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Foto: Divulgação
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Rosângela Chaves em Miradas Jornalista, doutora em Filosofia pela UFG e editora de Ermira Cultura | Publicado em 6 de setembro de 2026

Rosângela Chaves
Jornalista, doutora em Filosofia pela UFG e editora de Ermira Cultura
06/09/2026 em Miradas

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O rosto de Agamêmnon

No filme A Odisseia, de Christopher Nolan, praticamente não vemos o rosto de Agamêmnon, o poderoso rei de Micenas que lidera o ataque dos exércitos gregos contra a cidade de Troia. Interpretada por Benny Safdie, a personagem sempre surge com um imponente elmo que cobre inteiramente a sua face, oculta dos espectadores mesmo quando o protagonista Odisseu (Matt Damon) encontra a alma do monarca no Hades. Conforme muitos críticos apontaram, essa opção estética do diretor foi uma forma de realçar a própria engrenagem implacável da guerra, em seu desprezo absoluto pela vida humana.  O Agamêmnon de Nolan seria, assim, uma espécie de Darth Vader da Idade do Bronze.

 Em todo o longa-metragem, o rosto do tirano aparece apenas de relance quando o jovem Telêmaco (Tom Holland), filho de Odisseu, escuta o relato de seu assassinato. Ao voltar para casa depois da vitória e do massacre de Troia, Agamêmnon é esfaqueado por sua esposa Clitemnestra (Lupita Nyong’o), em vingança pelo sacrifício da filha do casal, Ifigênia. É somente no momento da morte, portanto, que ele adquire alguma humanidade nessa leitura hollywoodiana da Odisseia. Não se trata, aqui, de criticar as escolhas do diretor, já que toda adaptação cinematográfica de um clássico literário envolve inevitavelmente simplificações e supressões. Mas é justamente a dimensão humana desse herói homérico –  e não a sua redução a uma alegoria da guerra – que o torna tão complexo e perturbador, a exemplo do que mostra uma interpretação da filósofa Martha C. Nussbaum da tragédia Agamêmnon, de Ésquilo, a primeira da sua trilogia Oréstia.

No livro A fragilidade da bondade – Fortuna e ética na tragédia e na filosofia grega, Martha Nussbaum observa que, a princípio, a história de Agamêmnon, da maneira como é narrada por Ésquilo, aproxima-se do drama bíblico de Abraão, ordenado por Deus a sacrificar o próprio filho, Isaac, para provar a sua fé. Como Abraão, o rei grego também se vê diante de um comando divino: ele deve imolar a filha Ifigênia para a aplacar a fúria de Ártemis e prosseguir na viagem com seus navios com destino a Troia. A cólera da deusa – que na tragédia de Ésquilo não é explicada claramente, mas em outras versões do mito ora é atribuída a uma ofensa anterior de Agamêmnon a Ártemis, ora a um crime cometido por seu pai, Atreu – tinha imposto uma persistente calmaria de ventos que paralisara a expedição no meio da viagem. Consternado, Agamêmnon recebe por intermédio do adivinho Calcas a terrível ordem do Olimpo. Se não a obedecer, todos os seus homens, que já enfrentam escassez de víveres, morrerão em pleno mar. E ele se verá na deplorável condição de desertor, fugindo às suas responsabilidades como comandante supremo das forças gregas contra os troianos.

Martha Nussbaum salienta que não importa qual seja a escolha do herói, já que, nessa situação, ele não estará isento de culpa. E o próprio Agamêmnon, diante do terrível dilema de sacrificar a filha ou ver seus soldados perecerem, expressa esse entendimento: “Opressiva perdição é a desobediência, mas opressivo, também, será entregar minha própria filha, o adorno da minha casa, poluindo as mãos de um pai com torrentes do sangue da donzela abatida junto ao altar. Qual dessas duas coisas é desprovida de males? Acaso devo tornar-me um desertor, descumprindo meu dever para com a coalizão?”, lamenta, entre a cólera e a dor. Até esse momento, o herói se vê dilacerado entre o amor paterno e o dever de acatar os desígnios divinos, a fim de cumprir seu papel como líder dos exércitos gregos – e sua deplorável condição chega a comover o Coro na tragédia de Ésquilo, que sempre atua como uma forma de consciência moral. Mas logo em seguida há uma mudança na atitude de Agamêmnon que o torna profundamente abominável.  Já não é mais o homem pio constrangido pelos caprichos de uma deusa a cometer com horror e relutância uma atrocidade, à semelhança de Abraão, e consciente que a culpa por esse crime assombrará o resto dos seus dias. O rei de Micenas não apenas decide sacrificar Ifigênia, mas passa a desejar fazê-lo com todas as suas forças, com uma paixão extremamente fervorosa: ele sufoca o pai dentro de si para transformar-se no furioso e implacável carrasco da própria filha.

Surdo aos lamentos e às exclamações de pavor de Ifigênia, Agamêmnon passa, então, a tratá-la como um animal a ser abatido. Ordena a seus assistentes que a ergam “tal como uma cabra” e que lhe coloquem uma mordaça, “para que ela não profira imprecações de mau augúrio”, como descreve o texto de Ésquilo. “Jamais, na narração do Coro e na sequência, ouvimos o rei proferir uma palavra de pesar ou dolorosa lembrança”, comenta Martha Nussbaum sobre a ausência de compaixão de Agamêmnon, a qual revela, na verdade, um homem tomado por uma desmedida ambição pelo poder e por um orgulho colossal.  O horror do sacrifício de Ifigênia – que inaugura toda a carnificina de Troia – intensifica-se com o espetáculo do sinistro entusiasmo com que o seu pai executa essa abominável ação, sem demonstrar nenhuma hesitação, tomando como sua a vontade sempre insondável dos deuses. Na verdade, ele comporta-se como se fosse um deus, senhor da vida e da morte, e essa desmesura, essa hybris,  aprofunda mais a sua culpa.

O sacrifício de Ifigênia, como se sabe, também desencadeia uma série de violências intrafamiliares, a começar pelo assassinato de Agamêmnon na volta a Micenas, perpetrado por Clitemnestra, com o auxílio do seu amante Egisto. Na sequência, para vingar a perda do pai, Orestes tira a vida da própria mãe e de seu comparsa. Como punição, é acometido de loucura pelas Erínias, potências que castigam os crimes de sangue. Sua condição desperta a piedade do deus Apolo, que considera que o filho de Agamêmnon agira legitimamente ao matar os assassinos do pai. O conflito entre as Erínias e Apolo leva  Atenas a instalar um tribunal no Aerópago para julgar Orestes pelo matricídio. Diante do empate dos 12 magistrados humanos entre as alternativas de perdoar Orestes ou confirmar a sua pena imposta pelas Erínias, a deusa profere o famoso “voto de Minerva”, proclamando que não levaria em consideração o assassinato de uma mulher, que matou o esposo, “guardião do seu lar”. Orestes é assim absolvido, segundo a narração de Ésquilo nas Eumênides, a tragédia que fecha a sua trilogia Oréstia.

A decisão de Atenas, portanto, considerou que a vida de Agamêmnon valia mais do que a de Clitemnestra. Mas o “guardião do lar” que ela enaltece na sua decisão não era apenas o pai impiedoso que sacrificara de forma tão brutal a inocente Ifigênia – o rei de Micenas também foi o homem que trucidou o primeiro marido de Climtemnestra e o seu filho recém-nascido; após esse ato de extrema violência, ainda sequestrou-a e a obrigou a se casar com ele. No entanto, a mulher que não se conformou com o assassinato da filha, que ousou punir o poderoso e assassino monarca, se foi castigada sem piedade pelo patriarcado tanto na vida quanto na morte, pelo menos, com o seu sacrifício, levou os deuses a reconsiderar os seus caprichos e a instaurar uma instituição humana coletiva – a Justiça – destinada a impedir que o sangue derramado continuasse a exigir sempre mais sangue.

Tag's: A Odisseia, Christopher Nolan, cinema, mitologia grega

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