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Foto: Tarsilla Couto de Brito
Foto: Tarsilla Couto de Brito
Foto: Tarsilla Couto de Brito

Luís Araujo Pereira em Florações Professor e escritor | Publicado em 23 de agosto de 2026

Luís Araujo Pereira
Professor e escritor
23/08/2026 em Florações

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Cinco poemas de Eugênia Fraietta

[Curadoria de Luís Araujo Pereira]

[1]

[De (A)diante]

Todos os dias eu passo

o hidratante com ácido hialurônico no rosto,

ele espalha bem

e não fica pegajoso.

Todos os dias,

mas não no mesmo horário,

porque quase sempre

eu quase esqueço.

Tenho passado

até o pescoço.

Não é um creme específico para o pescoço,

mas deve funcionar.

Porque, já viu, o pescoço denuncia a idade.

É isso ou ter morrido aos 30

quando o pescoço ainda era réu primário.

Com o uso do ácido hialurônico injetável

é possível tratar olheiras profundas.

Ácido hialurônico combinado com vitamina C

reduz pés de galinha e tem ação anti-idade e antifadiga.

Tenho uns vincos no colo.

Hoje também passei

o famigerado creme no colo,

porque, já viu, o colo está sub judice.

Linhas de expressão (2026)

⃰⃰  ⃰  ⃰


[2]

[De Primeira pausa]

Onde está o limite entre mim e o que escrevo?

Percebo algo que fermenta apesar da ordem na superfície.

Só percebo, assim, de esgueio.

Mas, em geral, duvido, embora saiba, mas duvido.

Não sei dizer que consigo, finjo que sei dizer. Às vezes digo.

Vejo quem consegue dizer que consegue

e que não liga a mínima

e que se foda

e eu me amo.

Fico só de olho.


Desvio o olhar e me lembro de quando evito o espelho e me

envergonho de mim e me envergonho de me sentir assim e não

conseguir falar que estou indo muito bem, obrigada.

Linhas de expressão (2026)

⃰  ⃰  ⃰


[3]

[De Terceira pausa]

Meus cabelos foram severamente curtos por 30 anos.

O isolamento pandêmico me obrigou a deixá-los em paz.

Descobri que tenho cabelos encaracolados:

serpentes gordas e indóceis enroladas na cabeça.


Há disso que só aparece se você deixar crescer.

Linhas de expressão (2026)

⃰  ⃰  ⃰

[4]


[De Quarta pausa]

Hegel disse que nada de grande se realizou sem paixão.

Paixão vem de pathos, tudo indica.

Emoção intensa excesso assujeitamento afecção adoecimento

distúrbio.

E as pequenas coisas que sustentam os dias, são feitas de quê?

E as pequenas coisas corriqueiras constantes coisas que

mantêm a vida?

Essas infinitas imensas coisas miúdas?

O que a paixão já destruiu?

Tenha dó, Hegel.

Linhas de expressão (2026)

⃰  ⃰  ⃰


[5]

[De Sétima pausa]

Quando eu estava quando não fui corajosa e ousada?

Quando eu estava quando não fui desbocada?

Para onde eu estava indo?


O que me salva

é quando falho na primeira pessoa

e consigo esbarrar em mim.


Meu percurso: ir voltando.

Linhas de expressão (2026)

Eugênia Fraietta é goiana e nasceu em 1970. Atuou como professora de literatura por 30 anos, é escritora, poeta e artista visual colagista. Mestre em Literatura com trabalho sobre contos de Machado de Assis, publicou Luquinianas em 2017 pela Editora Ricochete e tem contos publicados nas coletâneas Cidade sombria (2018, pela editora MMarte) e Cidade infundada (2022, pela Martelo Casa Editorial). Produziu, roteirizou e apresentou, em parceria com a Bastilha Estúdios, o podcast Machado: um conto. Em maio de 2026, lançou, pela Editora Patuá, seu primeiro livro de poemas, Linhas de expressão.

Tag's: Eugênia Fraietta, poesia, poesia goiana

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