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Ilustração: @mar.cozta, 2026
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Luiggi de Barros Cestari em Projeto Ensaios Licenciado em Filosofia e bacharel em Direito. E-mail: luiggi.barros@ufms.br | Publicado em 19 de setembro de 2026

Luiggi de Barros Cestari
Licenciado em Filosofia e bacharel em Direito. E-mail: luiggi.barros@ufms.br
19/09/2026 em Projeto Ensaios

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“Pensar com as mãos”

[Coautor: Pedro Damasceno Uchôas[1]]

É comum ouvirmos que o trabalho seria apenas uma atividade econômica, reduzida à produção de bens e serviços no mercado. No entanto, será que essa visão não empobrece o que o trabalho significou e ainda pode significar para a experiência humana? Afinal, antes de ser uma categoria econômica, o trabalho esteve ligado à própria constituição do ser humano como ser consciente, criador e até mesmo “mágico”. O problema que orienta este ensaio é justamente compreender como o trabalho, longe de ser um mero meio de sobrevivência, estrutura a nossa capacidade de transformar o mundo e de sonhar com outras realidades.

Para isso, retomaremos a reflexão de Ernst Fischer, especialmente em A necessidade da arte, que enxerga no trabalho a gênese da consciência simbólica e da própria arte. Segundo Ernst Fischer, o trabalho não pode ser reduzido a uma atividade puramente econômica. Ele é, antes, uma condição fundamental por meio da qual o ser humano transforma criativamente a natureza para atender suas necessidades. Dessa transformação real do mundo material nasce um equivalente no plano da imaginação: o desejo de um trabalho mágico, capaz de alterar a realidade por meios simbólicos. Assim, o ser humano se revela, por princípio, como um ser mágico, cuja consciência não se limita ao concreto, mas projeta-se no reino do possível e do imaginado.

Fischer, dialogando com Marx, observa que o homem se apodera da natureza transformando-a, mas também sonha com uma transformação mágica dos objetos (Fischer, 1983, p. 21). Esse equivalente imaginário do trabalho real mostra que somos, desde a origem, seres que unem técnica e magia. Essa humanidade que se realiza no devir constitui-se historicamente em simbiose com a ferramenta. Não se pode dizer se o ser humano ou a ferramenta surgiu primeiro: ambos são coemergentes. Um organismo biológico tornou-se humano justamente ao fabricar instrumentos, transformando objetos naturais em prolongamentos de sua vontade.

Para Fischer, o salto qualitativo repousou sobre um órgão concreto: a mão, identificada como o órgão essencial da cultura e iniciador do processo de humanização. O surgimento do ser humano resultou de interações complexas – aperfeiçoamento da visão, postura ereta, crescimento do cérebro, mudanças na alimentação –, mas foi a mão o órgão diretamente decisivo. Foi por meio dela que a razão se libertou e a consciência propriamente humana pôde florescer. No entanto, os homens não nascem sabendo fazer ferramentas: precisam aprender pela experiência, pelo ensaio e erro.

A ação determinada por um propósito – o trabalho plenamente desenvolvido – foi o ápice de um longo processo de humanização. Existência consciente significa ação consciente. Diferentemente de outros organismos, cujo metabolismo com o mundo é imediato, o trabalho humano constitui um metabolismo mediado: os meios precedem o propósito, e o próprio propósito se revela pelo uso desses meios. A descoberta da eficiência dos instrumentos não é uma mera constatação, mas uma revolução cognitiva. Para o animal, a natureza é um dado imutável; para o ser humano que manipula instrumentos substituíveis, a observação torna-se ativa, prospectiva e orientada a fins.

O que surge neste ato aparentemente simples é a descoberta de um universal: a existência de múltiplas possibilidades e a capacidade de escolher os meios mais eficazes (Fischer, 1983, p. 26). Nasce a noção de que, num primeiro momento, nada é definitivamente impossível – basta encontrar o instrumento adequado. Essa conquista de uma força potencialmente ilimitada sobre a natureza é uma das raízes profundas da magia e, consequentemente, da arte, pois ambas nascem da crença na capacidade de transformar a realidade por um ato de vontade mediado por um instrumento, concreto ou simbólico.

Fischer descreve esse processo como o estabelecimento de uma nova conexão entre centros cerebrais. Inicialmente, a fome e a visão do fruto estimulam a busca pela ferramenta. A virada decisiva ocorre quando a visão da ferramenta passa a desencadear a pergunta sobre qual fruto se poderia colher com ela. O instrumento, então, deixa de ser mero objeto para se tornar ponto de partida, meio carregado de função intencional. A função torna-se uma propriedade mágica agregada ao objeto. É a partir dessa inversão que o trabalho se torna consciente. A experimentação espontânea – o “pensar com as mãos” – começa a ser gradualmente substituída pela reflexão com propósito. O pensamento, nessa perspectiva, é uma forma de experimentação abreviada que se transfere das mãos para o cérebro, transformando a memória em experiência.

O surgimento de instrumentos padronizados, repetidos em vastas regiões geográficas, testemunha uma transformação mental profunda. Os hominídeos não estavam mais apenas reagindo a estímulos imediatos, mas copiando conscientemente um modelo comum, um padrão ideal. Esse salto da ferramenta ocasional para a ferramenta padronizada é a exteriorização de um processo interno de abstração. Assim, a consciência com propósito não precedeu a ação – foi seu resultado tardio.

Portanto, o trabalho não é apenas atividade econômica ou técnica. Ele é, como mostrou Fischer, a matriz da consciência simbólica, da magia e da arte. Ao “pensar com as mãos”, o ser humano não apenas transforma a natureza, mas também aprende a imaginar outras formas de realidade. Essa descoberta permanece viva sempre que criamos instrumentos, artefatos ou obras simbólicas: nelas, o trabalho se revela como aquilo que nos torna, ao mesmo tempo, fabricantes, mágicos e poetas.

REFERÊNCIA

FISCHER, Ernst. A necessidade da arte. 9. ed. Tradução de Leandro Konder. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1983.

[Revisão de Maria Eduarda Rodrigues e Khadija de Oliveira Moreira. Revisão final e edição de Rosângela Chaves]


[1] Doutor em Filosofia pela UFSCar e pós-doutorando do programa de pós-graduação em psicologia da UFMS. E-mail: pedruchoas@gmail.com

O artigo é o oitavo da nona edição do Projeto Ensaios, um projeto de divulgação filosófica coordenado pelo professor Weiny César Freitas Pinto, do curso de Filosofia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em parceria com o site Ermira Cultura, que visa colocar em diálogo a produção acadêmica com a opinião pública por meio da publicação de ensaios. Até o dia 26 de dezembro, sempre aos sábados, serão publicados em Ermira textos de estudantes, pesquisadores e professores de diversos lugares do país, envolvendo diversas áreas do conhecimento, em diálogo com a filosofia. Confira os outros textos publicados nesta edição:

  1. O romance familiar no mito de Perseu,  de Ana Tércia Rosa Alves e Weiny César Freitas Pinto.
  2. Educação como mercadoria? Ciências Humanas em tempos de metodologia Steam,  de Bruna Mariane Gomes de Camargo, Juarez Moreno de Camargo e Silva e Pedro Damasceno Uchôas.
  3. Dizer ‘não’ é um direito? A diferença entre seguir a consciência e protestar, de Gabriel Filipe Rosa Alves e Tiago Koutchin.
  4. Sobre o direito de ir e vir, como mulher, de Maria Clara de Freitas Barcelos e Maíra de Souza Borba.
  5. Quando o desejo silencia: apagamento de si e suicídio entre universitários, de Tayna Schoeffel Rodrigues, Beatriz Gomes Cruz e Natasha Garcia Coelho.
  6. O fim do outro entre o toque das telas , de Carlos Busón Buesa e Weiny César Freitas Pinto.
  7. Travesti é substantivo coletivo: o que a cultura ballroom ensina sobre a vida, de Jolie Gregório Caetano e Jeferson Camargo Taborda.

Tag's: Ernst Fischer, filosofia, trabalho

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