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Imagem: Divulgação
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Luís Araujo Pereira em Florações Professor e escritor | Publicado em 28 de junho de 2026

Luís Araujo Pereira
Professor e escritor
28/06/2026 em Florações

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Cinco poemas de Rosana Piccolo

[Curadoria de Luís Araujo Pereira]

[1]

Leviana lua

            Noite crua. A ríspida freada. O fio do latido. E o ner-

vosismo de viadutos contorcidos. Árvores. Medusas imensas.

Postes. Sentinelas de carvão. E o bêbado vagando ao vento de

fuligens.

             Uma lua indecisa, entre nuvens evasivas, aguarda. A

cúmplice vidraça. A senha da luminária. O  assovio  do  mau

poema que doidamente completa  ____  noite nua.

Ruelas profanas (1999)

⃰  ⃰  ⃰


[2]

Revoadas

Não se sabe de onde vêm, frágeis criaturas da fuligem

de sobreaviso nos postes. Serão manadas ainda, harpias im-

tunas, aos surtos, sem carteira assinada. Um pombo, dois

pombos, uma dúzia de pombos – minha flor da sarjeta. Mais

um, mais dois, treze milhões de arrulhos rasantes, conurba-

nos, vagas de papel picado sem leitura. Adensarão lobbies e

ágoras. Adentrarão cadeias e pavilhões de sangue, donde vêm?

A noite, que tudo acoberta, recolhe a mais alva esquadrilha.

E embute outro poste, outro pombo, bola macilenta no varal

sem luz.

Meio-fio (2003)

⃰  ⃰  ⃰


[3]

Refrão da fuligem

XXII

o acendedor do fogão

atiça o ouvido de nostradamus


cogumelos explodem


estrela é jogada do céu


metralhadora míssil helicóptero


cavalos do apóstolo


taças de urânio estouram

negras

amarelas

esverdeadas

e


desaparecem

no arranque da moto


paz do sétimo dia


sob a chaleira

o fogo é uma flor de lótus azul

Refrão da fuligem (2013)

⃰  ⃰  ⃰


[4]

Uivos

pelas torneiras, o uivo noturno

uivo furioso das serras e martelos

da veia saltada das peixarias estúpidas

em oleodutos, uivo


das catedrais dissecadas

das abóboras dessangradas

do canibal à espreita nas butiques, uivo


das cercas elétricas

(unhas cravadas na madrugada)

das bocas de fumo e cio de viaturas, uivo


que sempre houve e haverá

na curva das bicicletas

sono de toaletes

na goela cortada da rua

donde saem, feitas em série, alcateias

Bocas de lobo (2015)

⃰  ⃰  ⃰


[5]

Poentes

vezes a górgona

o cabelo peçonhento

vezes a amêndoa de sangue pisado

na palma do ressuscitado

vezes o dente curvo da lua

cavalo celta, crânio-pingente

vezes o prato

o profeta degolado

vezes a massa de véus

vezes pilhas de alfinetes no horizonte

vezes o coro do vento

vezes nada


só o pensamento das árvores

quando chegam os tártaros? (2023)

Rosana Piccolo é paulistana e mora em Curitiba. Formada em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e Jornalismo pela Fundação Cásper Líbero. Atua como publicitária. Escreveu os seguintes livros de poemas: Ruelas profanas (1999), Meio-fio (2003), Sopro de vitrines (2010), Refrão da fuligem (2013), Bocas de lobo (2015), O pão (2017), Alla prima (2019) e Quando chegam os tártaros? (2023). Com Rubens Jardim, organizou a coletânea MedioCridade. O professor e crítico literário Alexandre Bonafim organizou uma antologia de seus poemas, intitulada Escrever como as águias, publicada em 2025 pela editora Cavalo Azul. Em estudo introdutório, considera que “a metrópole constitui, na poesia de Rosana Piccolo, um verdadeiro laboratório do sensível. Ela se apresenta como forma de percepção e como gramática da experiência contemporânea. Suas ruas, viadutos, postes e antenas configuram um organismo pulsante no qual o corpo humano se funde à maquinaria do mundo. Em seus poemas, o espaço urbano assume o papel de matéria viva e cambiante, onde as forças de criação e destruição coexistem em permanente atrito. A cidade é vivida de dentro, como um campo de fricção entre a matéria e a consciência. Por isso, a poesia transforma o cotidiano em um lugar de assombro, revelando nas texturas do asfalto e nas luzes elétricas a presença de algo que ultrapassa a superfície dos acontecimentos. Cada imagem urbana – um reflexo, um ruído, um muro coberto de anúncios – carrega uma tensão metafísica: o instante em que o sensível se converte em pensamento”.

Tag's: poesia, poesia brasileira, Rosana Piccolo

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