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Ilustração: @guilherme.palacio.art, 2026
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Davi Barbosa Ferreira em Projeto Ensaios Estudante de Filosofia na UFMS. E-mail: davi.b.ferreira@ufms.br | Publicado em 10 de outubro de 2026

Davi Barbosa Ferreira
Estudante de Filosofia na UFMS. E-mail: davi.b.ferreira@ufms.br
10/10/2026 em Projeto Ensaios

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A coisa mais importante do mundo é invisível e imaterial

[Coautor: Ronaldo Amaral[1]]

O filósofo Lúcio Aneu Sêneca concebe o tempo como a coisa mais preciosa do mundo que o homem pode possuir. Por isso, alerta sobre como a má utilização do tempo pode gerar graves consequências para a vida, especialmente no seu desperdício, ou seja, o desperdício da própria vida vivida, por conta de uma existência fundada no vício, na ignorância, no erro para consigo e para com os outros. Sêneca também orienta sobre como utilizar o tempo a favor do sujeito, ao tomar o controle do próprio si para poder viver de maneira sábia e prudente, tendo em vista que os valores filosóficos são utilizados para orientar a vida em direção à sabedoria. Os ensinamentos de Sêneca tocam a cada um de nós, em função de sua sensatez, de suas palavras encorajadoras para que os homens possam restaurar a fé e os valores humanos, presentes em cada um e despertados pela sabedoria.

Para Epicteto (filósofo estoico romano), é importante manter o controle de si, tomando as rédeas da própria vida e se ocupando somente do que depende de nós, ou seja, como percebemos e representamos os eventos e os acontecimentos exteriores. Todo o resto, o que pertence ao destino ou aos acontecimentos que não podem ser mudados, deve ser ignorado o tanto quanto possível. Em outras palavras, sem que eles sejam um mal para nós, isto é, nos tragam tormento e dor enquanto tomamos para nós mental e afetivamente.

Daí a importância do uso do tempo como uma forma de sabedoria que permite a melhor condução de si mesmo e que torna mais urgente a cada dia saber viver melhor, pois a maioria dos seres humanos continua se perdendo e se contentando com conteúdos fúteis, ignorando a busca por conhecimento e tornando-o, aliás, tão útil como agradável. Portanto, é importante primeiramente defender o bom uso do tempo, não o deixando esvair-se sem que possa ser percebido e bem usufruído.

O tempo é, antes de tudo, para Sêneca, produto da nossa consciência; sua percepção distensa e a gravidade do acontecimento que marcam seu passamento (como as que marcam os grandes eventos) deve-se, no fundo, mais à disposição do espírito do sujeito do que ao relógio ou ao calendário. O tempo cronológico é só uma convenção, pois o único tempo que há é o instante percebido pela consciência do sujeito ao perceber a si mesmo como um ser existente. Passado e futuro não possuem substância, pois o passado já não existe, findou-se, e o futuro ainda não é marcador de tempo ou acontecimento nenhum.

Sêneca ouvia relatos de muitos homens de sua época que reclamavam de suas vidas, dizendo que não tinham tempo para nada; que o tempo era muito curto para tudo o que desejavam realizar. Já os mais velhos queixavam-se por não terem aproveitado a vida como deveriam. Sêneca observava tais reclamações enquanto refletia se a Natureza realmente concedeu pouco tempo ao homem ou se, na verdade, a vida é curta porque é mal aproveitada.

Uma das soluções que Sêneca oferece a essa questão é a ideia de que o homem prefere acumular e defender seus bens, sempre entregue à ânsia de ter que acumular mais ou ao medo de vir a perdê-los; enquanto isso, esquece-se de viver. O tempo foi um presente da própria Natureza que não pode ser recuperado, sobretudo quando se tem consciência de que foi mal utilizado; logo, sua insuficiência não se dá por ser pouco, mas por ser mal aproveitado. Nesse contexto, mesmo que haja um tempo que não pode ser controlado, como aquele do calendário e do relógio, há um tempo interior que depende de cada um para ser bem vivido.

Um dos pontos que Sêneca aborda é a importância da busca por conhecimento, opondo-se aos vícios que possam desvirtuar o homem do melhor caminho, inclusive do seu uso para o prazer, para a recreação, desde que não impliquem nenhum desfavor à qualidade física e psíquica do sujeito. Para viver sabiamente, é necessário primeiramente ter um bom planejamento para evitar a dependência da opinião dos outros, da direção dos outros; metaforicamente, de estar à mercê das marés e dos ventos que arrastam os barcos a contragosto de seus pilotos.

A concepção do tempo, entretanto, é diferente entre os muitos filósofos que cuidaram deste tema. Santo Agostinho, por exemplo, acredita que o tempo deve ser dedicado às coisas eternas, deixando o “amor de si” pelo “amor de Deus”. Sêneca provavelmente não defenderia esse tipo de espiritualidade, pois acreditava que o homem deve dedicar mais tempo às suas próprias necessidades. Contudo, ambos concordam que o ser humano precisa dominar a si próprio, não cedendo às opiniões ou vivendo acriticamente os costumes e as ordens imputadas pelos outros. Tampouco, para ambos os filósofos, deve procrastinar no cultivo de si, na consciência que indica o bom uso do tempo em direção à vida feliz, já que a vida experimentada é aquela do instante, percebendo-o como uma possibilidade de eternizar o que não cessa. Portanto, é nítida a indignação de Sêneca ao ver aqueles homens reivindicando a maior parte de seu tempo para coisas fúteis e supérfluas, quando esse tempo, por vezes, não é suficiente para todas as realizações, inclusive as mais honrosas.

Na contemporaneidade, é notório o desperdício de tempo; basta visitar as redes sociais e ver quantas pessoas estão se perdendo em fatos sobre celebridades ou reality shows, semelhante ao que faziam os romanos, que se entregavam ao prazer frívolo dos combates nas arenas, como os que se passavam no Coliseu. Grande parte das pessoas, de ontem e de hoje, se queixa pelo bem material que perdeu, mas não pelo tempo que passou, pois esse não aparenta ser tão importante assim. Na verdade, é o único bem que nos é próprio e que somente nós podemos conceder ou subtrair a nós mesmos pelo seu mau uso.

Muitos jovens dizem que se encontram no melhor tempo para se divertir, jogar, se apaixonar, desejar coisas e bens. Já os adultos dirão que este é o tempo de reunir condições necessárias para a vida futura; estudar; trabalhar; adquirir algum bem, pois é a época do vigor físico e até mesmo intelectual. Mas quem está certo, afinal? A juventude é normalmente vista como a parte da vida em que abundam saúde e vitalidade, portanto, uma época pouco convidativa à sabedoria, que necessita de experiência, quase sempre tomada da necessidade. Quanto à busca de conhecimento que demanda tempo, é incompatível, na grande maioria das vezes, com a vida do jovem trabalhador, do jovem pai de família, cujo tempo é quase integralmente utilizado para o trabalho que visa ao sustento. A solução, também aqui, está no tempo e em duplo sentido: haver um tempo maior para o sujeito e, necessariamente, haver  consciência para seu melhor uso.

[Revisão de Khadija de Oliveira Moreira e Maria Eduarda Rodrigues. Revisão final e edição de Rosângela Chaves]

Referências

EPÍTETO: A Arte de Viver (Encheiridion): edição especial com prefácio de Lúcia Helena Galvão Maya. Tradução: Fábio Kataoka. Barueri. SP: Camelot, 2021.

SANTO AGOSTINHO. Confissões: Livro XI. Digitação: Lucia Maria Csernik. 2007.

SÊNECA, Lúcio Aneu. Sobre a brevidade da vida: edição especial com prefácio de Lúcia Helena Galvão Maya. Barueri, SP: Camelot, 2021


[1] Professor de Filosofia da UFMS com área de atuação em Filosofia Política e Ética. E-mail: r.amaral@ufms.br

O artigo é o 11° da nona edição do Projeto Ensaios, um projeto de divulgação filosófica coordenado pelo professor Weiny César Freitas Pinto, do curso de Filosofia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em parceria com o site Ermira Cultura, que visa colocar em diálogo a produção acadêmica com a opinião pública por meio da publicação de ensaios. Até o dia 26 de dezembro, sempre aos sábados, serão publicados em Ermira textos de estudantes, pesquisadores e professores de diversos lugares do país, envolvendo diversas áreas do conhecimento, em diálogo com a filosofia. Confira os outros textos publicados nesta edição:

  1. O romance familiar no mito de Perseu,  de Ana Tércia Rosa Alves e Weiny César Freitas Pinto.
  2. Educação como mercadoria? Ciências Humanas em tempos de metodologia Steam,  de Bruna Mariane Gomes de Camargo, Juarez Moreno de Camargo e Silva e Pedro Damasceno Uchôas.
  3. Dizer ‘não’ é um direito? A diferença entre seguir a consciência e protestar, de Gabriel Filipe Rosa Alves e Tiago Koutchin.
  4. Sobre o direito de ir e vir, como mulher, de Maria Clara de Freitas Barcelos e Maíra de Souza Borba.
  5. Quando o desejo silencia: apagamento de si e suicídio entre universitários, de Tayna Schoeffel Rodrigues, Beatriz Gomes Cruz e Natasha Garcia Coelho.
  6. O fim do outro entre o toque das telas , de Carlos Busón Buesa e Weiny César Freitas Pinto.
  7. Travesti é substantivo coletivo: o que a cultura ballroom ensina sobre a vida, de Jolie Gregório Caetano e Jeferson Camargo Taborda.
  8. “Pensar com as mãos”, de Luiggi de Barros Cestari e Pedro Damasceno Uchôas.
  9. A ilusão da neutralidade: afeto e ética na formação do psicólogo sob a perspectiva psicanalítica, de Giovana Santos e  Alexsandro Nobres de Moura.
  10. Pois o mesmo é pensar e ser, de Gabriel Luiz Campos Dalpiaz e Vinícius Carvalho da Silva.

Tag's: filosofia, Santo Agostinho, Sêneca, tempo

  • Pois o mesmo é pensar e ser

    por Gabriel Luiz Campos Dalpiaz em Projeto Ensaios

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    por Rosângela Chaves em Miradas

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    por Luís Araujo Pereira em Florações

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