Em meu último livro, O céu nos ilumina, mas é na terra que vivemos, procurei mostrar que diante da vida costumamos assumir três posturas: a idealista, a pessimista e a realista. Esta última é a mais difícil delas, ou talvez, a menos natural de ser assumida.
Eu também observei no livro que geralmente nós assumimos essas posturas na relação conosco mesmos, com os outros, com a sociedade e a política. No caso de quem é religioso, também na relação com Deus.
Neste artigo, quero tratar dessas três posturas no âmbito da vida social e política. Coincidentemente, aqui no Brasil, no momento em que este artigo está sendo escrito, estamos atravessando mais um período eleitoral. Sendo assim, creio que este tempo é bastante oportuno (kairos) para observarmos como essas posturas se revelam na maneira como as pessoas se relacionam com seus candidatos, com os partidos políticos e suas respectivas ideologias e convicções.
Antes de seguir, preciso fazer uma ressalva necessária a você, meu caro leitor e minha cara leitora. Os termos idealista, pessimista e realista não são empregados aqui no sentido de personalidade de uma determinada pessoa. Também não se trata de três caixas que separam quem sonha, quem reclama e quem enxerga a realidade. Ora! O realista também sonha. O pessimista, muitas vezes, faz críticas corretas. E o idealista, por sua vez, pode estar defendendo valores importantes. O que separa as três posturas não é o que se deseja, mas como cada um se relaciona com a distância entre o que se deseja e o que existe de fato.
Buguei sua mente? Acredito que não.
Se eu tivesse que resumir essas três posturas numa única frase, diria o seguinte: o idealista mede a realidade pelo que ela deveria ser e esquece de olhar para o que ela de fato é. Dessa forma, ele acaba perdendo de vista a terra, de tanto olhar para o céu. O pessimista também parte do que a realidade deveria ser; só que, ao concluir que essa perfeição plena não é possível, passa a enxergar tudo pelo avesso, como aquilo que não deveria ser, um desvio permanente em relação ao ideal que não se cumpriu. Já o realista procura olhar as coisas como elas são, em sua inteireza. Ele faz isso não para se conformar ou ficar resignado diante delas, mas justamente para viver de um jeito mais funcional, lidando melhor com as ambiguidades próprias da condição humana.
Também é importante dizer que essas três posturas não correspondem necessariamente a posições ideológicas. Podemos encontrar idealistas, pessimistas e realistas à esquerda, à direita ou ao centro. O que está em jogo aqui não é qual ideologia uma pessoa defende, mas a postura que assume diante dela e da própria realidade política.
Quero deixar isso claro desde já: analisar as posturas dos eleitores não significa isentar os políticos de suas responsabilidades, indecências ou manipulações. Como veremos mais adiante, boa parte da estratégia eleitoral se alimenta exatamente dessas posturas. O que proponho aqui é outro ângulo de análise, o do eleitor, sem que isso substitua ou minimize a crítica que se deve fazer aos próprios políticos.
Postura eleitoral idealista
Vale destacar que no âmbito da política uma postura idealista se mostra a partir de várias nuances. Em outras palavras, essa postura aparece de formas diferentes, de modo que nem toda pessoa idealista assume todas elas ao mesmo tempo. Vamos ver algumas dessas nuances.
Algumas pessoas acreditam piamente na pureza ou perfeição de suas ideologias e convicções políticas. O problema não está no fato de as pessoas terem essas ideologias e convicções, mas em quererem implantá-las de forma exclusiva, isto é, eliminando o espaço para a existência de ideias contrárias, visando assim criar um modelo uniforme de sociedade, no qual a diversidade de opinião deixa de ser um dado da vida em comum e passa a ser vista como obstáculo.
As pessoas que assumem essa nuance da postura idealista não só acreditam que é possível criar um modelo de sociedade sem contradições e ambiguidades, mas também lutam de diversas formas para que tal modelo seja implantado. Para tanto, geralmente o caminho encontrado passa pela projeção de suas ideologias e convicções puras e cristalinas (para não dizer simplistas) em determinados personagens políticos. Dessa forma, aquele personagem deixa de ser visto apenas como uma opção de candidatura em meio às outras, e passa a ser idealizado como o salvador da pátria. O único herói capaz de colocar a casa em ordem e fazer com que as coisas funcionem perfeitamente da forma como deveriam funcionar. A história mostra que este tipo de postura idealista costuma ser perigosa em seus resultados.
Outra forma de ser idealista na política é não aceitar que suas ideias e convicções sejam contestadas ou que seu político seja criticado. É nesse contexto que surgem muitas brigas violentas. Isso porque, quando as pessoas têm suas ideologias questionadas, é como se tivessem a própria dignidade arranhada.
Esse tipo de idealista não é tão perigoso quanto o anterior. Ainda assim, pode provocar violência. Não pela intenção de impor um modelo à força, mas pela inflexibilidade na defesa das próprias ideias, que transforma qualquer discordância numa ofensa pessoal.
No fundo, é o sonho de um mundo sem contradições: políticos honestos o tempo inteiro, instituições sempre coerentes, lideranças sem interesse próprio. Um mundo que a condição humana simplesmente não oferece.
Há também aquele tipo de idealista paralisado: aquele que está sempre à espera do candidato ideal, do momento político perfeito para finalmente se engajar. Adia o voto, adia a militância, adia a própria participação, porém está sempre à espera de uma pureza política que, convenhamos, dificilmente vai aparecer. Enquanto isso, a vida política segue sem ele.
Em suma: a postura idealista em suas diversas nuances pode não ser a única ou principal causa das polarizações políticas que se instauram em diversos países. Todavia, vale destacar que tal postura é um adubo muito potente para fortalecer tais polarizações. Isso porque o idealista tende a enxergar o campo político apenas de forma binária. De um lado está o bem, do outro lado, está o mal. Quando isso acontece, qualquer defeito do próprio lado passa a ser minimizado ou justificado, enquanto qualquer qualidade do adversário passa a ser ignorada ou desconfiada. Em contextos assim, a crítica deixa de ser vista como parte legítima do debate e passa a soar como ataque, como sinal de que quem discorda está, na verdade, do outro lado da linha que separa o certo do errado. É assim que um desacordo político, que poderia ser apenas isso, um desacordo, vai se transformando aos poucos em inimizade.
E é também aí que mora boa parte da estratégia eleitoral.
Ora, pensemos juntos. Promessas mirabolantes e discursos rasos não funcionam por acaso: eles encontram terreno fértil porque existe, do lado de quem ouve, um desejo de acreditar que alguém é capaz de resolver, sozinho e rapidamente, todos os problemas que levaram décadas para se formar. Por isso não basta perguntar por que certos candidatos prometem o impossível. É preciso fazer outra pergunta: por que muitos eleitores acreditam que o impossível pode se tornar possível? O curioso é que muitos deles não só acreditam, mas sonham e esperam por isso.
Postura eleitoral pessimista
Assim como a postura idealista, a pessimista também se revela em mais de uma forma. Eu acredito que ninguém nasce pessimista. Geralmente a pessoa chega ao pessimismo depois de ter acreditado e esperado demais e se frustrado no caminho. Vou destacar aqui três dessas formas.
1ª O pessimista frustrado e/ou resignado. É aquele que lutou por uma sociedade melhor, participou, votou, esperou mudança, porém a transformação não veio como ele idealizava. Diante disso, aquela decepção que antes estava ligada a um governo ou a um candidato específico vai se espalhando aos poucos até virar uma sentença geral e quase absoluta na cabeça dessa pessoa: “político é tudo igual”, “nenhum presta”, “nada muda”, “não adianta votar”. Ou seja, aquilo que começou como crítica pontual a alguém vira desistência de tudo. Dessa forma, o indivíduo passa a assumir uma postura resignada: ele não age mais, mas também não defende que se destrua o que existe, simplesmente se afasta.
2ª O pessimista defensivo. Aqui não é bem descrença, é blindagem. É o tipo de eleitor que diz: “por isso eu não voto, para depois ninguém me jogar na cara que eu contribuí para que tal coisa acontecesse.” Chamo essa postura, em meu livro, de pessimismo defensivo: a pessoa só age se tiver a garantia absoluta de que tudo vai dar certo. Ela espera a garantia de que seu voto não vai resultar em nada de errado que a faça se arrepender de ter votado ou ser cobrada depois. Como essa garantia nunca existe, não age. Nesse caso, não vota. Lembro sempre também da cena de Pilatos no julgamento de Jesus. Ele tinha diante de si uma decisão bastante ambígua, na qual qualquer caminho, condenar ou libertar, traria consequências. Diante disso, achou mais seguro lavar as mãos. Mas não escolher também foi uma escolha; lavar as mãos não eliminou as consequências. Existe um conforto real em se retirar do meio social e político. Porque participar cansa e envolver-se decepciona. De modo que agir é sempre correr o risco de errar. Mas esse conforto de não agir tem um preço.
3ª O pessimista radical. Eu considero o passo mais extremo de uma postura pessimista em relação à vida social e política. Porque, nesse nível, a descrença já não mira um governo ou um partido, mas a própria possibilidade da política. Não é mais “esse político é ruim”. Mais que isso. O lema é: “nada presta”, “a humanidade não tem jeito”, “não vale a pena participar”. Aqui está a diferença que separa o radical do frustrado. Enquanto o frustrado se resigna e se afasta em silêncio, o radical age, ou, pelo menos, defende escancaradamente a quebra ou a derrubada de tudo o que está posto. Um se cala; o outro prega o fim. Muitas vezes essa postura nasce de uma crítica que começou correta em reconhecer problemas reais da sociedade, mas que aos poucos foi se transformando em desistência completa da própria ideia de política. Continua existindo, por trás dela, a mesma expectativa silenciosa do idealista: uma sociedade sem conflitos, pessoas sem contradições. Quando essa perfeição parece impossível, resta apostar no nada.
Há um ponto que considero central e que não pode ficar de fora deste artigo: essas duas posturas não são independentes. O idealismo frustrado é, com frequência, a porta de entrada para o pessimismo. Diante do choque entre o sonho e a realidade, algumas pessoas amadurecem a forma como enxergam a política. Mas, outras simplesmente desistem dela. O pessimista, nesse sentido, é muitas vezes um idealista ferido, ou então, alguém que só deixou de acreditar depois de ter acreditado demais.
Postura eleitoral realista
A postura realista, confesso, é a mais difícil de assumir e talvez por isso seja também a que exige mais nuances para ser bem compreendida. Vou destacar aqui quatro delas.
1ª O realista reconhece que precisa da sociedade. Basta uma queda de energia prolongada ou uma falha no abastecimento de água para percebermos o quanto dependíamos, sem perceber, do trabalho e da cooperação de muita gente. Nenhum ser humano vive sozinho, e foi isso que Aristóteles quis dizer ao afirmar que somos animais políticos. Ora, se por um lado, o idealista, diante dos defeitos da vida coletiva, tende à frustração porque esperava a perfeição plena, acreditando que isso era possível, por outro lado, o pessimista conclui que a vida coletiva não vale a pena porque a perfeição plena não é possível. Se não é possível ter tudo (a perfeição plena), então é como se não valesse nada. O realista, por sua vez, tende a reconhecer as falhas da vida em sociedade e, ainda assim, reconhece que não existe vida humana plenamente realizada fora da convivência social.
2ª O realista procura compreender a verdade efetiva da vida política, e não apenas imaginar como ela deveria funcionar. Isso significa entender os limites de cada cargo, os conflitos de interesse, as instituições, em vez de perguntar apenas “quem é o candidato certo?”.
3ª O realista sabe que os seres humanos são capazes tanto de grandeza quanto de horror. Diante de uma notícia de violência, o idealista tende a reagir com espanto, como se aquilo fosse um desvio incompatível com o que a humanidade deveria ser. E torce por medidas drásticas para resolver tal problema de forma definitiva. O pessimista reage com resignação: “o ser humano é assim mesmo, sempre foi e sempre será”, “isso é o fim dos tempos”. Já o realista, com seu olhar mais integrador da realidade, entende que os seres humanos são capazes tanto de uma coisa quanto de outra, e que as circunstâncias podem fazer com que as pessoas produzam tanto coisas grandiosas quanto coisas horrorosas.
4ª O realista participa da vida política mesmo sabendo que a mudança é lenta. Mais que isso, ele sabe que aquilo que já foi construído não se conserva sozinho. Uma sociedade mais justa não é um estado definitivo, garantido para sempre: ela pode se deteriorar se ninguém cuidar dela. Por isso, a vida política exige participação, vigilância e responsabilidade contínuas. Nenhuma conquista política está garantida de uma vez por todas. Essa constatação também nos aproxima de Maquiavel e de sua desconfiança diante da ideia de depositar em um único indivíduo a responsabilidade pela construção e conservação de uma sociedade.
Onde o pessimista vê o mesmo problema e conclui “não adianta participar”, o realista vê o problema e pergunta “como isso funciona, e o que dá para fazer a partir daqui”. Ele participa apesar dos limites, não porque acredita que eles vão desaparecer.
É por isso que considero essa a postura mais funcional diante da política. Não porque ela seja milagrosa e, com isso, resolva os conflitos ou garanta acertar no candidato certo. Porém, é porque ela possibilita sustentar valores, convicções e ideais sem exigir que a realidade se torne a qualquer custo aquilo que gostaríamos que fosse.
Uma imagem que só existe porque alguém quer comprá-la
Talvez, se a maioria das pessoas assumisse mais a postura realista diante da política, os candidatos não precisassem investir tanto em marketing e publicidade eleitoral. Boa parte dessa indústria marqueteira se alimenta exatamente daquilo que quem assume a postura idealista mais deseja: uma imagem de perfeição, de pureza, de solução definitiva.
Seria fácil demais culpar apenas os políticos e seus marqueteiros por isso. A imagem construída numa campanha não nasce no vazio. Ela responde a desejos, medos e esperanças de quem vota. O candidato vende uma imagem. Mas essa imagem só funciona porque existe, do outro lado, alguém disposto a comprá-la.
Acredito que seria uma postura bastante realista e funcional, antes de perguntarmos por que os políticos precisam parecer o que muitas vezes não são, perguntarmos por que nós precisamos tanto que eles pareçam.
Talvez a resposta esteja menos na ingenuidade do eleitor e mais numa inclinação natural: preferimos o conforto da promessa à exposição do limite. Já escrevi sobre isso aqui: https://joaoaparecido.substack.com/p/as-pessoas-gostam-de-ser-enganadas?r=8pgu8n.




