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Foto: Acervo pessoal
Foto: Acervo pessoal
Foto: Acervo pessoal

Luís Araujo Pereira em Florações Professor e escritor | Publicado em 15 de março de 2026

Luís Araujo Pereira
Professor e escritor
15/03/2026 em Florações

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Cinco poemas de Edmar Guimarães

[1]

Noiva do inverno

I

Vem.

A espera é eterna,

te espera. Vem.


Água, os passos dos olhos.

Nuvens

nunca passam. Empoçam.


Vem…

Chamam os olhos de cera

e o sol das noites na face

e as árvores torcidas

e o odor dos entardeceres


e as pétalas de tudo

tombadas nas pálpebras.

Mas, vem.


O mar já não atrapalha

teus pés.


II

A presença é pensamento de palha.

Depois, o vento.


Cingem-se girassóis

aqui

onde é longe e cinzas.


Um ar arterial

sopra olhar.

Por dentro foi tempestade.

Poça de sangue.


Um ar de vendaval

bateu na porta

sombras úmidas.


O coração emperrou.


III

Num cenário

diário

a cena única: Viver…?


Vem

entre gerânio de gelo…

Teu véu, o Tâmisa.

O sorriso dissolvendo

a negra sombra da neve.


e o

gesto

a erguer o rosto dos girassóis mortos.


Vem… Vem………….

Noiva do inverno.


O coração é o Cupido

e as

escadarias.

Caderno (1999)

***


[2]

Cena

Uma crosta de claro.

Sol baixo na poça. A rasa

cor do crepúsculo dura –

invólucro de tudo.


Na brasa da água acesa,

a mosca – som e asas –

por manter-se viva vibra

na luta do ser com a brisa.


Mãos, olhos, boca no silêncio

que crepita a existência pouca…

decrépitos instrumentos da urgência.


Ela encerra o nada.

Zunido azul fincado na água.

Desenhos de sol (2002)

***


[3]

Metonímia

Os dentes ao espelho,

icebergs cujo dentro é dor.

Pontas do branco contra

a sombra que avança

desde a garganta.


Mãos, rugas de água,

papel de carne embrulhada

como rascunho do gesto

rabiscado.


Músculos. Veias. Nervos.

Formas de dedos

entre grades gotejantes…

notícias da busca.


O chuveiro, pilar de chuva

cuja forma do corpo

– estatuária –

presa ainda na coluna.

Águas de Claudel (2011)

***


[4]

Estrada

Um elefante caminha

imenso de sono.

Seus olhos caídos,

marfim antigo.


A tromba bamba,

um lírio vencido.

Os pés – falsos cedros –

a potência do desequilíbrio.


Elefante sem idade,

frágil sombra

aos vidros da cidade…


Os passos pisam

instantes nômades;

o homem, no vidro refletido,

a forma do mistério,

no encalço do dia,

do claro cemitério.

Plaquetes (2012)

***


[5]

Instinto de preservação

Imponderável, o luto.

Dura o ano

um só minuto.


Surdos às súplicas,

os ouvidos,

antes veludo.


As casas, pouco a pouco,

desculpam-se:

“Dizer é nulo”.


Não é do humano

seguir junto

ao que se aprofunda

sem fundo.

O verbo ser (2024)

Edmar Guimarães nasceu em Goiânia. É formado em Letras Neolatinas pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e  pós-graduado em Língua Portuguesa e Literatura pela Universidade Salgado de Oliveira (Universo). Tem várias premiações, entre as quais, Prêmio Novos Valores da Fundação Jaime Câmara; Bolsa de Publicação Cora Coralina; Prêmio Colemar Natal e Silva e da Coleção Vertentes (Cegraf–UFG); Menção Honrosa no Concurso Jorge de Lima da Academia Carioca de Letras. Participou de antologias nacionais e internacionais. Tem poemas publicados na França e em Portugal. Atuou, temporariamente, como professor, no Colégio Delta, analisando obras literárias. Foi funcionário público por mais de 30 anos. Escreveu os seguintes livros: Caderno (2000), Desenho de sol (2002), Cápsulas dos dias (2009),  Águas de Claudel (2011), Plaquetes (2012) e O verbo ser (2024) Atualmente, dedica-se exclusivamente à poesia.

Tag's: Edmar Guimarães, poesia, poesia goiana

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