Pois é, o status era esse mesmo: Viver sem paixão. Num grupo de indicações de serviços. Bem indicada, claro. Curiosei na hora. Deu até vontade de ligar para o número indicado e perguntar o porquê do status. Um filme? Matutei Almodóvar, matutei Bergman, matutei Kiarostami, Zemeckis, Coppola, Bertolucci, Billy Wilder (é, parecia mais título de filme do Billy Wilder). Pesquisei, e nada. Nem título de filme nem título de livro. Será que tudo tem que ter um porquê? Por que a Golda tem esse nome? – perguntei uma vez – Será por causa da Golda Meir?/ Que nada, a mãe dela nunca soube da existência da Golda Meir.
Então, não perguntei, mas confesso que pensei um bom pouquitinho a respeito, pois só tenho visto coisas como Fé, força e coragem/ Viver com fé/ Viver e deixar viver/ Meus filhos, minha vida/ Afeto e Gentileza/ No cinema/ Dormindo/ Vamos que vamos… E, palpite que ninguém, ninguém mesmo pediu: não se fiem muito em status meigos, bem-intencionados e virtuosos, que você pode se deparar com uma chapuletada inesperada (ai, que a rima involuntária está sempre à espreita, pronta para atacar do nada, como o temível tigre-de-bengala, fatal e sem possibilidade de defesa), talvez oriunda da nítida divisão entre a Turma da Ponderação e a Turma da Chapuletada, com as quais, muitas vezes, diga-se de passagem, a gente esbarra no mundo digital.
E, sério, quem consegue viver sem paixão por alguma coisa, por alguém, pelos seus animais, pela poesia, por uma cidade, pela vida, de modo geral? Eu já pensando na dona do status, que deve ser magra, de estatura mediana e voz aguda, usar um lenço na cabeça e luvas, enquanto limpa uma casa com eficiência ímpar e notável rapidez, um arrepio de irritação percorrendo a espinha, a cada vez que se depara com gotas de xixi na tampa do vaso, torneiras engorduradas, pelos de gato sobre a mesa e armários… O que a leva involuntariamente a juntar as negras e grossas sobrancelhas e cerrar os lábios, franzindo a testa e suspirando fundamente. Ao voltar para casa, fecha a porta e abre a janela, tendo o cuidado de cerrar as cortinas, e se joga no sofá, atirando com violência os sapatos contra a porta. Depois fecha os olhos, esvaziada, sem pensamentos, amalgamada, sem paixão alguma. Em menos de dois minutos mergulha num sono denso e sem sonhos, como quem despenca de um penhasco num lago morno e negro.
Uma tia conseguia realizar a proeza de limpar uma casinha de dois quartos, em que vivia na companhia de uma pequena cadela, até as três da madrugada, bem assim também. É, mas não posso dizer que ela viveu sem paixão, pois ela estava sempre MORRENDO. Dizia: Estou morrendo de raiva/ Fiquei morrendo de ódio/ Fiquei morrendo de medo/ Estou morrendo de cansada/ Fiquei morrendo de alegria (isso, no entanto, era bem mais raro). De toda forma, uma pessoa intensa, com todo o nervosismo de suas forças de pequena e tensa estatura concentradas em tudo o que fazia com admirável e indubitável precisão.
Ontem, na fila curta e lenta do posto de saúde, na sombra, um banco de cimento, sem perguntar se tinha vacinação, pois quando a fila não envolve sacrifício, já penso em aproveitar a pausa, pois filas são propícias para: a) refletir sobre assuntos pendentes; b) ler; c) escrever; d) conversar com estranhos; e) escutar conversas aleatórias.
E, nessa parte, foi interessante e até esclarecedor(?), pois a conversa travada entre um homem e uma mulher, que se conheceram ali na fila mesmo, versava sobre a pandemia, questões religiosas e questões criminais, num tom exaltado, apaixonado mesmo: A gente cai, mas nós levanta/ Eu vou chegando em casa e já desligo a televisão/ não é só beber ou usar drogas que é vício, é a televisão, comer, comprar/ A roupa, quando expermentei achei bonita, depois já não achei mais/ E, se a pessoa cai, eu, Ana Maria, enquanto eu for viva, é jejum e oração em cima dela, e eu como é prato de peão, muita comida, comida de verdade, mas fico no chá, já fiquei até dez horas sem comer/ Se você não sabe dirigir, tem a autoescola, tem apostilha, a bíblia é o manual da vida, tá tudo lá, pra tu aprender/ Essa história de feminicídio começou na Covid, matam homem, matam mulher, matam criança, muita mulher mata homem/ Tem caso dos dois lados, mas só falam no outro lado, porque dá ibope/ Na covid, fecharam os bares, mas não fecharam os supermercado, que também tem bebida/O homem não pode beber no bar, brigar com outros homens, então pra onde ele traz a briga? Ele transfere a briga para dentro de casa.
Com a imagem de homens trocando sopapos dentro de um bar escuro, resolvi perguntar: Estão vacinando?/ Só das oito às onze/ Ah, tá.
A professora sofisticada, loira, de franja e salto alto, camaleônica (impossível identificá-la de longe só pelo cabelo, pois muda de corte e cor a cada estação), confessa aos seus queridos alunos: Aiiii, que tesão… pela literatura!
A professora mais eterninha, de gola alta e mangas estrategicamente compridas, chega atrasada à reunião e desabafa alegre: Vocês acreditam que neste ano eu passei frio em Nova York?! (Alguns olhares hostis e, talvez, um e outro iceberg de inveja? Ah, como não?! Nova York, ai!).
No off-white da minha memória, versos sem lembrança do poeta: e, na tua mão, meu coração é como diante de um prato vazio um cão sem dono.
Paixões, entende?




