[Coautor: Jeferson Camargo Taborda[1]]
Quantas psicólogas travestis negras você já conheceu? Em minhas andanças entre Minas Gerais e Mato Grosso do Sul, deparei-me com encontros, tensões e solidões que atravessam a existência travesti negra em espaços historicamente ocupados pela branquitude e pela cisheteronormatividade. Além disso, como psicóloga, experiencio que minha presença se faz desobediente em lugares como a clínica, o hospital e a academia, cujos regimes de saber e poder foram moldados para excluir ou silenciar corpos dissidentes como o meu. Em face dessa essa solidão, foram as coletividades e as margens que me ofereceram novas possibilidades de cuidado e existência. Dentre essas, quero destacar aqui a cultura ballroom e as coletivas organizadas por pessoas trans, as quais não se tornaram apenas espaços de resistência, mas também de produção de vida.
A cultura dos ballrooms, nascida entre as comunidades negras e LGBT+ no início do século XX e consolidada em Nova York nos anos 1970, ultrapassou as fronteiras do entretenimento. Embora marcada por competições performativas, seu verdadeiro valor está na criação de vínculos afetivos, na oferta de suporte emocional e na formação de redes de solidariedade que garantem a sobrevivência e a dignidade de pessoas que desafiam normas de gênero, raça e sexualidade. No Brasil, e especialmente em Mato Grosso do Sul, essa prática foi incorporada de forma potente, por meio de coletivos e casas de acolhimento que não só organizam eventos, mas também articulam ações políticas, educativas e de cuidado à saúde.
A necessidade de tudo isso não é difícil de entender. Nos últimos anos, testemunhamos o avanço de discursos e práticas extremamente violentas contra pessoas trans, tanto nos espaços tradicionais quanto nas redes sociais e na política institucional, que se tornaram um terreno fértil para sua propagação. O Brasil é o país que lidera os índices de violência contra nossa população, sendo Campo Grande considerada a sexta capital mais violenta para pessoas LGBT+ (Grupo Gay da Bahia, 2023). O Mato Grosso do Sul expressa essa realidade em casos como os ataques transfóbicos contra a professora e artista Emy Mateus dos Santos, impulsionados por políticos locais (Santos, 2025) e em outros casos recentes como a tortura de uma mulher trans marcada com uma suástica nazista e o assassinato de outra mulher trans baleada após uma abordagem policial (Ricalde; Garnes, 2026). Tais episódios, longe de serem isolados, compõem um cenário sistemático de violência e exclusão.
Mesmo diante dessas investidas, as articulações coletivas em Mato Grosso do Sul têm se fortalecido. Por meio de coletivas como a DeTransPraFrente e da expansão da cultura ballroom no estado, resistimos criando espaços de convivência e cuidado, onde nossas existências são exaltadas e celebradas. A música, a performance e a palavra se tornam ferramentas políticas e espirituais, capazes de oferecer bálsamos para as dores impostas pela sociedade atual, especialmente pela cisheteronormatividade. Nesses espaços, reforçamos a certeza de que a vida travesti é plural e potente, ancorada na ancestralidade e na solidariedade entre as nossas.
Essa perspectiva nos convida a pensar nossos corpos como territórios de luta e resistência. A noção de corpo-território, com raízes em epistemologias indígenas e ecofeministas latino-americanas, reconhece o corpo como o primeiro espaço de disputa contra as opressões coloniais, raciais e cisgênero-centradas (Miranda, 2020). Mais do que recipientes de violência, nossos corpos narram histórias, guardam memórias e denunciam as materialidades das exclusões que insistem em nos atravessar. No contexto pantaneiro, o corpo e o discurso, isto é, essas corp/oralidades criam e ocupam territórios subjetivos e coletivos, que escapam das normativas e produzem outros modos de existência.
A cultura ballroom, desde sua origem, esteve atrelada a estratégias de sobrevivência diante da necropolítica que insiste em negar uma existência digna àqueles que habitam as margens da normatividade. Ao participar de minhas primeiras balls, em 2025, percebi como ali se cultivava uma ética do cuidado e do acolhimento que não apenas reconhecia nossas feridas, mas também celebrava nossas potências e singularidades. Durante os eventos, categorias como “realidade” e “face” valorizam a performatividade e a materialidade das vidas dissidentes, premiando não a adequação a padrões hegemônicos, mas a coragem de existir e ocupar espaço com dignidade e orgulho. Nesse contexto, a performance se torna uma denúncia da fragilidade das concepções binárias de gênero e, ao mesmo tempo, uma afirmação de identidades que desafiam esses limites, fazendo da impossibilidade de adequação uma chave de resistência e de produção de novas formas de existir.
Para investigar essas dinâmicas, é fundamental recorrer a metodologias que contemplem as especificidades de nossos processos identitários e epistemológicos. Em minha pesquisa de mestrado em andamento, adoto a escrevivência como estratégia de escrita engajada com a vida, permitindo que experiências individuais e coletivas se convertam em conhecimento legítimo.
Ao escrever a partir de minhas vivências e das narrativas de minhas companheiras, proponho deslocar o olhar da academia e da psicologia tradicionais para epistemologias forjadas nas ruas, nas balls e nas coletivas travestis, compreendendo que esses espaços não são fixos ou estáticos, mas fissuras que rompem a rigidez dos tempos e dos territórios instituídos, movimentos constantes que fabricam novos mundos onde corpos dissidentes podem não apenas sobreviver, mas viver com dignidade e alegria. Aliando aportes das epistemologias decoloniais e das filosofias da diferença, reconheço que o saber produzido nesses territórios é sempre localizado, material e afetivo, tornando possível afirmar as tecnologias travestis como formas legítimas de cuidado, política e produção de existência.
Referências
COLETIVA DE TRANS PRA FRENTE. Site oficial. 2025. Disponível em: https://www.coletivadetransprafrente.com.br. Acesso em: 23 jun. 2025.
GRUPO GAY DA BAHIA. Observatório de mortes violentas de LGBT+ no Brasil – 2023. Salvador: Grupo Gay da Bahia, 2023. Disponível em: https://www.ggb.org.br. Acesso em: 19 jun. 2025.
MIRANDA, Eduardo Oliveira. Corpo-território & educação decolonial: proposições afro-brasileiras na invenção da docência. Salvador: EDUFBA, 2020. Disponível em: https://repositorio.ufba.br/handle/ri/32375. Acesso em: 21 jun. 2025.
RICALDE; GARNES. Polícia investiga tortura após mulher trans ser espancada e marcada com suástica nazista em MS. G1 Mato Grosso do Sul, 15 mar. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/ms/mato-grosso-do-sul/noticia/2026/03/15/policia-investiga-tortura-apos-mulher-trans-ser-espancada-e-marcada-com-suastica-nazista-em-ms.ghtml. Acesso em: 16 abr. 2026.
SANTOS, A. Professora trans usa fantasia de Barbie em escola e vira alvo de políticos. Campo Grande News, Campo Grande, 12 fev. 2025. Disponível em: https://www.campograndenews.com.br/cidades/capital/professora-trans-usa-fantasia-de-barbie-em-escola-e-vira-alvo-de-politicos. Acesso em: 19 jun. 2025.
SANTOS, H. C. A transnacionalização da cultura dos Ballrooms. 2018. 180 f. Dissertação (Mestrado em Linguística Aplicada) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2018.
SULURICO, W. Byxagogias cênicas y identitárias: tecnologia travesty confeccionada na cultura ballroom – runway y realness. In: ENCONTRO DE PESQUISAS EM ANDAMENTO, v. 6., 2024, Uberlândia. Anais […]. Uberlândia: UFU, 2024.
[Revisão de Maria Eduarda Rodrigues e Khadija de Oliveira Moreira. Revisão final e edição de Rosângela Chaves]
[1] Mestre em Psicologia da Saúde e doutor em Psicologia da Saúde pela UCDB. Mestre em Antropologia pela Universidade Federal da Grande Dourados e professor adjunto da UFMS. E-mail: jeferson.taborda@ufms.br
O artigo é o sétimo da nona edição do Projeto Ensaios, um projeto de divulgação filosófica coordenado pelo professor Weiny César Freitas Pinto, do curso de Filosofia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em parceria com o site Ermira Cultura, que visa colocar em diálogo a produção acadêmica com a opinião pública por meio da publicação de ensaios. Até o dia 26 de dezembro, sempre aos sábados, serão publicados em Ermira textos de estudantes, pesquisadores e professores de diversos lugares do país, envolvendo diversas áreas do conhecimento, em diálogo com a filosofia. Confira os outros textos publicados nesta edição:
- O romance familiar no mito de Perseu, de Ana Tércia Rosa Alves e Weiny César Freitas Pinto.
- Educação como mercadoria? Ciências Humanas em tempos de metodologia Steam, de Bruna Mariane Gomes de Camargo, Juarez Moreno de Camargo e Silva e Pedro Damasceno Uchôas.
- Dizer ‘não’ é um direito? A diferença entre seguir a consciência e protestar, de Gabriel Filipe Rosa Alves e Tiago Koutchin.
- Sobre o direito de ir e vir, como mulher, de Maria Clara de Freitas Barcelos e Maíra de Souza Borba.
- Quando o desejo silencia: apagamento de si e suicídio entre universitários, de Tayna Schoeffel Rodrigues, Beatriz Gomes Cruz e Natasha Garcia Coelho.
- O fim do outro entre o toque das telas , de Carlos Busón Buesa e Weiny César Freitas Pinto.




