população jovem e universitária. Entre os anos de 2000 e 2022, o suicídio foi responsável por 4,02% das mortes entre pessoas de 10 a 29 anos e por 4,21% entre jovens adultos, segundo o relatório técnico Adolescência e suicídio: um problema de saúde pública. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que no país cerca de 38 pessoas tiram a própria vida diariamente e, para cada morte, ocorrem em média outras 20 tentativas. Mais do que dimensionar a gravidade do fenômeno em números, é preciso interrogar o que essas cifras encobrem. Que formas de vida estão sendo postas em xeque? Que arranjos subjetivos, institucionais e sociais tornam a existência, para tantos jovens, algo difícil de sustentar, por vezes insuportável? O que se cala quando se reduz o sofrimento universitário a um dado epidemiológico?

É assim que o conceito de apagamento de si torna-se particularmente fecundo. Lido à luz da psicanálise lacaniana, ele se articula com o conceito de afânise, isto é, ao desaparecimento do sujeito como desejante, processo que ocorre quando o desejo não encontra espaço de inscrição simbólica. O apagamento de si, nesse sentido, manifesta-se como um esvaziamento da identidade, perda de si e sensação de invisibilidade no laço social. Esse fenômeno pode ser observado em relatos de estudantes que, em contextos de escuta clínica e institucional, expressam sentimentos de desaparecimento, inadequação e desamparo, frequentemente associados a quadros de sofrimento intenso e a tentativas de suicídio.

Embora a universidade seja tradicionalmente concebida como um espaço de formação integral, crítica e emancipatória, ela também pode se constituir como cenário de profundo sofrimento psíquico. A contradição entre o discurso de promoção da autonomia está acompanhada de cobranças constantes e revela-se como um dos principais fatores de desgaste subjetivo. Não surpreende, portanto, que pesquisas recentes venham apontando índices expressivos de ideação e tentativa de suicídio entre universitários, associados sobretudo ao adoecimento psíquico e às vulnerabilidades socioeconômicas que atravessam a vida estudantil (Moraes et al., 2021). Mais do que números, esses achados sinalizam um modo de habitar a universidade marcado pelo esgotamento e pela solidão.

Nesse contexto, a lógica funcionalista da universidade, conforme problematizada por Villani e Barolli (2006), opera muitas vezes como instância de exclusão, desconsiderando a singularidade subjetiva em prol de metas e indicadores de desempenho, o que contribui para a fragmentação do sujeito.

A partir da perspectiva psicanalítica, especialmente na leitura lacaniana, é possível compreender que o sofrimento psíquico experimentado por muitos estudantes está vinculado à falta de reconhecimento simbólico por parte do Outro, no caso, a universidade. A afânise é quando o desejo da pessoa “apaga”, desaparece. Isso acontece quando o ambiente ao redor (família, sociedade, cultura) impõe um modelo de vida, de sucesso ou de comportamento que não combina com quem ela é de verdade. Sem espaço para ser ouvida, reconhecida ou existir do seu próprio jeito, a pessoa perde a conexão com o que ela mesma quer, e o desejo entra em colapso. Essa ruptura pode se manifestar em formas extremas de sofrimento, como tentativas de atos suicidas, entendidos aqui não como meros sintomas clínicos, mas como uma resposta desesperada diante da impossibilidade de sustentar-se como sujeito no laço social. Como destaca Dunker (2015), todo sofrimento psíquico é marcado por uma narrativa que envolve perdas, rompimentos e silenciamentos, e só pode ser compreendido se escutado em sua complexidade simbólica.

Diante desse cenário, talvez a questão mais urgente não seja como intervir, mas como escutar. Ser escutado devolve ao estudante a possibilidade de se reconhecer como sujeito e de reencontrar seu desejo, em vez de apenas silenciar sintomas.

Por isso, são necessárias políticas públicas e estratégias institucionais comprometidas com a vida e a singularidade dos estudantes, sobretudo a criação de espaços de escuta e acolhimento psicológico, como serviços de apoio e laboratórios de cuidado, que não se limitem à medicalização, mas abram lugar para a reinscrição subjetiva.

Além disso, é fundamental investir na formação de profissionais sensibilizados para a escuta clínica e ética da dor psíquica, bem como na revisão das práticas institucionais que atuam como dispositivos de exclusão. Mais do que oferecer respostas imediatas ou soluções generalistas, trata-se de abrir espaço para que o sujeito possa reconstruir sua narrativa, reinscrever seu desejo e encontrar, no espaço universitário, uma possibilidade de existência simbolicamente reconhecida. Talvez o maior desafio da universidade não seja formar, mas deixar ser. Fazer dela uma morada onde o existir, em sua finitude e abertura, encontre o cuidado necessário para sustentar-se como presença no mundo.

Referências

DUNKER, Christian Ingo Lenz. Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros. São Paulo: Boitempo, 2015.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1973.

MORAES, Rafael Medeiros de et al. Prevalência de ideação e tentativas de suicídio entre estudantes universitários. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, v. 70, n. 1, p. 21–28, 2021.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Suicide worldwide in 2019: global health estimates. Geneva: WHO, 2021.

RELATÓRIO TÉCNICO. Adolescência e suicídio:um problema de saúde pública. Brasília: Ministério da Saúde, 2022.

VILLANI, Pedro de Souza; BAROLLI, Elcie Aparecida Fortes Salzano. Universidade e produtividade: os significados do trabalho docente. Educação e Sociedade, Campinas, v. 27, n. 95, p. 987–1007, 2006.

[Revisão de Maria Eduarda Rodrigues e Khadija de Oliveira Moreira. Revisão final e edição de Rosângela Chaves]


[1] Beatriz Gomes Cruz é psicóloga clínica, graduada em Psicologia pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e mestranda em Psicologia pela mesma instituição. É membro do Corpo Freudiano, no núcleo de Campo Grande-MS. E-mail: cgbeatrizcruz@gmail.com

[2] Natasha Garcia Coelho é graduanda em Filosofia pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). E-mail: n.garcia@ufms.br

O artigo é o quinto da nona edição do Projeto Ensaios, um projeto de divulgação filosófica coordenado pelo professor Weiny César Freitas Pinto, do curso de Filosofia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em parceria com o site Ermira Cultura, que visa colocar em diálogo a produção acadêmica com a opinião pública por meio da publicação de ensaios. Até o dia 26 de dezembro, sempre aos sábados, serão publicados em Ermira textos de estudantes, pesquisadores e professores de diversos lugares do país, envolvendo diversas áreas do conhecimento, em diálogo com a filosofia. Confira os outros textos publicados nesta edição:

  1. O romance familiar no mito de Perseu | ERMIRA,  de Ana Tércia Rosa Alves e Weiny César Freitas Pinto.
  2. Educação como mercadoria? Ciências Humanas em tempos de metodologia Steam | ERMIRA,  de Bruna Mariane Gomes de Camargo, Juarez Moreno de Camargo e Silva e Pedro Damasceno Uchôas.
  3. Dizer ‘não’ é um direito? A diferença entre seguir a consciência e protestar | ERMIRA, de Gabriel Filipe Rosa Alves e Tiago Koutchin.
  4. Sobre o direito de ir e vir, como mulher | ERMIRA, de Maria Clara de Freitas Barcelos e Maíra de Souza Borba.

Tag's: psicologia, suicídio, universidade pública

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