Podemos reconhecer, sem rodeios, que a morte é o fenômeno destinado a atingir todos os seres vivos. Porém, nós, seres humanos, somos os únicos a trazer conosco a consciência capaz de reconhecê-la, embora muitas pessoas, cada vez mais alienadas, insistam na vã tentativa de rechaçá-la. Diferentes pensadores mostram que o modo de vida consumista quase sempre nos afasta da reflexão aprofundada sobre o que, de fato, é o morrer. A resistência em abordar o tema talvez tenha a ver com o sentimento da dor do luto ou com a incerteza diante do desconhecido. André Comte-Sponville é certeiro ao dizer que a perda do filho, da mãe, do homem amado ou da mulher amada representa continuamente uma ferida persistente e insuportável, dado o horror com que essa perda abala nosso estado psíquico, tornando inacessíveis a alegria e até mesmo o repouso. Numa sociedade materialista, cujo interesse maior está quase sempre voltado à busca da “felicidade terrena”, o debate acerca da finitude acaba sendo excluído da agenda.
Recentemente, acompanhei um velório e ouvi um dos participantes comentar sua preocupação sobre como explicar aos filhos pequenos que estava indo a uma cerimônia de sepultamento. A aparente “obscenidade” de tocar nesse assunto me fez lembrar do antropólogo Geoffrey Gorer, que desenvolveu um estudo curiosamente intitulado “A pornografia da morte”. Segundo Gorer, citado por Ariès em A história da morte no Ocidente, quem morre se torna o tabu que, na atualidade, rivaliza com a “indecência” do sexo. Se, para muitos pais, ainda é mais fácil explicar para as crianças que os bebês são trazidos por cegonhas ou que elas, num passe de mágica, surgem de dentro dos repolhos, também, quando elas perdem um parente, alguém lhes diz que ele foi repousar “num belo jardim por entre as flores”.
Quando verificamos os variados povos com suas diferentes culturas, é fácil perceber a diversidade de sentidos atribuídos à morte. A maneira como cada tradição lida com o término da existência humana também revela o valor que atribui à vida. Há muito tempo, o estilo de vida comunitária predomina em certas cidades do interior do Brasil e permanece presente ainda hoje. A chance de viver numa sociedade marcada por vínculos próximos permite reconhecer que fazer parte dela não o torna mais importante do que os demais. Os típicos rituais de passagem pertencentes aos costumes desta comunidade, apesar da tristeza da perda, estão longe da banalização da pós-modernidade.
Vem à lembrança minha vó materna, deitada na rede do quarto, tendo sua agonia testemunhada de perto por parentes e pessoas próximas, até a chegada da despedida, sendo ali mesmo velada na presença das crianças. Diferentemente daquilo que costumeiramente acontecia há tantas décadas, hoje em dia, o crescimento dos centros urbanos e a consolidação do capitalismo ajudaram a destruir os antigos laços familiares ao lançar geralmente os mais jovens para bem longe à procura de trabalho e dinheiro, estimulando consequentemente o individualismo e enfraquecendo importantes memórias responsáveis pela construção da própria identidade. Mesmo após perder alguém tão próximo, devido à desculpa da distância, o comparecimento naquela ocasião pode ser substituído pela praticidade da mensagem de pêsames via WhatsApp, acompanhada, caso as condições favoreçam, da encomenda de uma bela coroa de flores.
Muitos consideram que a morte não é bem-vinda, apesar da sua iminente chegada. Como mostra o filme O Sétimo Selo, do cineasta sueco Ingmar Bergman, o confronto com a morte é uma partida de xadrez impossível de ganharmos. O desespero diante desse acontecimento é terrivelmente acentuado quando os valores do amor, da comunhão, da solidariedade e do perdão acabam dando espaço aos ditames burgueses do dinheiro, da competitividade exacerbada e do acúmulo irrestrito de bens materiais. Logo, é preciso resgatar a consciência da morte, o que não tem qualquer relação com a defesa de um estilo de vida mórbido e pessimista. Ao contrário, significa reconhecer na finitude da existência a chance de melhor refletirmos a respeito das escolhas capazes de nos mover em direção a uma vida mais afirmativa.
Parafraseando o bom e antigo filósofo Sêneca, não é que o tempo para vivermos seja demasiado curto, mas o problema quase sempre é o desperdício provocado por aquilo que, na essência, costuma não ter a menor importância. Assim, se aprendêssemos a investir melhor o tempo na realização das coisas que merecem atenção, tornando a vida cada vez mais autêntica e, desse modo, produtiva, evitaríamos o desperdício das horas, dos dias, dos meses e dos anos com as coisas supérfluas. Ora, quanta tolice de nossa parte, pobres mortais, adiar os planos benéficos da existência para a idade madura, ou seja, num ponto da vida que corremos o sério risco de nunca alcançar.
Bibliografia
ARIÈS, Philippe. História da morte no Ocidente. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1977.
COMTE-SPONVILLE, André. Bom dia, angústia! São Paulo: Martins Fontes, 1997.
BERGMAN, Ingmar. O Sétimo Selo (1957).
SÊNECA. Sobre a brevidade da vida. Barueri: Camelot, 2021.




