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Foto: Divulgação
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Patricia Peterle em Veredas Professora de literatura da UFSC | Publicado em 11 de outubro de 2026

Patricia Peterle
Professora de literatura da UFSC
11/10/2026 em Veredas

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A escrita poética de Barbara Giuliani

[Tradução de Patricia Peterle]

A força que imprimo neste papel é proporcional ao peso da palavra pressionada. Imagino as letras compostas por uma matéria mole, dúctil, evaporável, transformável nos estados físico-químicos. Tenho em mente  o pequeno filme documentário que representa esta espetacularidade da memória entre mão, caneta e papel.

Uma espécie de cartograma.

A potência com que escrevo pareceria igual para todas as palavras (no momento não tenho um sinônimo para descrever de outra forma essas coisas que escorregam na nossa boca e cuspimos no ar ou criamos da nossa cabeça até torná-las reais nas folhas ou nos monitores empoeirados dos computadores comprados com ajuda de pequenas financeiras que nos fazem crer que não estamos submetidos ao consumismo), mas não é assim. Pressiono em profundidade quando um termo é central, fulcro de uma mudança, estase de um ato importante; pressiono menos nos medos, nas incertezas, nas tamargueiras, no pão com queijo, nos olhos cansados e na consciência de que o sal não tem vencimento.

Imagino uma piscina cheia, transbordante de chiclete rosa, e da borda, nua, lanço letras de ferro, de pluma, de arroz tufado e afundam, ricocheteiam, ficam rente à superfície.

Lançar palavras na superfície.

Eu só queria ter escrito uma reflexão sobre a modalidade de percussão entre a tinta e a epiderme e me vejo sem ter uma saída clara, detalhada, bem indicada, iluminada, dentro da lei. Somos tudo aquilo que podemos nos obstinar a sacrilejar, a deixar pra lá os nossos pequenos mal-estares, para termos uma doença infalível para ser contada.

Você está atrás de mim, os políticos estão em campanha eleitoral e o volume da televisão está no oito.

Cada um tem o controle remoto que merece.

Você alguma vez declarou querer te suicidar?

Encontrar um peso-elo e levá-lo para um sonho?

Encontrar pelo menos dez sinônimos para o verbo encontrar:

descobrir,

 colher,

reencontrar,

localizar,

desentocar,

recuperar,

encontrar,

deparar-se,

receber,

desenterrar,

topar com.

Pensar em outros.

Penso um sonho e o transcrevo em um pesadelo.

Fecho os olhos.

Abro os olhos.

Distendo os meus vocábulos, alinho-os na minha língua, umedeço-os, nutro-os, engulo-os, projeto-os no meu ventre plano, crio uma bomba não explodida, um piso não explodido, um caminho de minas anti-homem, uma trincheira em ambiente fechado.

A temperatura de serviço das minhas mãos é indetectável nesta atmosfera.

O ponto-traço.

_ _ _ … _ _ _

La forza che imprimo a questa carta è proporzionale al peso della parola calcata. Immagino le lettere composte da una materia molle, duttile evaporabile, trasformabile negli stati chimico fisici. Ho in mente il piccolo film documentario che rappresenta questa spettacolarità della memoria tra la mano, la penna e la carta.

Una specie di cartogramma.

La potenza con cui scrivo sembrerebbe uguale per tutte le parole (al momento non ho un sinonimo per descrivere in altro modo queste cose che scivolano nella nostra bocca e le sputiamo all’aria o creiamo dalla nostra mente fino a renderle vere sui fogli o sui monitor impolverati dei computer comprati con gli aiuti di piccole finanziarie che ci fanno credere di non essere sottomessi al consumismo), ma non è così. Premo in profondità quando un termine è centrale, fulcro di un cambiamento, stasi di un atto importante; premo meno sulle paure, sulle incertezze, sulle tamerici sul pane con il formaggio, sugli occhi stanchi e sulla consapevolezza che il sale non abbia scadenza.

Immagino una piscina riempita, colma di chewing gum rosa, e dal bordo, nuda, lancio le lettere di ferro, di piuma, di riso soffiato e vanno a fondo, rimbalzano, sono a pelo.

Lanciare parole sulla superficie.

Avrei voluto solo scrivere una riflessione sulla modalità di percussione tra l’inchiostro e l’epidermide e mi ritrovo a non avere una via d’uscita chiara, dettagliata, ben indicata, illuminata e a norma di legge. Siamo tutto quello che possiamo ostinarci a sacrilegiare, a trascurare i nostri piccoli malanni, per avere una malattia infallibile da raccontare.

Sei alle mie spalle, i politici sono in campagna elettorale e il volume del televisore è a otto.

Ognuno ha il telecomando che si merita.

Tu hai mai dichiarato di volerti suicidare?

Di trovare un in cubo e portarlo in un sogno?

Trovare almeno dieci sinonimi del verbo trovare:

scoprire;

cogliere;

ritrovare;

rintracciare;

scovare;

recuperare;

incontrare;

imbattersi;

ricevere;

dissotterrare;

incappare.

Pensare altri.

Penso un sogno e lo trascrivo in un incubo.

Chiudo gli occhi.

Apro gli occhi.

Distendo i miei vocaboli, li allineo sulla mia lingua, li inumidisco, li nutro, li ingurgito, li proietto nel mio piatto ventre, creo una bomba inesplosa, un pavimento inesploso, un cammino di mine antiuomo, una trincea al chiuso.

La temperatura di servizio delle mie mani è irrilevabile in questa atmosfera.

Il punto trattino.

(Occidente, ’round Midnight edizioni, 2023)

Barbara Giuliani (Pescara, 1979) é poeta e performer autodidata. A palavra atravessa várias direções em suas obras. Fez parte dos coletivos Voici la Bombe e Cochonnerie Labile, participou do Poetry Slam Abruzzo. Com Debora Vinciguerra fez uma trilogia de instalações de poesia real. Ensina escrita poética na Scuola Macondo de Pescara e é diretora artística do Festival di Libri e altre cose, na seção Poesia. Publicou as coletâneas: Bergamo Mantova solo andata (2009), Floppy (2015), Cloroformio (2016), L’Aria Rancida (2018), Bianca (2022) e Occidente (2023).

Tag's: Barbara Giuliani, poesia, poesia italiana

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