[Curadoria de Luís Araujo Pereira]
[1]
Leviana lua
Noite crua. A ríspida freada. O fio do latido. E o ner-
vosismo de viadutos contorcidos. Árvores. Medusas imensas.
Postes. Sentinelas de carvão. E o bêbado vagando ao vento de
fuligens.
Uma lua indecisa, entre nuvens evasivas, aguarda. A
cúmplice vidraça. A senha da luminária. O assovio do mau
poema que doidamente completa ____ noite nua.
Ruelas profanas (1999)
⃰ ⃰ ⃰
[2]
Revoadas
Não se sabe de onde vêm, frágeis criaturas da fuligem
de sobreaviso nos postes. Serão manadas ainda, harpias im-
tunas, aos surtos, sem carteira assinada. Um pombo, dois
pombos, uma dúzia de pombos – minha flor da sarjeta. Mais
um, mais dois, treze milhões de arrulhos rasantes, conurba-
nos, vagas de papel picado sem leitura. Adensarão lobbies e
ágoras. Adentrarão cadeias e pavilhões de sangue, donde vêm?
A noite, que tudo acoberta, recolhe a mais alva esquadrilha.
E embute outro poste, outro pombo, bola macilenta no varal
sem luz.
Meio-fio (2003)
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[3]
Refrão da fuligem
XXII
o acendedor do fogão
atiça o ouvido de nostradamus
cogumelos explodem
estrela é jogada do céu
metralhadora míssil helicóptero
cavalos do apóstolo
taças de urânio estouram
negras
amarelas
esverdeadas
e
desaparecem
no arranque da moto
paz do sétimo dia
sob a chaleira
o fogo é uma flor de lótus azul
Refrão da fuligem (2013)
⃰ ⃰ ⃰
[4]
Uivos
pelas torneiras, o uivo noturno
uivo furioso das serras e martelos
da veia saltada das peixarias estúpidas
em oleodutos, uivo
das catedrais dissecadas
das abóboras dessangradas
do canibal à espreita nas butiques, uivo
das cercas elétricas
(unhas cravadas na madrugada)
das bocas de fumo e cio de viaturas, uivo
que sempre houve e haverá
na curva das bicicletas
sono de toaletes
na goela cortada da rua
donde saem, feitas em série, alcateias
Bocas de lobo (2015)
⃰ ⃰ ⃰
[5]
Poentes
vezes a górgona
o cabelo peçonhento
vezes a amêndoa de sangue pisado
na palma do ressuscitado
vezes o dente curvo da lua
cavalo celta, crânio-pingente
vezes o prato
o profeta degolado
vezes a massa de véus
vezes pilhas de alfinetes no horizonte
vezes o coro do vento
vezes nada
só o pensamento das árvores
quando chegam os tártaros? (2023)
Rosana Piccolo é paulistana e mora em Curitiba. Formada em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e Jornalismo pela Fundação Cásper Líbero. Atua como publicitária. Escreveu os seguintes livros de poemas: Ruelas profanas (1999), Meio-fio (2003), Sopro de vitrines (2010), Refrão da fuligem (2013), Bocas de lobo (2015), O pão (2017), Alla prima (2019) e Quando chegam os tártaros? (2023). Com Rubens Jardim, organizou a coletânea MedioCridade. O professor e crítico literário Alexandre Bonafim organizou uma antologia de seus poemas, intitulada Escrever como as águias, publicada em 2025 pela editora Cavalo Azul. Em estudo introdutório, considera que “a metrópole constitui, na poesia de Rosana Piccolo, um verdadeiro laboratório do sensível. Ela se apresenta como forma de percepção e como gramática da experiência contemporânea. Suas ruas, viadutos, postes e antenas configuram um organismo pulsante no qual o corpo humano se funde à maquinaria do mundo. Em seus poemas, o espaço urbano assume o papel de matéria viva e cambiante, onde as forças de criação e destruição coexistem em permanente atrito. A cidade é vivida de dentro, como um campo de fricção entre a matéria e a consciência. Por isso, a poesia transforma o cotidiano em um lugar de assombro, revelando nas texturas do asfalto e nas luzes elétricas a presença de algo que ultrapassa a superfície dos acontecimentos. Cada imagem urbana – um reflexo, um ruído, um muro coberto de anúncios – carrega uma tensão metafísica: o instante em que o sensível se converte em pensamento”.





