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Ilustração: @joaoarte, 2026
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Carlos Busón Buesa em Projeto Ensaios Doutor em Comunicação pela UNED e geólogo pela Universidade Complutense de Madri. E-mail: carlos.buson@ufms.br | Publicado em 5 de setembro de 2026

Carlos Busón Buesa
Doutor em Comunicação pela UNED e geólogo pela Universidade Complutense de Madri. E-mail: carlos.buson@ufms.br
05/09/2026 em Projeto Ensaios

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O fim do outro entre o toque das telas

[Coautor: Weiny César Freitas Pinto[1]]

Há uma solidão nova no mundo contemporâneo. Ela não nasce apenas da ausência física nem da falta de companhia em sentido imediato. Nasce de algo mais sutil e talvez mais inquietante. Hoje estamos rodeados de mensagens, imagens, vozes, notificações e promessas de conexão permanente. Uma conexão de telas e de agentes de inteligência artificial que prometem satisfazer qualquer desejo. Vivemos em um mundo conectado e, ao mesmo tempo, profundamente desconectado do outro, nosso semelhante.

Essa abundância de conexão já não garante encontro. Em um mundo de infinitas opções, nenhuma parece suficiente. Pelo contrário, muitas vezes a aceleração digital transforma o outro em uma aparição fugaz, em um perfil administrável que podemos silenciar ou ignorar, assim como também somos ignorados, em uma presença filtrada por sistemas que decidem quem nos alcança, o que vemos, e por quanto tempo algo ou alguém permanece diante de nós e nós, diante dos outros. É um mundo de telas efêmeras, mergulhado em uma torrente de vazio permanente. Como diria Bauman (2003), um mundo líquido, que escorre entre nossos dedos.

A grande promessa das plataformas digitais foi a de aproximar as pessoas. Foi isso que nos disseram. Foi isso que nos prometeram. Durante anos venderam a ideia de que a técnica resolveria a distância, venceria o isolamento e ampliaria a experiência humana. Prometeram que a tecnologia traria um mundo melhor. Buscamos essa perfeição sem perceber as nossas próprias imperfeições. O diálogo, por exemplo, que deveria construir, reduz-se muitas vezes a emojis em uma tela sem fim.

O que se vê, portanto, é uma dura contradição. Nunca tivemos tantas formas de contato e, ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil descartar, silenciar, esquecer ou substituir alguém com um gesto mínimo. A conexão aumentou. O encontro foi enfraquecido. Esse deslocamento talvez seja um dos traços mais profundos do nosso tempo. A tela não apenas medeia o vínculo. Ela o reorganiza. Entre um rosto e outro, entre uma palavra e outra, entre uma espera e outra, instalou-se uma lógica que valoriza velocidade, previsibilidade, repetição e conforto. O outro já não aparece em sua opacidade viva, em sua diferença, em sua força de interpelação. Aparece cada vez mais domesticado por algoritmos que nos mostram aquilo que tende a confirmar nossos gostos, nossos hábitos e nossas zonas de reconhecimento. A alteridade, que sempre foi difícil, torna-se ainda mais frágil quando o mundo social passa a ser filtrado por sistemas que priorizam afinidade, retenção e engajamento. O outro exige cuidado e, sobretudo, atenção. Exige um olhar sincero, um olhar sem a tela como mediação permanente.

Aqui reside um ponto decisivo. O fim do outro não significa sua eliminação material. Não se trata de um desaparecimento literal. Trata-se de uma erosão mais discreta. O outro continua existindo, mas pesa menos. Sua presença perde espessura. Sua singularidade é reduzida a dado, imagem, opinião, emoji e fluxo. O que desaparece não é o corpo em si, mas a experiência ética do encontro com alguém, que não cabe em meu cálculo, em meu consumo, nem em meu reflexo.

Essa questão não é apenas tecnológica, mas humana. Buber (2005), Lévinas (2012) e Simone Weil (2007) já haviam mostrado que a vida comum depende da capacidade de sustentar a presença do outro sem reduzi-lo a objeto. Em Buber (2005), toda vida verdadeira é encontro. Em Lévinas (2012), o rosto do outro interrompe a soberania do eu e revela uma responsabilidade que nasce da vulnerabilidade. Em Weil (2007), a atenção é uma forma radical de justiça, porque olhar verdadeiramente alguém exige sair do próprio centro. O drama contemporâneo é que a mediação algorítmica e o simulacro digital enfraquecem justamente essas experiências. Já não olhamos. Consumimos sinais. Já não esperamos. Atualizamos feeds. Já não suportamos a densidade do outro. Preferimos versões rápidas, limpas e previsíveis da relação. Por isso, defender o real e o outro encarnado torna-se um gesto ético radical. Nenhuma interface, por mais sofisticada que seja, pode substituir a imprevisibilidade do encontro cara a cara, a reciprocidade do eu-tu, a interpelação do rosto ou o olhar atento que deixa o outro existir como fim e não como dado. O real, nesse sentido, é aquilo que resiste ao cálculo, ao filtro da afinidade e à lógica do descarte. Reivindicar a presença viva do outro implica recuperar tempos e espaços sem telas, reconstruir rituais de diálogo direto e aprender a sustentar um olhar que não consome, mas reconhece. Sem alteridade real, não há humanidade possível, apenas o reflexo vazio de um eu encerrado no próprio simulacro.

É por isso que a chamada “companhia algorítmica” precisa ser lida com desconfiança. Nos últimos anos, grandes empresas de tecnologia começaram a sugerir que sistemas automáticos poderão oferecer companhia emocional, diálogo constante e até uma espécie de amizade personalizada. O problema dessa promessa não está apenas em sua ambição técnica. Está no modelo de humanidade que ela pressupõe. Se a solidão vira problema de design, a resposta já não é uma comunidade mais justa, um tempo mais humano ou um vínculo mais verdadeiro. A resposta passa a ser uma interface eficiente, treinada para reagir, confortar e permanecer disponível. O sofrimento deixa de ser uma questão ética e social para se tornar nicho de mercado. Isso não resolve a solidão. Apenas a administra.

Talvez, o perigo maior esteja justamente aí. Quando a técnica oferece uma simulação suficientemente funcional da escuta, do cuidado e da presença, o que se perde não é só uma relação específica. Perde-se a exigência de reciprocidade que define o vínculo humano. Um sistema pode responder, pode até parecer atento. É capaz de aprender nossos padrões e devolver frases adequadas. Mas não pode sofrer conosco, nem resistir a nós como um outro real. Não há risco, não há alteridade, não há imprevisibilidade verdadeira nessa relação. Há apenas o espelho refinado de uma máquina treinada para manter a nossa atenção.

Nesse cenário, a crise das humanidades/ciências humanas torna-se ainda mais grave. Durante muito tempo, esses saberes foram tratados como luxos frágeis diante da eficiência técnica e da lógica da utilidade imediata. No entanto, são justamente as humanidades que guardam a memória crítica daquilo que se perde quando o outro desaparece do horizonte moral. Elas não servem apenas para interpretar textos antigos ou defender tradições abstratas. Servem para lembrar que uma sociedade pode se modernizar e, ao mesmo tempo, atrofiar sua capacidade de presença. Servem para mostrar que nem toda comunicação produz laço, que nem toda visibilidade gera reconhecimento e que nem toda inovação amplia a condição humana.

Por isso, pensar o efeito das telas sobre a experiência do outro não é um tema secundário. É uma questão central para a vida comum. Se o outro se transforma apenas em fluxo, recomendação e imagem customizada, a própria ideia de comunidade começa a se desmanchar. Sem alteridade, resta o circuito fechado do eu com seus reflexos. Sem encontro, a conexão torna-se rotina vazia. Sem atenção verdadeira, até a companhia pode virar miragem.

O mais inquietante de tudo isso é que essa transformação ocorre sem ruído. Não há ruptura espetacular. Não há um anúncio formal do desaparecimento do outro. Há algo mais silencioso. A naturalização do descarte. A aceitação da indiferença. A substituição da espera pelo scroll. A troca da escuta pela resposta automática. O outro não some de uma vez. Vai ficando cada vez mais leve, cada vez mais consumível, cada vez mais fácil de ignorar.

É por isso que resistir hoje exige reaprender a atenção. Reaprender a presença. Reaprender uma linguagem que não trate o outro como extensão dos nossos desejos, nem como obstáculo a ser filtrado. Num tempo em que quase tudo convida à aceleração, talvez o gesto mais radical seja justamente este, devolver peso ao outro. Não ao outro abstrato, mas ao rosto concreto, à voz que não controlamos, à vida que nos interrompe, ao sofrimento que não pode ser convertido em dado, à diferença que não cabe em algoritmo.

Defender o outro, hoje, é também defender a possibilidade de um mundo que não esteja inteiramente submetido à lógica da previsão, da monetização e do espelho. E isso começa quando reconhecemos que a conexão, por si só, não basta. É preciso algo mais difícil e mais humano. É preciso presença.

Referências

BAUMAN, Z. Modernidad líquida. Fondo de Cultura Económica, 2003.

BUBER, M. Yo y tú. Caparrós, 2005.

LÉVINAS, E. Totalidad e infinito. Ensayo sobre la exterioridad. Sígueme, 2012.

Weil, S. La gravedad y la gracia. Trotta, 2007.

[Revisão de Khadija de Oliveira Moreira e Maria Eduarda Rodrigues. Revisão final e edição de Rosângela Chaves]


[1] Bolsista produtividade em Pesquisa Fundect/CNPq. Professor do curso de Filosofia e dos Programas de Pós-graduação em Filosofia e Psicologia da UFMS. E-mail: weiny.freitas@ufms.br

O artigo é o sexto da nona edição do Projeto Ensaios, um projeto de divulgação filosófica coordenado pelo professor Weiny César Freitas Pinto, do curso de Filosofia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em parceria com o site Ermira Cultura, que visa colocar em diálogo a produção acadêmica com a opinião pública por meio da publicação de ensaios. Até o dia 26 de dezembro, sempre aos sábados, serão publicados em Ermira textos de estudantes, pesquisadores e professores de diversos lugares do país, envolvendo diversas áreas do conhecimento, em diálogo com a filosofia. Confira os outros textos publicados nesta edição:

  1. O romance familiar no mito de Perseu,  de Ana Tércia Rosa Alves e Weiny César Freitas Pinto.
  2. Educação como mercadoria? Ciências Humanas em tempos de metodologia Steam,  de Bruna Mariane Gomes de Camargo, Juarez Moreno de Camargo e Silva e Pedro Damasceno Uchôas.
  3. Dizer ‘não’ é um direito? A diferença entre seguir a consciência e protestar, de Gabriel Filipe Rosa Alves e Tiago Koutchin.
  4. Sobre o direito de ir e vir, como mulher | ERMIRA, de Maria Clara de Freitas Barcelos e Maíra de Souza Borba.
  5. Quando o desejo silencia: apagamento de si e suicídio entre universitários, de Tayna Schoeffel Rodrigues, Beatriz Gomes Cruz e Natasha Garcia Coelho.

Tag's: internet, redes sociais, solidão, tecnologia

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