As competições entre seleções nacionais suspendem algumas das premissas centrais que estruturam o cotidiano globalizado do futebol nas principais ligas do mundo. Dessa suspensão nasce uma afinidade com situações intelectuais em que o afastamento deliberado de certezas consolidadas – em outras palavras, a experimentação – direciona o olhar para novas questões e para os conhecimentos que delas podem emergir. Diferentemente dos treinadores de clubes profissionais, os técnicos de seleções nacionais não podem suprir deficiências de seus elencos por meio de transferências milionárias, mas precisam lidar com o potencial de talento disponível entre atletas de uma mesma nacionalidade. Em vez de desenvolver, pacientemente, formas de jogo ao longo de ciclos anuais e acumular pontos, veem-se confrontados com o desafio de suscitar, em poucas semanas e sob crescente pressão competitiva, uma mentalidade vencedora.
Até mesmo o fato de a FIFA, movida por um oportunismo político apenas parcialmente disfarçado, modificar regularmente os critérios de classificação e progressão em suas Copas do Mundo aproxima o torneio da dinâmica dos constantes recomeços próprios da experimentação científica. Medidas dessa natureza tornam visíveis aspectos que normalmente permaneceriam ocultos e cuja análise acaba sendo mais proveitosa do que a indignação – tão justificável quanto já ritualizada – dirigida contra Gianni Infantino ou Donald Trump.
A ampliação do torneio para 48 equipes, por exemplo, criticada de forma unânime antes da competição e por razões convincentes, mostrou claramente que países demograficamente diminutos, como Cabo Verde ou Curaçao, e nações sem um prestígio consolidado no futebol, como a República do Congo ou o Egito, hoje podem levar países clássicos do futebol à derrota. Em contrapartida, Índia e República Popular da China, as duas sociedades mais populosas do planeta e detentoras de um imenso contingente potencial de torcedores, já haviam sido eliminadas ainda nas fases classificatórias, contrariando assim a pretensão da FIFA de exercer uma dominação global por meio de seu esporte.
Esse novo fracasso, difícil de explicar à primeira vista, certamente dará origem, ao menos na China, a investigações detalhadas. Há décadas, instituições estatais trabalham sistematicamente para construir uma seleção nacional competitiva e, segundo se comenta no próprio país, não está descartada a possibilidade de que esse novo insucesso conduza à decisão política de abandonar definitivamente tais esforços.
A ausência de numerosas goleadas e o aumento das prorrogações confirmaram, já nos primeiros cem jogos da Copa do Mundo, a esperança que ressurge a cada quatro anos de que a distância entre as seleções proeminentes e aquelas que, em geral, permanecem mais na sombra tenha diminuído – embora, por outro lado, grandes surpresas tenham sido raras. Essa estranha ambivalência parece estar relacionada a uma transição entre duas fórmulas de sucesso dominantes no futebol. A manutenção da posse de bola, como tiki-taka, associado ao auge do Barcelona e transformado por Pep Guardiola em uma “teoria coerente” baseada na posse de bola e na constante troca de posições no meio-campo – da qual deveriam surgir jogadas belas e, sobretudo, imprevisíveis –, vem cedendo espaço a um ritmo marcado pelo pressing agressivo sobre a saída de bola adversária e por ataques extremamente rápidos, desencadeados quase de forma fulminante.
Com uma eficiência até há pouco inimaginável, grupos de atletas fisicamente robustos e extraordinariamente velozes podem concretizar essa concepção mesmo sem jogadores individualmente excepcionais. Certos papéis clássicos, a do zagueiro “líder da defesa”, dotado de ampla visão do jogo, do “estrategista do meio-campo inspirado”, o intuitivo “intérprete dos espaços” (Raumdeuter) e também o treinador como “pensador visionário”, perderam relevância no novo contexto. Mais decisivos do que nunca para a vitória tornaram-se jogadores providos da dupla capacidade de libertar-se, por frações de segundo, de uma marcação cerrada exercida por vários adversários e de transformar, com elevada probabilidade, as oportunidades assim conquistadas em gols. Além de Kylian Mbappé e Erling Braut Haaland, esse novo tipo de atacante é representado também pelo jovem suíço Johan Manzambi e por Harry Kane e Jude Bellingham, dois ingleses.
O fato de Lionel Messi, até as quartas de final, ter participado diretamente de oito dos 17 gols da Argentina – apesar de desperdiçar dois pênaltis e de haver distribuído apenas duas assistências – talvez revele sua bem-sucedida adaptação a essa transformação do estilo de jogo. Ao mesmo tempo, ele se tornou o único protagonista de um grupo de estrelas veteranas na casa dos 40 anos, cuja expectativa média de vida aumentou e apesar de jogar no que é, na melhor das hipóteses, uma liga secundária, ainda consegue influenciar o resultado de partidas de importância internacional. Já que seus contemporâneos, como Luka Modric, o ídolo do Schalke 04, Edin Dzeko, e até mesmo Cristiano Ronaldo, não conseguiram fazer isso nas últimas semanas, resta saber se Messi representa uma exceção ou se antecipa um novo padrão de maior flexibilidade entre idade e desempenho esportivo.
Desde as eliminatórias até as oitavas de final do torneio em curso, foram eliminadas Itália, Alemanha e Brasil – justamente as três seleções que mais conquistaram Copas do Mundo. Como nenhuma delas alcança as semifinais desde 2014, desenha-se um processo cuja reversão dificilmente ocorrerá no curto prazo. Esse declínio talvez esteja relacionado ao fato de que, nesses países, o futebol perdeu sua antiga condição de fenômeno quase monocultural, embora por razões bastante distintas em cada caso. No Brasil, ao término do ciclo social-democrata inaugurado pelos governos Lula, abriram-se para jovens oriundos de famílias socialmente desfavorecidas perspectivas de ascensão diferentes da carreira no futebol profissional. A ampliação das oportunidades educacionais e econômicas reduziu, ao menos parcialmente, a centralidade do esporte como caminho privilegiado para a mobilidade social.
Na Alemanha, consolidou-se, entretanto, a fórmula de consolo e justificação segundo a qual os grandes talentos nacionais do futebol simplesmente não conseguem “realizar o potencial que, sem dúvida, possuem”. A eliminação precoce da seleção nacional no torneio deste verão torna urgentemente recomendável substituir essa fórmula pela expressão mais sóbria de desenvolvimentos individuais que não chegaram a ocorrer.
Fora do contexto habitual da Bundesliga, essa nova perspectiva talvez já possa ser aplicada ao hoje trintenário Joshua Kimmich. Vista retrospectivamente, ela transforma quase em caricatura a grande exposição organizada pelo Museu do Futebol de Dortmund em homenagem aos então promissores Jamal Musiala e Florian Wirtz, celebrados muito antes de confirmarem plenamente as expectativas depositadas sobre eles.
Existiria, para além do esporte, uma dificuldade típica de muitos adultos alemães na terceira década de vida, aos quais falta, na assunção de responsabilidade individual no interior de tarefas coletivas, aquela despreocupação, aquela “autoconfiança”, como outrora se dizia? E não poderia essa carência ter tornado tão estranhamente opressivas as entrevistas coletivas com Julian Nagelsmann e seus jogadores, antes mesmo das hesitantes cobranças de pênalti contra o Paraguai?
Diante de situações de desafio, os jovens alemães parecem confiar menos em si próprios do que nas instituições estatais ou quase estatais. No futebol, isso significa depositar expectativas ora no antigo treinador, convertido em “referência para críticas”, ora em seu sucessor, transformado em novo portador de esperanças, em vez de enfrentar uma questão mais desconfortável sobre por que, desde Toni Kroos, nenhum integrante da seleção nacional voltou a ter êxito em um clube inglês ou espanhol. Se Jürgen Klopp poderá resolver, por meio do futebol, esse problema de atitude diante da ação, que de modo algum se limita ao esporte, com um elenco inicialmente desanimado, permanece “escrito nas estrelas” – estrelas que, acima da Alemanha, raramente brilham com intensidade. Em contrapartida, parece haver menor pressão de reformas estruturais na Bundesliga, na qual algumas das figuras de maior destaque desta Copa do Mundo, como Ousmane Dembélé, Erling Haaland, Jude Bellingham e Michael Olise puderam desenvolver plenamente seus talentos e transformá-los em perfis esportivos singulares.
Ao declínio das tradicionais nações do futebol – Brasil, Alemanha e Itália – contrapõe-se uma força da Europa que dificilmente poderia ter sido esperada nessa medida, representada por seis seleções classificadas para as quartas de final. Quanto ao estilo do sucesso e às suas condições, distinguem-se dois grupos. Espanha, Noruega e Suíça conduziram o jogo atlético baseado no pressing, em diferentes versões, a um nível de perfeição. Os noruegueses maximizaram a circunstância historicamente afortunada de dispor de duas estrelas mundiais complementares, Haaland e Ødegaard, enquanto os suíços apostaram na vigorosa coesão de um elenco distribuído por muitas ligas, e os espanhóis, na solidariedade de um grupo com um número surpreendentemente elevado de jogadores provenientes de clubes menos prestigiosos.
Já as seleções de Bélgica, Inglaterra e França exibem, em suas escalações, numerosos sobrenomes que remetem diretamente à história colonial desses países. Ao longo do século XX, milhões de pessoas provenientes de sociedades africanas submetidas ao colonialismo chegaram, muitas vezes sob coerção administrativa ou movidas pela necessidade de sobrevivência, a países que inicialmente lhes negavam oportunidades de ascensão social e representação pública. Nas Copas do Mundo de 1958 e 1966, quando a França alcançou o terceiro lugar e a Inglaterra conquistou o título, ambas obtiveram êxito exclusivamente com jogadores de pele branca, situação que somente se modificou de maneira duradoura no final do século XX, dando origem a novas formas de estilo no futebol europeu.
Apesar de dois títulos mundiais, o futebol francês, até hoje, ainda não se tornou, de forma inequívoca, o principal esporte coletivo nacional. Ele concorre com o rúgbi, um esporte um pouco menos bem-sucedido, cuja tradição e cuja ainda intensa ressonância pertencem, sobretudo, ao sudoeste conservador em todos os sentidos. O futebol, por outro lado, pode estar a caminho de tornar-se o meio de identidade dos franceses com origem familiar africana.
O grande Ousmane Dembélé é um muçulmano praticante e um francês patriota, moldado pelas instituições estatais de formação tanto como estudante quanto como atleta, e que hoje apoia, por meio de doações, o legado cultural dos países de seus antepassados. Poucos admiradores de Dembélé, entretanto, podem permitir-se reunir, com semelhante harmonia, as diferentes dimensões de sua existência. Depois das duas vitórias de seu clube, o Paris Saint-Germain, na Liga dos Campeões, ocorreram explosões de violência, ao passo que os triunfos da seleção nacional em 1998 e 2018 haviam sido celebrados em uma euforia coletiva. Também esse contraste pode resultar do estatuto particular das Copas do Mundo.
[Texto escrito durante as quartas de final da Copa e publicado em 16/07/26, no jornal Frankfurter Allgemeine, disponível em: https://www.faz.net/aktuell/sport/fussball-wm/fussball-wm-2026-analyse-fehlt-deutschland-das-selbstbewusstsein-accg-201032348.html. Tradução de Oslei Bega Júnior. Revisão e edição de Weiny César Freitas Pinto. Revisão e edição finais de Rosângela Chaves].
Perfil
Hans Ulrich “Sepp” Gumbrecht (Wuerzburg, Alemanha, 1948) é professor emérito de Literatura Comparada da cadeira “Albert Guérard” na Stanford University e membro da Academia Americana de Artes e Ciências. É autor de uma série de livros, muitos traduzidos e publicados em vários países, inclusive Brasil, tendo como discussão noções de estética, identificação, temporalidades, latência e “materialização da presença”. E-mail: sepp@stanford.edu.





