[Coautora: Maíra de Souza Borba[1]]
“Mulher, acorda; a voz da razão é ouvida em todo o universo; reconhece teus direitos”
Olympe de Gouges
Um ano atrás eu escrevi o ensaio “Um disfarce para a violência?” (Barcelos, 2025) e se naquele tempo ainda havia um “disfarce”, hoje vemos a violência completamente escancarada. É a mesma violência (verbal, psicológica e física), motivada pelos grupos misóginos, principalmente pela internet. Nos últimos meses (entre janeiro e março de 2026), não houve um dia sequer em que eu entrei nas redes sociais ou em portais jornalísticos e não vi um caso de violência contra a mulher, ressaltando aqui especialmente os altos índices dessa violência em seu estágio final: o feminicídio.
De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2026), em 2025, 1.568 vítimas foram mortas pelo fato de serem mulheres, sendo esse o maior número constatado na década 2015-2025. Os corpos femininos estão a cada ano desaparecendo mais e mais rápido. O direito feminino de ir e vir, de ser e estar, está comprometido, visto que, apenas por existir, já estamos em perigo.
Outro fato importantíssimo a ser considerado é que esses dados relatam um número maior de mortes de mulheres negras. Quer dizer, nem a Lei Maria da Penha, nem a Lei do Feminicídio, nem a Lei do Racismo puderam protegê-las. Os dados escancaram os três maiores problemas sociais do país: o racismo, a desigualdade de gênero e a desigualdade de classes sociais. Nesse sentido, evidencia-se também que parte dos crimes ocorreu contra mulheres que contavam com medidas protetivas de urgência. Ou seja, nem as medidas protetivas nos protegem efetivamente.
É curioso como o mundo vivencia na atualidade um avanço tecnológico nunca antes presenciado e, ainda assim, permanece socialmente atrasado: nós mulheres não temos nossos direitos garantidos, na verdade, estamos perdendo-os. Por exemplo, foi e está sendo alterada a lei que garante o aborto legalizado nos casos de estupro, risco de vida da mãe e gravidez de menores de idade, de forma a restringir o acesso ao procedimento.
Nesse meio tempo, em que você, leitor, já passou do um minuto de leitura, é suficiente para que, em média, duas mulheres sejam estupradas. Esse dado foi levantado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que contabilizou o número estimado de estupros por ano no Brasil: 822 mil.
Infelizmente, esse número está fadado ao crescimento. O que presenciamos nas redes sociais é um dos pontos de partida para a naturalização da violência contra a mulher na sociedade. Se a mulher apanha, é porque mereceu. Se não apanha, é obediente e deve andar na linha, pois, ao primeiro sinal de insubmissão, vai apanhar. E se não aprender apanhando, uma hora vai morrer. Se morrer, é porque mereceu. Essa lógica, mesmo que (às vezes) implícita, é o ensinamento principal do movimento Red Pill[2]. Afinal, coitados dos homens, que estão sempre sofrendo tanto desrespeito.
É, dá pena mesmo. O patriarcado vigente ensina aos meninos, desde o berço, que não é “coisa de homem” refletir sobre os próprios sentimentos. Na verdade, não se pode nem sentir, quem sente são as mulheres e Deus me livre de ser mulher! Desde o início da vida o homem aprende que deve engolir o choro e manter sua posição de vantagem, negando e se distanciando de ser, parecer ser ou gostar de qualquer elemento do mundo feminino, custe o que for. Assim, não há espaço para os temores, o amor, as borboletas no estômago e nem para a tristeza. Coisas que todos nós sentimos, mas que nesses indivíduos (pelo menos em grande parte deles) ficam reprimidas e se transformam para serem externalizadas (muitas vezes em raiva).
Um grupo frágil como esse se atrai facilmente por uma narrativa que indica que há um grupo de seres inferiores a eles, gerando abertura total para discursos misóginos, racistas, homofóbicos e elitistas. Portanto, as ideias Red Pill não encontraram melhor momento para questionar a famosa “masculinidade” que o ápice da comunicação digital que, embora tenha suas vantagens, também contribui para uma intensificação da fragilidade desses sujeitos.
Entretanto, não se engane, o patriarcado é presente na sociedade há séculos. Um dos primeiros documentos elaborados na intenção de estabelecer direitos femininos foi a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã (1791), proposta por Olympe de Gouges, em meio à Revolução Francesa. O documento é em sua essência como a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789), exceto que, em vez de dizer “Os homens nascem e são livres e iguais em direitos” (França, 1789), diz: “A Mulher nasce livre e permanece igual ao homem em direitos” (Gouges, 1791, tradução própria). Os artigos são escritos quase que igualmente, mas sempre instituindo todos os direitos dos homens também às mulheres. O choque ao ler esses documentos é perceber que lutamos hoje pelos mesmos direitos que temos lutado desde o século XVIII, quem sabe até antes.
Diante do contexto atual, as expectativas são péssimas. De fato, se continuarmos neste caminho de naturalização da violência contra a mulher, retrocederemos, nos distanciando cada vez mais da liberdade, igualdade e fraternidade (não que esse seja o modelo de sociedade ideal, mas são alguns aspectos mínimos aos quais devemos todos ter direito).
Contudo, há uma luz no fim do túnel. Em março de 2026, quando escrevo este ensaio, foi aprovada pelo Senado a Lei da Misoginia (PL 896/2023), finalmente aprovada. O projeto prevê uma adição à Lei do Racismo, que coloca, ao lado de “raça, cor, etnia, religião, procedência nacional”, o trecho “ou em razão de misoginia” (Brasil, 2023). Porém, já não basta o absurdo que foi o início do trâmite desta lei apenas neste ano, após milhões de mulheres violentadas e milhares mortas, quando o presidente da Câmara dos Deputados decidiu não incluir o PL nas pautas de votações até as eleições de outubro. Quer dizer, ainda há um grandiosíssimo trabalho a se fazer, sendo necessária uma grande ação de conscientização e (re)educação dos homens e meninos brasileiros.
[Revisão de Maria Eduarda Rodrigues e Khadija de Oliveira Moreira. Revisão final e edição de Rosângela Chaves]
Referências
BRASIL. Projeto de Lei nº 893/2023. Altera a Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, para incluir os crimes praticados em razão de misoginia. Brasília, DF: Senado Federal, 2023. Disponível em: https://legis.senado.leg.br/sdleg-getter/documento?dm=9279920&ts=1774909615425&rendition_principal=S&disposition=inline. Acesso em: 31 mar. 2026.
BARCELOS, M. C. Um disfarce para a violência?. Projeto Ensaios/Ermira Cultura, 11 out. 2025. Disponível em: https://ermiracultura.com.br/2025/10/11/um-disfarce-para-a-violencia/. Acesso em: 25 mai. 2026.
CARDOSO, R. Entenda o que são “redpill” e outros termos de ódio contra mulheres. Agência Brasil, 13 mar. 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2026-03/entenda-o-que-sao-redpill-e-outros-termos-de-odio-contra-mulheres. Acesso em: 25 mai. 2026.
FRANÇA. Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789. Paris, 1789. Disponível em: https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/414/2018/10/1789.pdf. Acesso em: 31 mar. 2026.
FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Retratos dos Feminicídios no Brasil. Coordenado por Samira Bueno, realizado por Beatriz Schroeder, Isabela Sobral e Isabella Matosinhos. 2026. Disponível em: https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2026/03/nota-tecnica-dia-mulher-2026.pdf. Acesso em: 31 mar. 2026.
GOUGES, O. Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne. Paris: Assemblée Nationale, 5 set. 1791. Disponível em: https://www.assemblee-nationale.fr/dyn/histoire-et-patrimoine/revolution-francaise/declaration-des-droits-de-la-femme-et-de-la-citoyenne-olympe-de-gouges. Acesso em: 31 mar. 2026.
IPEA. Brasil tem cerca de 822 mil casos de estupro a cada ano, dois por minuto. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, 2023. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/portal/categorias/45-todas-as-noticias/noticias/13541-brasil-tem-cerca-de-822-mil-casos-de-estupro-a-cada-ano-dois-por-minuto. Acesso em: 31 mar. 2026.
[1] Professora adjunta do curso de Filosofia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). E-mail: maira.borba@ufms.br
[2] “Termo inspirado no filme Matrix, em que o protagonista toma uma pílula vermelha que dá a ele consciência da realidade. Na machosfera, descreve homens que acreditam ter ‘despertado’ para uma suposta realidade em que as mulheres manipulam e exploram os homens. Pregam que o homem deve reassumir o domínio e manter a mulher submissa” (Cardoso, 2026). Este é o nome de um dos grupos que mais tem dominado as redes sociais.
O artigo é o quarto da nona edição do Projeto Ensaios, um projeto de divulgação filosófica coordenado pelo professor Weiny César Freitas Pinto, do curso de Filosofia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em parceria com o site Ermira Cultura, que visa colocar em diálogo a produção acadêmica com a opinião pública por meio da publicação de ensaios. Até o dia 26 de dezembro, sempre aos sábados, serão publicados em Ermira textos de estudantes, pesquisadores e professores de diversos lugares do país, envolvendo diversas áreas do conhecimento, em diálogo com a filosofia. Confira os outros textos publicados nesta edição:
- O romance familiar no mito de Perseu | ERMIRA, de Ana Tércia Rosa Alves e Weiny César Freitas Pinto.
- Educação como mercadoria? Ciências Humanas em tempos de metodologia Steam | ERMIRA, de Bruna Mariane Gomes de Camargo, Juarez Moreno de Camargo e Silva e Pedro Damasceno Uchôas.
- Dizer ‘não’ é um direito? A diferença entre seguir a consciência e protestar | ERMIRA, de Gabriel Filipe Rosa Alves e Tiago Koutchin.




