Um “dilema” pode ser entendido como uma situação na qual uma pessoa precisa tomar uma decisão entre duas ou mais possibilidades de escolha. Nessas situações, quase sempre a decisão não se refere a algo simples. Os dilemas mais complexos parecem ser aqueles relacionados a questões morais ou a crises de dimensão existencial. Uma tomada de decisão, em um dilema, frequentemente envolve contradições, ambivalências, dúvidas e questionamentos sobre nossos princípios ou valores morais.
Tomar uma decisão diante de um dilema exige o uso de nossa consciência moral. Porém, ela somente terá validação se não estivermos sendo constrangidos ou obrigados a decidir a respeito de algo sofrendo pressão ou coerção de outras pessoas. Essa consciência – faculdade de avaliar uma situação, observar a nossa conduta e julgar as nossas ações no tempo – consiste no eixo que sustentará a nossa decisão a respeito do que fazer. Mais do que isso, servirá para justificarmos para nós mesmos, e para os outros, os motivos que nos conduziram a agir de uma determinada maneira e não de outra; além da exigência de nos responsabilizarmos pelas consequências e possíveis desdobramentos relativos à nossa decisão.
Mantendo o teor existencialista de alguns de seus filmes anteriores e mergulhos profundos na complexidade da interioridade humana, Paolo Sorrentino, em seu filme A Graça (2025), nos oferece um notável exemplo do que significa estar diante de um dilema. A película nos convida a acompanhar uma dessas situações, a partir dos últimos meses de mandato da personagem do presidente da Itália, Mariano De Santis, juiz conceituado no passado, católico, viúvo, idoso e inclinado ao equilíbrio. Contudo, ele se encontra impelido a tomar decisões decisivas no âmbito da política bem como na esfera pessoal. Nesse contexto, Mariano enfrenta um dilema que atende a todos elementos mencionados inicialmente, os quais, devido ao cargo político que ocupa, adquirem uma extensão mais elevada.
Imerso na solidão do poder, dilacerado por lembranças de Aurora, sua companheira, amargurando dificuldades de lidar tanto com a perda amada – embora já se tenham passados oito anos – como com uma traição ocorrida há 40 anos e que nunca chegou a superar, o presidente precisa tomar uma decisão referente a uma questão espinhosa, delicada, e que abala seus princípios: “sancionar ou vetar a lei sobre o direito à eutanásia”. Diante do impasse, confrontado por sua filha Dorotea (também sua principal assessora jurídica), que questiona se ele terá coragem suficiente para sancionar a lei ou se o seu medo prevalecerá, Mariano advoga que a questão não pode ser reduzida a um conflito entre coragem e medo. O ponto crucial ou o dilema repousa, na realidade, em sua percepção, na seguinte premissa “se não assino, sou torturador, se assino, sou assassino”. Em contrapartida, sua filha afirma que o ponto não é exatamente esse, mas o seguinte: “de quem são nossos dias?”. Buscando amadurecer a decisão a ser tomada, o presidente recorre a alguns interlocutores: ao papa, a amigos, e à sua consciência moral. Ele exige mais tempo para refletir. Não se trata de uma hesitação, mas de ponderar acerca da melhor decisão a ser tomada e de quais os critérios mais apropriados a serem adotados nessa decisão.
Ao mesmo tempo, Mariano também precisa tomar mais duas decisões difíceis. Avaliar e decidir sobre dois pedidos de indulto que demandam análise. O primeiro, solicitado por Isa Rocca, presa há nove anos, condenada pelo homicídio doloso do marido que a oprimiu, a ameaçou e a espancou por 15 anos. O segundo, solicitado por ex-alunos do professor de História Cristiano Arpa, condenado por homicídio doloso da esposa – casado por 35 anos, sem filhos, o professor aposentou-se antecipadamente para cuidar da esposa que sofria de Alzheimer e acabou assassinando-a depois de alguns anos de cuidado. Ainda que as solicitações de indulto possam “comover uma autoridade política que tenha o poder de concedê-los, do ponto de vista ético, trata-se de decisões arriscadas”. “Indultos são concedidos por clemência, não por simpatia”, o presidente sabe muito bem disso, assim se mobiliza na busca por critérios razoáveis para decidir sobre esses dilemas morais. Critérios que consideram não apenas “o que se lê nos autos”, mas também que, além dos autos, leve em conta que “existem pessoas” e as suas circunstâncias.
No domínio da história da filosofia, Kierkegaard é considerado o primeiro representante do existencialismo. Avalio que algumas de suas ideias podem contribuir para pensarmos filosoficamente a respeito dos dilemas morais que dilaceram a personagem de Mariano De Santis. Em sua obra Conceito de angústia (1844), o filósofo dinamarquês define a “angústia” como a “vertigem da liberdade”, isto é, um sentimento que aparece diante das múltiplas possibilidades de escolha e da responsabilidade do indivíduo em engendrar a sua própria existência. Refere-se a uma condição interna, a consciência que temos da necessidade de agirmos. Um elemento primordial da existência humana, que fomenta o indivíduo a tomar decisões.
A angústia pode ser lida como uma espécie de intuição de que somos livres para efetuar nossas escolhas, mas, dependendo da forma como utilizamos nossa liberdade podemos cair no que Kierkegaard chama de “desespero”, “tristeza profunda” que surge quando o ser humano tenta se esquivar de si mesmo. Antecipando em certa medida a noção de “existência autêntica” presente na filosofia existencial de Heidegger, o pensador dinamarquês preconiza que a angústia é fundamental para que o ser humano se torne autêntico, para que ele consiga operar uma ruptura com uma condição de ignorância e conquiste a consciência de sua capacidade de agir.
Para Kierkegaard, a existência humana é marcada pela liberdade, isto é, pela possibilidade de escolher e também a de não escolher, de permanecer estanque, e de escolher e perder-se de si mesmo (posteriormente, Sartre levará essa ideia às últimas consequências ao sustentar que não escolher também é uma escolha). A realidade interior humana também é delineada pela angústia, ela consiste no sentimento do possível, trata-se do que pode acontecer quando faço uma escolha, podendo ser algo mais implacável do que o momento que antecede à tomada de uma decisão, mas não necessariamente. Pois, como explica Kierkegaard, se uma pessoa se retira do terreno da possibilidade e é capaz de extrair algo favorável da experiência da angústia, assim terá a capacidade de acolher com dignidade a nova configuração que se apresenta, e, mesmo que ela recaia como um fardo sobre seus ombros, à custa de sua memória, o agente moral será hábil em perceber que o contexto que se abre se inscreve como algo bem mais leve comparado ao momento predecessor, quando consistia em apenas uma possibilidade.
Retomando a questão das decisões que Mariano De Santis precisa tomar e considerando as contribuições existenciais de Kierkegaard para refletirmos sobre o problema da escolha, é possível afirmar que a personagem do presidente vivencia a experiência da angústia diante das possibilidades de escolha. A angústia é o sentimento que precede a escolha, talvez, por conta disso, Kierkegaard a define como um tipo de “vertigem”, a “vertigem da liberdade”, uma espécie de “tontura” em face das “infinitas possibilidades de escolha”.
O momento que antecede as três decisões que Mariano necessita tomar é marcado por mergulhos interiores, indagações sobre as possibilidades de seguir suas convicções e aplicar os seus princípios morais nos dilemas que lhe foram postos; abertura para interlocuções e a busca por critérios razoáveis que possam servir para embasar suas decisões. Mas o que parece se sobressair nesse momento é, sobretudo, o cultivo de uma reflexão sem pressa. É no silêncio barulhento da solidão do poder que o presidente se permite refletir pausadamente. A mesma solidão que o possibilita questionar seus próprios princípios como indivíduo e figura pública, a examinar detidamente se agir com justiça implica simplesmente manter-se fiel aos seus próprios princípios ou se os nossos princípios demandam profundas revisões e flexibilidade a depender da situação. Se Mariano demonstra saber usar o tempo ao seu favor para refletir e, assim, tomar suas decisões, também nos permite reconhecer que, em algumas situações, a liberdade pode se tornar um peso, especialmente se considerarmos a perspectiva existencialista de Sartre, que estabelece uma relação direta entre a liberdade como possibilidade de escolha e a responsabilidade moral, isto é, a exigência de assumirmos as consequências daquilo que escolhemos.
REFERÊNCIAS
CHAUI, M. Filosofia. São Paulo: Ática, 2010.
HEIDEGGER, M. Ser e tempo. Petrópolis-RJ: Vozes, 2015.
KIERKEGAARD, S. Conceito de angústia. Petrópolis-RJ: Vozes, 2013.
REALE, G.; ANTISERI, D. História da Filosofia. v. III, São Paulo: Paulus, 1991.
SARTRE, J.P. O existencialismo é um humanismo. São Paulo: 1978 (Coleção Os Pensadores).
SORRENTINO, P. A Graça. 2025. [Disponível no streaming MUBI]




