Em 9 de setembro de 2001, dois dias antes dos ataques da Al-Qaeda em Washington e Nova York, foi publicado A mente imprudente: Os intelectuais na atividade política (Ed. Record, 2017), um livro de Mark Lilla, professor da Universidade Columbia, no qual analisa a relação de uma série de pensadores com as ideologias da sua época, que os levaram a ignorar o autoritarismo e o terrorismo de Estado, bem como as consequências políticas e intelectuais geradas pela relativização das atrocidades. Os regimes analisados foram a Alemanha nazista, o comunismo da União Soviética, a China de Mao e a república teocrática do Irã. Os pensadores: Martin Heidegger, Carl Schmitt, Walter Benjamin, Alexandre Kojève, Michel Foucault e Jacques Derrida. Nessa foto nem todos ficam mal, alguns mais do que outros.
Quinze anos depois, Lilla publicou A mente naufragada: sobre o espírito reacionário (Ed. Record, 2018), que junto com o anterior formam um díptico. Nesse ensaio, Lilla analisa três pensadores do século XX – Franz Rosenzweig, Eric Voegelin e Leo Strauss – que atribuíram os problemas da sociedade moderna a uma ruptura na evolução das ideias e promoveram um retorno às formas de pensamento pré-modernas. Em seguida, examina o uso de narrativas históricas por parte da direita e da esquerda europeias e mergulha na determinação dos neoconservadores americanos e islamitas radicais para defender a suposta harmonia da sociedade católica medieval, por um lado, e o resgate do califado muçulmano, por outro, com uma pausa e um refúgio nos atentados de Paris de 2015.
Numa introdução antológica, Lilla informa ao leitor sobre a grande quantidade de informação que temos à nossa disposição sobre a ideia de revolução e o pouco que temos sobre a de reação, “apenas a presunçosa convicção de que ela se enraíza na ignorância e na intransigência, se não em motivos ainda mais inconfessáveis”. O espírito revolucionário que durante séculos inspirou movimentos políticos em todo o mundo, continua Lilla, pode ter desaparecido, mas o espírito de reação que surgiu para confrontá-lo sobreviveu e está se mostrando uma força histórica igualmente potente, desde o Oriente Médio até a classe média dos Estados Unidos. Em vez de inspirar curiosidade, lamenta ele, essa realidade não provoca nada além de arrogância, desprezo pelo outro e indignação, que imediatamente dá lugar ao desespero, mas em nenhum caso à compreensão: “o reacionário é o derradeiro ‘outro’ relegado às margens da investigação intelectual respeitável. Nós não o conhecemos.”
Segundo Lilla, o reacionário sente-se mais forte e legítimo do que o revolucionário porque se vê como o guardião do passado, daquilo que, segundo ele, realmente aconteceu, e não como um profeta de um futuro hipotético e errático. Para o reacionário, a história começa com o mito de um Estado feliz, no qual todos conheciam seu lugar, a ordem e a harmonia prevaleciam e a tradição e a submissão a um único e verdadeiro Deus eram a ordem do dia. O revolucionário surge apenas para romper essa paz, infligindo aos homens uma falsa consciência que, em última análise, os levará à destruição da sociedade. Somente aqueles que se lembram de como as coisas eram antes são capazes de enxergar com clareza e têm a missão de trazer as coisas de volta àquele tempo do qual jamais deveríamos ter nos afastado. Um tempo glorioso que o reacionário acredita ser tão real quanto o presente que hoje tem diante de si. Hoje, assegura Lilla, os islamitas, os nacionalistas europeus e o neoconservadorismo americano estão contando basicamente a mesma história para seus filhos ideológicos.
Se levarmos a sério que o que está em jogo é o retorno a um estado ideal de coisas que aconteceu não se sabe quando, mas que para o reacionário é uma verdade como um templo – e o templo da verdade… – perceberemos que, ao contrário da opinião popular, o reacionário não é de forma alguma um quietista ou um apático, mas um incansável lutador, um soldado que faz de sua nostalgia um objetivo a ser perseguido. O reacionário, então, como uma figura moderna e ativa, e não como uma caricatura tradicional do indolente. Citando Lilla de novo: “Toda grande transformação social deixa para trás o frescor de um Éden que pode servir de objeto para a nostalgia de alguém. E os reacionários da nossa época descobriram que a nostalgia pode ser uma forte motivação política, talvez até mais poderosa que a esperança. As esperanças podem decepcionar. A nostalgia é irrefutável. ”
A figura do reacionário como uma alma inquieta é o que liga o livro de Mark Lilla ao de outro autor norte-americano, Corey Robin, em The reactionary mind: from Edmund Burke to Donald Trump (Oxford, 2018). Robin, professor de ciência política no Brooklyn College, não faz uma distinção conceitual entre reacionários e conservadores (buscando destacar precisamente uma contradição interna nesses últimos) e define o conservadorismo como uma meditação e uma teoria da experiência da possessão do poder, de vê-lo ameaçado e da tentativa de recuperá-lo. Segundo o autor, a teoria política conservadora luta contra a voz pública e a ação coletiva das classes subordinadas e oferece argumentos sobre por que as classes mais baixas não deveriam ter permissão para exercer sua vontade autônoma, por que não deveriam se autogovernar ou influenciar a política nacional e internacional. Porque, em suma, a ação é prerrogativa da elite e a submissão é dever do povo. Independentemente do grau de democracia oficial que possa existir, para a reação é imperativo que a sociedade seja vista e compreendida como um agregado de espaços privados onde os homens dominam as mulheres, o patrão está acima dos trabalhadores e todos conhecem seu lugar. Em contrapartida, para o progresso, o debate não é visto como o sacrifício da liberdade em nome da igualdade, como às vezes se entende, mas como a extensão dos direitos e liberdades de uma minoria em direção à maioria. Mais livre, mais igual.
Corey Robin escreve sobre Edmund Burke, o grande teórico da contrarrevolução, sobre Hobbes, que lançou as bases do Estado burguês, sobre Nietzsche e a teoria dos valores, até o atual ocupante da Casa Branca, incluindo Antonin Scalia e Ayn Rand, entre outros. Para o autor, a reconstrução do Antigo Regime no contexto histórico de uma fé cada vez mais frágil, na necessidade e permanência das hierarquias sociais, forneceu algumas das obras mais importantes do pensamento moderno. Se, de certa forma, os conservadores deram a entender, e eu diria que em muitos casos chegaram a convencer, que o poder lhes pertence por natureza (a direita, quando perde o governo, sente-se e demonstra-se órfã de sua propriedade), isso não significa que não estejam plenamente conscientes de que sua política e seu pensamento são circunstanciais. Segundo Robin, a mentalidade reacionária é flexível porque está atenta às mudanças que ocorrem ao seu redor, reage a elas lendo as situações e o contexto e, quando necessário, é capaz de deixar a doutrina de lado. (A mudança histórica da postura da extrema-direita em relação aos judeus e ao antissemitismo por ocasião do conflito entre Israel e Gaza corrobora a intuição de Corey Robin.)
The reactionary mind é uma tentativa de fazer entender, especialmente aos progressistas, a capacidade de adaptação dos reacionários, porque, segundo o autor, esses percebem o que está acontecendo e agem antes que outros tomem o controle da situação. Para Robin, o reacionário é um grande estrategista. Aliás, eu acrescentaria que se o apoio e a conquista de votos dos trabalhadores pela direita internacional têm sido seu grande sucesso dos últimos tempos, não seria plausível pensar que os conservadores dedicaram tempo em aprender alguma coisa da esquerda, enquanto essa última continua sentada na poltrona de uma superioridade moral que a imobilizou por mais de três décadas? Será mesmo que não há nada para aprender da direita? Na verdade, sabemos que think tanks ultrarreacionários dos Estados Unidos leem Gramsci e outros representantes do pensamento progressista, enquanto para muitos jovens em nível global a esquerda tornou-se sinônimo de velha e chata.
Nas últimas décadas, a esquerda sentiu-se confiante e em casa ao falar sobre diversidade, mas, afinal, quem é o “outro” para a ela? A mulher, o negro, o trans, o pobre? A modo de hipótese, se a esquerda só encontra a si mesma quando defende o feminismo, a diversidade, a luta contra a pobreza e a justiça social, será que não deveria buscar o seu “outro” em qualquer outro lugar? À sua direita, talvez? Não só no Brasil, mas em todo o mundo acontece que uma parte da sociedade está mais disposta a retroceder do que a avançar. Portanto, que horizonte de convivência podemos esperar se desistirmos do diálogo com os diferentes, se nos recusarmos a compreender sua tradição, suas ideias e seus motivos?
Infelizmente, a bibliografia de muitos artigos e teses universitárias é fácil de adivinhar com os olhos fechados. Seria razoável supor que se as nossas referências sempre provêm das mesmas fontes, provavelmente acabaremos nos tornando naquilo que dizemos rejeitar: uma seita? Quero pensar que a maturidade intelectual consiste, entre outros elementos, na capacidade de extrair e utilizar o melhor de tradições de pensamento diversas, divergentes e até opostas entre si. Isso implica ter tido a curiosidade e a paciência de frequentar autores e obras com as quais, sem conhecê-las, há tempos já marcamos uma distância, um muro, e sabemos que o nome disso é preconceito. Sem dúvida, uma das vítimas da polarização social é o exercício, nunca fácil mas sempre recomendável, da autocrítica, tanto em nível individual como coletivo. O fato é que, quando Mark Lilla escreveu que “o reacionário é o derradeiro ‘outro’ relegado às margens da investigação intelectual respeitável”, ele tocou numa tecla muito sensível que poucos ousam ouvir. Porém, a leitura e o reconhecimento dos pontos fortes de um pensamento diferente ao nosso não significam necessariamente adesão, mas enriquecimento e uma mostra exemplar de honestidade intelectual.
Assim como a direita pensa que o poder lhe pertence, a esquerda tende a acreditar que o pensamento lhe é exclusivo. O naufrágio da mente mencionado no título da obra de Mark Lilla tem a ver com essa incapacidade de enxergar no outro um ser tão racional quanto eu, com uma bagagem cultural tão importante ou mais que a minha. Tratar o outro como inculto ou estúpido também o desumaniza, pois, como escreve Lilla, “é mero preconceito considerar que revolucionários pensam, ao passo que os reacionários apenas reagem”. A compreensão da história moderna fica incompleta se não levarmos em conta que o medo e a nostalgia política também a moldaram, se não tentarmos compreender o presente sem reconhecer a lucidez daqueles que não se sentem em casa nele. De fato, a nostalgia já ampliou consideravelmente seu campo de influência. Visite, por exemplo, Tony Judt em O chalé da memória.




