Quando o mundo dá uma guinada rumo a autocracias e desmonte da ordem internacional, não creio que George Orwell imaginaria tanto.
Alterações climáticas trazem eventos extremos e ameaças graves à biodiversidade. A ciência, as boas práticas ambientais e de produção e o bom senso nos alertam sobre rumos ecológicos a tomar, porém o mundo recrudesce e segue desabrido em guerras infanticidas.
Ensina-se no meio oriente que crianças podem ser terroristas. Segue em vigência o terrorismo de Estado, o morticínio, a ocupação, o apartheid, cultos nazistas, racistas, fóbicos de outras culturas e religiões – e nenhum pudor. A guerra assimétrica usa como arma o ecocídio.
Filósofos vem à esfera púbica desfilar sapiências sobre legitimidade de atos de guerra que violam o direito internacional. Um séquito de intelectuais de think tanks comprometidos com interesses não escamoteados infiltram-se nas televisões internacionais, expondo sabedorias supostamente estratégicas sobre as guerras movidas pela insanidade, sem perguntar-se se tudo isso é evitável.
A grande nação armada do norte se insere novamente em guerras destrutivas, onde alveja-se civis. Vejo documentário na CNN sobre igrejas evangélicas que propugnam um nacionalismo cristão branco, teocrático, que visa erradicar escolas públicas e o ensino laico, com a mão sobre o governo norte-americano. Não faltam matérias a respeito na rede mundial. Um acólito, o ministro da defesa-que-virou-guerra diz lançar mísseis em nome de Jesus.
Esquecem-se do que souberam, dos seus mitos fundadores e do espírito da sua Constituição. Distorcem um imaginado destino manifesto ou serão eflúvios da Ku Klux Klan? Leio que proibiram ler Raízes, de Alex Haley, em um condado no Tennessee. Por mais que esperneiem sobre tudo, não há como calar a liberdade de pensamento na tradição anglo-saxã, como se lê em Boston Review.
Robert Francis Prevost, de Chicago, pároco no Peru, o Santo Padre Leão XIV, precisou de uma frase para rebater a insistência de uma guerra divina – Deus não pode ser alistado pela escuridão.
Na Otan de países em conflitos sociais defende-se direcionar 5% do PIB a gastos militares. Entre as bombas que vêm do céu, resta o direito internacional humanitário e ações como as da Cruz Vermelha, oriunda de uma neutra Suíça, como se depreende da entrevista recente ao Roda Viva do diretor-geral do seu Comitê Internacional, Pierre Krahenbul.
Tragédias afetam o meio ambiente e movem migrações de pessoas. Segue por um fio o alto risco de contaminação nuclear, nas usinas circundadas por explosões, na ameaça revivida em arsenais de ogivas nucleares. E seguem os sábios a se preocuparem com o desabastecimento bélico em face de uma hipotética guerra dos EUA contra a China, no âmbito da nova guerra fria que arde.
Autocracias controlam pessoas e o acesso à informação. No Ocidente, vive-se um ambiente onde a legislação antitruste foi desmontada para alimentar a chamada eficiência dos oligopólios. (Tim Wu, The Curse of Bigness: Antitrust in the New Gilded Age, Columbia Global Reports, Nova York, 2018).
Religiões são distorcidas. O populismo vai ensandecido. O poder confunde-se com o dinheiro nas plutocracias. Tiro ao alvo na social-democracia, alimentando o extremismo. E avançam supremacismos, os tanques, mísseis, bombas, o fascismo, as retóricas que destilam ódio.
Cidadãos ficam indefesos em relação a seus próprios governos. Estados invadem o sigilo das pessoas. A onda agora é discutir as tecnologias de guerra do século 21, nuvens de drones alimentados pela inteligência artificial. Concentra-se poder, some a distinção entre democracias e ditaduras; vitimizam-se o Estado de Direito, os direitos sociais, criminalizando-se as camadas menos favorecidas.
O crime organizado infiltra-se em todas as esferas sociais e políticas e no âmbito de criptomoedas. Atacam liberdade de discurso, ambientalistas, os jornalistas, os povos indígenas.
O desenvolvimentismo muda de cores. Esconde-se, na cultura do apagamento. E, no entanto, não falta informação nas mídias, filtradas pelos algoritmos, ao gosto do usuário, sob ameaça de vírus. E vem a TV portuguesa SIC a exibir matérias da Sky News, a mostrar o que não vejo em outras televisões, testemunhos desde as frentes do Irã, Líbano, Palestina arrasada – e uma Cuba sitiada. Não bastou a guerra fratricida na Ucrânia. Impera a psicose de um suposto direito de matar.
Reinam notícias falsas em substratos profundos da rede interconectada digital, consumidas por jovens que nunca ouviram falar dos Beatles. Terá sido o assassinato de John Lennon uma premonição?
No Congresso de Berlim (1884-1885), como se sabe, os europeus faziam uma partilha na África como quem corta um peru. O romancista paquistanês Tariq Ali lembrou alhures que no mundo árabe era possível nascer, trabalhar e estudar entre cidades como Damasco, Bagdá e Cairo e que o resultado do colonialismo foi a divisão autocrática do que poderia ter sido uma grande democracia.
Quanto ao mundo persa, americanos e ingleses meteram-se a dar golpes no Irã: em 1953 contra a nacionalização do petróleo e em 1979 na deposição do Xá que resultou na teocracia iraniana.
O regime iraniano executa dissidentes. Eles atiraram contra o próprio povo que se manifestava. Os israelenses fazem isso com os palestinos, com o fito de impedir o seu Estado, no avanço sobre a Cisjordânia dos colonos protegidos pelo exercício do monopólio da violência de um Estado sobre não cidadãos e no campo de concentração urbano de Gaza, cercado, seguidamente destruído.
Aos ventos de soberanias que se dissipam e dos ataques ao multilateralismo internacional, aumenta a cobiça. Todos ao telefone pelas terras raras e minerais críticos, onde imperam interesses das big techs e da indústria da guerra. Movem-se por e pela inteligência artificial. Como antes, o ataque sobre a natureza na busca dos minérios se sobrepõe à natureza e à vida humana.
No Brasil, onde muitos parlamentares não leem a Constituição, suas excelências aprovaram o PL da Devastação, para desmontar o licenciamento ambiental e fazerem avançar os tratores; a Câmara aprovou projeto de lei sobre terras raras desprovido de salvaguardas socioambientais. O país fez acordo estratégico com a Índia sobre terras raras e minerais críticos e discute a fronteira do risco.
Após os trágicos rompimentos de barragens de mineração nos casos de Mariana e Brumadinho, em face da insuficiência da justiça brasileira diante da culpa real inerente à desídia sobre o risco à vida humana e o equilíbrio ecológico que causou danos irreparáveis ceifando vidas, as vítimas precisaram alcançar a corte britânica para alcançar visão de justiça no primeiro caso, de morte e contaminação do rio Doce, responsabilizando a empresa australiana BHP.
O fotógrafo Wilson da Costa, no seu livro realista e poético, Entre Minas, mergulha e registra os vestígios da catástrofe movidos por ventos desde Niterói. As fotografias buscam os espaços entre e carregam a energia da terra onírica onde as Minas comungam com as Gerais (Nau Editora, Rio de Janeiro, 2023).
A mineração encontra-se em alta cobiça da Amazônia.
Seguindo a instalação eivada de atropelos e desatendimento de condicionantes da hidrelétrica de Belo Monte, de ineficiência energética hídrica e hidrograma controverso, querem instalar Belo Sun, uma megaoperação de empresa canadense de mineração de ouro que põe em risco o rio Xingu, com uma imensa barragem tóxica próxima ao corpo d’água. Projeto que ora tramita sub judice por licenciamento estadual.
Lembro que tentaram o mesmo nos primórdios de Belo Monte, para evadir-se da competência federal em rio de domínio da União. Na judicialização o TRF1 suspendeu a licença de instalação.
Eu me refugio no livro da escritora indiana Arundhati Roy, Mother Mary comes to me, cujo título remete à música de Paul McCartney Let it be. São memórias sobre uma vida dramática na Índia, onde a mãe de religião cristã criava sozinha dois filhos e lutava para estabelecer uma escola inovadora, desafiando preconceitos, driblando o impossível, escritas com graça e encanto.
A autora – que tendo superado dificuldades irremovíveis foi estudar arquitetura e virou escritora – tornou-se célebre por seu romance Deus das pequenas coisas, no qual ficcionalizou os dramas que vivenciou. Ela ainda publicou com todas as letras livros com denúncias dos efeitos perversos da corporatização de tudo em poucos oligopólios no seu país – que recolhe sob a rubrica de imperialismo. Novo capítulo da nação com séculos de iniquidades, desde a separação das castas à condição de colônia britânica ao muito sangue derramado ao tempo da sua independência, na partição do Paquistão.
Arundhati Roy escreveu uma estória fantasma no capitalismo: Capitalism, a ghost story (Haymarket Books, Chicago, 2014). A sua visão é crítica da construção do nacionalismo hindu.
Esse sentido, para além da literatura, a aproxima do compositor, poeta, escritor, dramaturgo, e internacionalista de língua bengali e origem aristocrática Rabindranath Tagore.
Ele tornou-se célebre no Ocidente quando publicou em inglês Gitanjali, obra-prima a partir dos poemas originais em bengali, revisada e prefaciada pelo poeta irlandês William Butler Yeats, sendo laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1913. O primeiro não europeu e não branco a recebê-lo.
A excelente biografia de Rabindranath Thakur – Tagore sendo a versão anglófila do sobrenome –, The myriad minded man, de Krishna Dutta e Andrew Robinson (St. Martins Press, Nova York, 1996), relatou a relação de sério respeito e colaboração conflituosa de Rabi, por herança lorde de terras zamindar, o poeta polímata que tornar-se-ia pintor, com Mohandas Karamchand Gandhi, a quem chamou de Mahatma, e que se referia a Tagore como o grande sentinela.
Os dois habitantes da Índia que viveram jovens em terras britânicas. Já maduros, antes da independência da Índia, o poeta bengali, que renunciou ao título de cavaleiro do Império britânico após o massacre de Jallianwalla Bagh em Amristar, preocupado com nacionalismos que desaguariam na primeira grande guerra, atravessava oceanos em diálogos internacionais, proferindo palestras e buscando financiar a sua inovadora escola rural; onde o revolucionário Gandhi despia as vestes e investia na desobediência civil e na construção de uma nação soberana.
Foi uma relação eivada de afastamentos entre ambos, nas perspectivas nacional e internacional, seguidos por momentos de diálogo e reaproximação. Como pano de fundo, o estado de colônia do Império britânico e os embates nacionalistas naquele país. Foram dois pilares da Índia moderna, que mesmo longe entre si, ainda que discordando, agiam em consonância por benefício de seu país.
A vida levou o poeta de testemunha em Calcutá a participante e a crítico do nacionalismo indiano, que retratou no romance A casa e o mundo, e do nacionalismo em esfera internacional que expôs na conferência Nationalism, publicada em 1917.
Para ensaiar explicar a Índia, o historiador inglês William Dalrymple começou por notar que que, após o estabelecimento de sultanatos na Índia nos séculos 12 e 13, o persa tornou-se língua oficial e os seus usos culturais de etiqueta tornaram-se regra nas cortes hindus (The Golden Road, how ancient India transformed the world, Bloomsbury, Londres, 2024, Nova York 2025, p.2).
O bengali contém em seu léxico, além do sânscrito, palavras de origem persa. No tempo moderno em que usava-se a categoria raça, ao contemplar 50 séculos de história da Índia, Tagore discernia a centralidade do componente étnico do caldeirão no continente indiano, onde encontraram-se civilizações.
Lê-se em Nacionalismo no Ocidente: “Para a Índia (…) raças etnologicamente diferentes vieram a se encontrar em contato próximo. Esse fato foi e continua a ser o mais importante de nossa história. É nossa missão encará-lo e provar a nossa humanidade em lidar com ele na inteireza de sua verdade. Até que nós cumpramos a nossa missão todos os outros benefícios nos serão negados” (Nationalism, op. cit. p. 14).
O termo hindu, lembra Arundhati Roy para explicar o nacionalismo dessa vertente, foi um termo maometano atribuído sobre os brâmanes. Os reputados intocáveis foram levados a converterem-se para serem aceitos, entre muitos incidentes de um longo percurso.
Durante a Primeira Guerra Mundial, Tagore divisou a mecanização das mentalidades, do comércio e das guerras do mundo no século 20: “(…) e assim onde havia cooperação intrometeu-se a competição”, onde o poder tornou-se abstrato na dissolução da pessoa humana. E vai ao ponto de escrever: “esse ser abstrato, a Nação, está reinando a Índia” (idem, pp. 14, 22, 24).
Estive na Índia no milênio passado, onde senti a grande confusão da metrópole insalubre, quando o uso era buzinar para evitar colisões, a imensa espiritualidade à beira do rio Ganges, e outra dimensão em seu meio rural. A epopeia das suas complexas discussões sociais e políticas oriunda de um caldeirão étnico-linguístico e o desenvolvimento conflituoso de um nacionalismo excludente estão retratados em fontes como os textos de Tagore a Roy.
Arundhati Roy veio ao Brasil em 2003 e leu no Fórum Social Mundialem Porto Alegre um texto que está coligido no livro que recolhe ensaios críticos do hipercapitalismo indiano, numa fala a um tempo de denúncia e esperança (“Confronting Empire”, em The end of imagination, Haymarket Books, Chicago, 2016).
As suas boas intenções não estiveram imunes ao futuro, quando acreditou na semente do regime de Hugo Chávez, que alimentou o militarismo sem peias, autocrático. Regime que hoje segue desde que mande petróleo aos Estados Unidos do corolário Trump, que novamente subverteu a Doutrina Monroe em manter nas Américas uma Zona de Paz, com a volta do porrete, muros e presídios em El Salvador.
Como não se solidarizar com a denúncia de Roy da extrema violência do pogrom que violentara e matara famílias muçulmanas no ano anterior, em 2002, no estado de Gujarat, então governado por Narendra Modi, atual primeiro-ministro? O episódio sangrento que começou com um incêndio não esclarecido em um vagão que carregava hindus e levou ao ataque indiscriminado contra muçulmanos não deve ser esquecido.
Final Solution, foi o documentário premiado que retratou esse episódio violento, cujos anais, disse a BBC, foram destruídos. Modi, acusado de incitar e cruzar os braços na matança, foi absolvido.
Roy diz as coisas como entende que são, não como as pintam os panegíricos das letras oficiais. Nenhuma narrativa escapa ao seu crivo. Ela enxerga uma construção sistêmica de dominação e apaziguamento na desterritorialização de milhões, inclusive no desarme de críticas pela cooptação filantrópica. Talvez exagere na sua descrença de um mundo construído à revelia das aspirações das pessoas, mesmo quando vem em socorro destas, na sua aliança com a sua emancipação.
Não há como ficar insensível em face dos muitos casos de suicídio na Índia, por dívidas de agricultores submetidos aos agrotóxicos da chamada “revolução verde” que aumentou a produtividade e destruiu a vida orgânica de nutrição regenerativa da terra, substituindo-a pelo ciclo vicioso de fertilizantes químicos, há muito denunciada pela física, autora e ativista Vandana Shiva.
Shiva descortinou a realidade do paradigma da destruição a partir da revelação seminal de Rachel Carson da herança entre a indústria da guerra e os pesticidas, o agente laranja e as práticas biocidas na fertilização (Biopiracy, the plunder of nature and knowledge, South End Books, Boston, 1997).
Trata-se do controle das sementes pelas corporações, em um cenário de erosão genética da biodiversidade agrícola baseado em monoculturas (Who really feeds the world? The failures of agribusiness and the promise of agroecology, North Atlantic Books, Berkeley, 2016).
Não foram apenas tantos suicídios de agricultores endividados: Arundhati Roy rememora o caso comovente do bilhete da estudante de 18 anos que ceifou a própria vida por incapacidade de pagar dívida de microcrédito. Um caso entre centenas de outros (Capitalism, op. cit. p. 27).
Raj Pattel mergulhou sobre as relações perigosas do sistema alimentar mundial onde convivem fome e obesidade, na criação após a Segunda Guerra Mundial de um sistema de sementes híbridas, na agricultura que incorporou fertilizantes e pesticidas, dependentes de combustíveis fósseis na produção, resultando na erradicação da biodiversidade de sementes (Stuffed and starved, the hidden battle for the world food system, Melville House, Nova York 2007: segunda edição 2012, p. 130.
O lápis pode vir a ser uma arma temida capaz de colaborar para derrubar regimes autocráticos e combater a hidra capitalista, que há de se metamorfosear.
Por enquanto a máquina de destruição humana segue sobre humanos não humanos, com o poder da morte sem imputabilidade no seu domínio.
Lembro que o fundador do direito das gentes, Hugo Grócio (1583-1645), trabalhou para a Companhia das Índias Ocidentais, primeira corporação capitalista. Ele construiu a personalidade jurídica com império sobre a natureza, assim como a definição dos oceanos como terra nullius, sem alcance de soberanias (Fritjof Capra e Ugo Matei, The ecology of law, toward a legal system in tune with nature and community, Oakland, 2015).
Arundhati Roy notabilizou-se ainda por se opor às trombetas triunfalistas de Sardar Sarovar, um megaprojeto de barragem de alto impacto no rio Narmada feito para fornecer energia e água para ocupação urbanizante do crescimento indiano em Gujarat, retratada no documentário Drowned Out.
Em 1999, a sua oposição à barragem de Gujarat foi objeto de exame da Suprema Corte da Índia. A corte exarou uma decisão a respeito (Elaborate Order) na qual resolveu não prosseguir em responsabilizá-la por poluir o curso da justiça (The Ladies have feelings so… em The End of Imagination, p. 191).
Roy hoje compara o indizível genocídio palestino ao nacionalismo hindu, no qual as mordaças são um processo de destruição da democracia liberal.
No cenário do desmonte, como antes, a descolonização está longe de se encerrar.
Para o historiador Dipesh Chakrabarty, nascido em Calcutá, nutrido em estudos pós-coloniais e muito citado por suas quatro teses dobre o clima, existe nas muitas humanidades de diferentes culturas no planeta o descompasso de uma paralaxe nas visões de mundo inter-hemisféricas (One Planet, many worlds: the climate parallax, Walthan, Brandeis University Press, 2023).
E a paralaxe de óticas diferentes sobre a responsabilidade sobre o clima, o valor do desenvolvimento e quem paga os custos, ao que parece expande-se para outras esferas, na dinamitação de consensos.
Sua Santidade o papa trouxe à luz a sua primeira encíclica, como uma salvaguarda acerca do avanço da inteligência artificial sobre a vida humana.
A longa guerra na República Democrática do Congo já deixou milhões de mortos, abrindo caminho para minerações. A conjunção de guerra, deslocamentos e alterações no mundo natural trouxe novo surto do mortífero ebola.
Para o filósofo político camaronês Achille Mbembe, a relação da humanidade com a terra, desde a modernidade, é análoga àquela dos senhores com escravos (A comunidade terrestre, N-1 edições, São Paulo, 2025, p. 57).
As autocracias marcham sobre pessoas, povos e sociedades.
Já E. P Thompson notara a precedência da sociedade civil às estruturas sociais e políticas na concepção de Rabindranath Tagore (The myriad-minded man, p. 13).
Lembram os autores da biografia que, como o seu amigo Einsten, Tagore expressou que o sucesso do projeto sionista dependeria inteiramente da cooperação entre judeus e árabes (idem p. 300).
O palestino Edward Said, professor de literatura comparada na universidade de Columbia, autor do Orientalismo que denunciou o eurocentrismo superior-cêntrico, entendeu que a questão da Palestina não seria resolvida pelo divisionismo. Assim também entende o historiador israelense Ilan Pappe, que veio à FLIP. Sem o ódio, seria a solução da Palestina um estado multiétnico pacífico?
Para os autores documentaristas de Sukande Kasaká, que retrataram a fronteira entre a soja transgênica e a biodiversidade conservada viva em terra indígena, o modelo devastador que contamina os espaços naturais sitiados faz a Terra Doente.
Sua Majestade o rei do Reino Unido, Charles III, insuspeito de opor-se a ao direito comum que deu suporte ao sistema capitalista, há muito alerta sobre a inviabilidade ecológica dos negócios como de costume, como se vê no recente documentário Finding Harmony.
Como ter vida saudável sem harmonia? Antes semear utopias pragmáticas do que distopias da terra arrasada. Há inúmeras ações em bom sentido ecológico nas atividades de largo impacto ambiental, como é o caso da agricultura regenerativa no século 21. Vide o documentário Kiss the Ground.
No planeta sob severa transformação climática e derretimento de geleiras, meu amigo, o diretor franco-alemão Sylvestre Campe singrou a Passagem Noroeste com sua filha Cleo e os filhos do climatologista sueco Johan Rockström (que o Silva disse nutre cultivar esperanças) para gravar a série O Labirinto do Ártico.
Cormac Cullinan, advogado sul-africano do direito selvagem, dedica-se à sustentabilidade interespécies na Antártica. O mundo busca adotar Tratado do Alto Mar.
A parceria entre Brasil e Índia, fundamental no âmbito da inserção geoecopolítica circular do planeta, não é sem riscos, inerentes à mineração e ao contexto explosivo. Ela não se resume aos dois países, na interdependência hemisférica. A equação de uma paz ecológica entre Oriente e Ocidente, Norte e Sul, bem comum e esfera privada, não é escolha, senão imperiosa necessidade de convivência e conservação da vida.
O Sistema Internacional deve ser construído em esferas de troca cultural e comercial internacional justa. Só terraplanistas podem pretender que uma região geográfica, religião, etnia ou sistema político mande no mundo. Não há de se esquecer a origem árabe da poesia e da álgebra, a origem persa e indiana do xadrez, a paciência chinesa, a fundamentalidade africana, a incomensurabilidade do valor da vida, que os xamãs veem conversando com espíritos.
Como parar A Queda do Céu?A ineficiência decisória do consenso multilateral e a loucura do veto de um só país tem de transformar-se.
No âmbito da esperança realista, vem bom livro de autores argentinos – a socióloga Maristella Svampa e o advogado Enrique Vialle – propugnar pela justiça ambiental. Para eles, Vandana Shiva traz um ecofeminismo pós-colonial que se opõe a imperativos patriarcais modernos de homogeneidade, dominação e centralização do maldesenvolvimento. Ao que se opõe narrativas relacionais com centro na interdependência, cuidado a complementaridade e a reciprocidade (Transição ecossocial justa, uma perspectiva do Sul Global, Editora Elefante, São Paulo, 2025, pp. 63-81).
O livro do ecologista Fabio Rubio Scarano, outro realista esperançoso a caminho do ecocentrismo, em busca do possível, apresenta uma leitura original e uma suma do pensamento sobre o nosso lugar no mundo natural em tempos pós-normais, no âmbito de uma nova ética de convergências (Diálogos Regenerativos para futuros sustentáveis: integrando ciência, artes, espiritualidade e conhecimento ancestral para o bem-estar planetário. Bambual editora, Rio de Janeiro, 2025).
Apesar de Estados grupos e organizações paraestatais de fundo segregacionista terem esquecido e seguirem vertendo sangue, cumpre plantar paradigmas ecossistêmicos onde ideologias não fazem a esperança sucumbir. Qual conjunto de nações atingirá sistema de convivência suave?
O cacique pajé Raoni Metuktyre não abandonou a luta pela floresta. As mulheres indígenas, o xamã Davi Kopenawa e o mineiro Ailton Krenak não nos deixam esquecer a teia ecológica da vida, a fragilidade do mundo e a resiliência do comum, do bom viver e sobreviver pela renovação da vida.






