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Imagem: Cena da rua de Berlim (Ernest L. Kirchner, 1913, detalhe)
Imagem: Cena da rua de Berlim (Ernest L. Kirchner, 1913, detalhe)
Imagem: Cena da rua de Berlim (Ernest L. Kirchner, 1913, detalhe)

Cristian Marques em Matutações Pesquisador associado da UFRGS e doutor em Filosofia pela PUCRS. E-mail: cristian.marques@ufrgs.br | Publicado em 26 de agosto de 2026

Cristian Marques
Pesquisador associado da UFRGS e doutor em Filosofia pela PUCRS. E-mail: cristian.marques@ufrgs.br
26/08/2026 em Matutações

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Transformações da subjetividade e implicações político-sociais

Pode-se dizer que a Modernidade operou uma profunda reconfiguração na noção de subjetividade, sobretudo porque foi marcada pela transição de paradigmas coletivistas e tradicionais para uma concepção centrada na autonomia e na interioridade do indivíduo. É o que nos explica o filósofo Charles Taylor, em As fontes do self (2005), segundo quem esse processo, influenciado pelo Iluminismo, pela racionalização das estruturas sociais e pela consolidação do capitalismo industrial, deslocou o eixo da subjetividade de determinações externas, tais como a religião, a tradição e sem dúvida as hierarquias estamentais, para uma ênfase na autorreflexão, na liberdade individual e na autoafirmação.

Pretendo mostrar alguns traços gerais dessa transformação de uma subjetividade constituída na exterioridade por meio de processos socioculturais para uma subjetividade moderna, estruturada em torno de um “eu”, destacando que essa transformação ocorrida na subjetividade produziu implicações profundas em nosso modo de vida. Se considerarmos que essa mudança trouxe consigo a promessa de emancipação humana, há que se ter claro que seu duplo dialético trouxe antiteticamente a geração de contradições que reverberam nas esferas política e social, tensionando as relações entre indivíduo e coletividade.

O pensamento iluminista, ao defender a razão como fundamento da autonomia, estabeleceu as bases para uma subjetividade crítica e autodeterminada e, com isso, rompeu com as visões pré-modernas que vinculam a identidade a papéis sociais fixos (Bauman, 2021, 2007; Taylor, 2005). No entanto, essa mesma racionalidade, quando instrumentalizada pelo capitalismo e pela burocracia estatal, transformou-se em um mecanismo de controle, como bem destacou Max Weber (2004) já no início do séc. XX, em sua tese sobre o “desencantamento do mundo”. Para dizer de um modo hegeliano, a subjetividade moderna, portanto, oscila entre dois polos antitéticos, sendo a potencialidade libertária da razão uma das posições téticas e o reverso da moeda a sua apropriação por sistemas que reduzem o indivíduo a categorias utilitárias (Taylor, 2005; Rosa, 2019). Categorias utilitárias, como defendeu Jeremy Bentham (2000 [1781]), passaram a ser o paradigma de fundo para a ética, a política e a economia, reduzindo a prometida liberdade individual conquistada pela razão iluminista ao cálculo de utilidade. Essa dualidade se expressa politicamente também na tensão entre democracia e alienação, para adotarmos aqui uma categoria marxiana retomada pelo sociólogo alemão Hartmut Rosa (2022) ao tratar da corrosão do espaço político atualmente.

Há que se pontuar brevemente que “democracia” refere a uma enorme quantidade de significações em disputa também, assim como nas tradições marxistas o conceito de “alienação” é tomado de maneiras quase opostas (penso aqui em Lukacs e Althusser como representantes de duas das principais correntes marxistas antagônicas entre si). Entretanto, que o leitor conceda um uso menos rigoroso desses conceitos, tomando-os por aquilo que razoavelmente funciona em certo senso comum. Desse modo, prosseguimos nossa reflexão sobre essa dualidade que se expressa politicamente, entendendo que a Modernidade promoveu ideias de igualdade e participação nas tomadas de decisão coletiva, mas, contudo, também fragmentou as experiências coletivas ao substituir, por exemplo, laços comunitários por relações mediadas pelo mercado e pelo Estado.

Não foi somente a racionalização das estruturas sociais à moda iluminista o motor de tanta transformação; é preciso apontar para a Revolução Industrial, assim como para a urbanização acelerada nesse processo (Rosa, 2019; Taylor, 2005). A dissolução de estruturas tradicionais de pertencimento, a exposição dos indivíduos a novas formas de solidão e anomia foram muito bem diagnosticadas há muito tempo por Émile Durkheim (2019) como grandemente influenciadas também pelos efeitos da Revolução Industrial e da urbanização acelerada (Virilo, 1996). A subjetividade, antes tendo por âncora uma compreensão ubíqua de estabilidade das identidades, que era transmitida pelos familiares, pelos ofícios e pelas comunidades, passou a ter como característica mais destacada o seu contrário, isto é, passou a ser uma construção volátil, sujeita às demandas mutáveis da produção capitalista (Bauman, 2021; Taylor, 2005). Portanto, o que era celebrado pelo Romantismo como sendo o refúgio último da autenticidade e a marca diferencial própria do humano, isto é, a interioridade, agora se torna também um espaço de conflito. Sai-se da interioridade para a ágora. Esse novo espaço de conflitos, inexistente antes por suas certezas de estabilidade, passa a manifestar angústias como o sentimento de desenraizamento e crises de sentido (Illouz, 2011).

Ajuda-nos aqui um autor, da virada do séc. XIX para o XX, que refletiu muito sobre a interioridade, sua constituição e conflitos. Falamos de Sigmund Freud (2001 [1900]), iniciador de um saber ao qual chamou de Psicanálise, inaugurado ao descobrir e explorar outra dimensão constitutiva da subjetividade: o inconsciente. A psicanálise freudiana de certo modo revelou que a autonomia moderna é constituída fundamentalmente por contradições. Quer dizer isso que o sujeito, crendo ser soberano sobre si mesmo, é na verdade assombrado por pulsões e condicionamentos que escapam ao seu domínio. Agora, essas transformações da subjetividade e implicações sociais tratadas até aqui ganharam uma proporção desmesurada desde o avanço da globalização e das tecnologias digitais que radicalizaram essas dinâmicas.

Desterritorializando a subjetividade e multiplicando as possibilidades de performatividade identitária, os efeitos combinados da globalização com a revolução tecnológica digital complexizaram as análises sobre as transformações da subjetividade. Não se pode negar que as redes sociais, por exemplo, permitem a construção de um “si-mesmo” descentrado, de identidades fluídas e adaptáveis, ao mesmo passo que essas mesmas redes sociais expõem os indivíduos a formas de vigilância e apropriação comercial da intimidade nunca vistas antes (Empoli, 2019). A subjetividade tornou-se um campo político em disputa, onde a contestação de normas hegemônicas de identidade é tensionada também por identidades outras; mas identidades agora de resistência, como frequentemente se entende os movimentos feministas, antirracistas ou ainda LGBTQIAP+. Curiosamente essa fragmentação pode levar à fragmentação de projetos coletivos, como diagnostica Zigmunt Bauman (2007; 2021). Portanto, são ambivalentes as implicações sociais dessas transformações. Como de certo modo dissemos mais acima, pode-se compreender que a individualização permitiu um maior reconhecimento de diferenças e de grupos marginalizados pela hegemonia, contudo, nesse mesmo contexto, viu-se a exacerbação de desigualdades justamente porque materialmente nem todos têm acesso igualitário aos recursos simbólicos e concretos para “gerenciar” suas subjetividades.

As implicações sociais dessas contradições tanto internas (construção e fortalecimento de identidades na mesma medida que fragmenta laços sociais) quanto externas (reconhecimento formal de diferentes grupos e necessidades sociais sem, contudo, realizar um reconhecimento material) são concretamente sentidas no que a Organização Mundial da Saúde (OMS) chama de uma epidemia de depressão de nosso tempo. A depressão, afirma essa organização, já é a segunda maior causa de incapacidade a longo prazo no mundo (OMS, 2025). Desde Freud (2021), entende-se clinicamente que o mal-estar contemporâneo pode se expressar em epidemias de ansiedade e depressão. Estes são sintomas, como diagnostica o filósofo Byung-Chul Han (2010), de uma sociedade exigente por auto-otimização constante, por aumento da produtividade, por consumo de bens quase sempre inalcançáveis, a não ser por suas cópias sucedâneas. Conjuntamente, a crise de referências alimenta movimentos reacionários ao mesmo passo que fomenta utopias emancipatórias que repensam a relação entre o “singular” e o “plural”. Todas essas implicações são efeitos das contradições dos processos de subjetivação e transformação da subjetividade que expusemos até aqui. Que elas tenham alimentado os movimentos reacionários não é uma grande surpresa, sabendo que a angústia e o mal-estar produzidos pela corrosão da segurança em um mundo “sólido”, previsível e planejável pesam sob a alegação de que a solução é buscar a restauração das identidades perdidas – por mais anacrônico e fantasioso que isso possa ser, ainda assim é suficientemente persuasivo diante da promessa de apaziguar o mal-estar. Precisamente aí, sob essa mesma bandeira de restauração de valores há muito “corrompidos”, viu-se neste início de século a ascensão ao poder estatal de diversos governos com características explicitamente reacionárias (Empoli, 2019).

Diante de todos esses acontecimentos de transformação da subjetividade que apresentamos aqui e suas implicações mais gerais na política e na sociedade, dificilmente poderíamos, é claro, chegar a um quadro fechado e inequívoco das características fundamentais da subjetividade contemporânea. Nesse processo turbulento desde a “mentalidade” da época moderna até à contemporânea, talvez o melhor que se possa fazer é aceitar que a subjetividade moderna é de fato constituída sobre e por contradições (que, por definição, são irreconciliáveis). Talvez, se pudermos apontar para algum aspecto central dessa subjetividade, teria de ser que ela é “pura” tensão, uma oscilação constante, uma dialética ainda sem síntese (uma dialética “em trânsito”, se quisermos), na qual ela é espaço de liberação tanto quanto aprisionamento, espaço de singularização ao mesmo passo que é massificada. A contradição entre o uno e o múltiplo é o traço geral das implicações políticas e sociais das mudanças na subjetividade moderna.

Referências

BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.

BAUMAN, Z. Tempos líquidos. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.

BENTHAM, J. An Introduction to the Principles and Morals and Legislation. Kitchener, Canadá: Batoche Books, 2000 [1781].

BOURDIEU, P.; PASSERON, J.-C. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. Petrópolis, RJ: Vozes, 2023. 

BRAUDEL, F. O mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo na época de Filipe II. 2 vol. São Paulo: Edusp, 2016.

DURKHEIM, É. O Suicídio. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2019.

EMPOLI, G. da. Os engenheiros do caos. 2019.

FREUD, S. A interpretação dos sonhos. Ed. comemorativa 100 anos. Rio de Janeiro: Imago, 2001.

FREUD, S. O mal-estar na civilização e outros textos. Obras Completas, v. 18, textos de 1930 a 1936. São Paulo: Cia das Letras, 2021.

HAN, B.-C.. Sociedade do Cansaço. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010.

ILLOUZ, E. O amor nos tempos do capitalismo. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). OMS alerta que mais de 1 bilhão de pessoas vivem com transtornos mentais. ONU News, v.2025, n.9, set. 2025. Disponível em: https://news.un.org/pt/story/2025/09/1850854. Acesso em 29 mar. 2026.

ROSA. H. Aceleração: a transformação das estruturas temporais na Modernidade. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019.

ROSA. H. Alienação e aceleração: por uma teoria crítica da temporalidade tardo-moderna. Petrópolis, RJ: Vozes, 2022.

TAYLOR, C. As fontes do self: a construção da identidade moderna. São Paulo: Loyola, 2005.

VIRILO, P. Velocidade e Política. São Paulo: Estação Liberdade, 1996.

WEBER, M. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Cia das Letras, 2004.

Tag's: filosofia, modernidade, psicanálise, subjetividade

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