[Curadoria de Luís Araujo Pereira]
[1]
d
Vida que não é presente,
com lugar ou tempo entre,
vida à Bahia e São Paulo
tem clima diverso e amargo.
É mais de morte, é severo
à pele o clima do norte.
O sul tem clima de lâmina:
é frio, penetra e some.
De amor ao clima baiano,
do norte o mais puro e alvo,
dormiremos a Salvador
embora o corpo a São Paulo.
Como a pessoa do norte,
direta, lembra mais forte,
as gentes que se separem
estarão ao lado norte.
(Tendo mais luz a Bahia
grava firme sua imagem –
duram mais dentro dos olhos
seus traços de limpo lápis).
Ciclo de navegação, Bahia e gente (1963-1975)
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[2]
Canto IV
O homem-senhor tem existência
Sobre posses e governa.
Boca estreita, de algarismos,
Corpo de lodo e pedras.
Grito de lobo e lâmina,
Memória de cifra e boi,
Fome extinta e lucros feitos
Dos que, sobre a terra, trabalham presos.
(O homem-senhor reina
Mas, coitado, nem sabe
Que todos os reinos caíram ontem.)
Não sabe ele as palavras
Em trânsito e a vida,
Lavra de ouro e comércio,
Nosso medo e vosso espanto.
Tudo, avisamos, em trânsito,
(As relações de trabalho)
Pastos, pontes, rios e posse.
Avisamos o tempo de homens claros.
Inquisitorial (1965)
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[3]
Algumas fantasias
II
Hoje eu vi uma moça andando pela rua
Querendo, que não me ouça,
Que a visse andando nua
Quisera o sol mais claro
De todo o seu tempo de sol
Para que desde aquela hora aquela moça ficasse gravada
em meus olhos
E quando todos os emboras se fossem
Eu estivesse ainda com ela eternamente e só
Confissões de Narciso (1995)
[4]
IV
Expulsaram as nuvens com a queimada das florestas
Queimaram o mel e as cinzas são pássaros sem asas
Que os ventos espalham como Oiá espalhou as folhas
Pelas auroras que agora não têm as flores
Tudo devastado pelo olhar nefasto do Deus Homem
O inventário eu peço, como quem pede ao bem-amado
Cama de malva, travesseiro de lua, olhos de alvorada
Peço em joelhos, humilde nocauteado desses Tysons
Peço o inventário das plantas e das auroras
Peço a exumação do corpo azul do tempo
Peço a reinvenção dos fitocromos devassados
Pelos tratores da inquisição dos jardins e campos
Peço pelo espanto de Gagarin e a dor das baleias
Peço pelos seres que sereias não são
E pela invenção dos seres que são humanas teias
Entre o mito e a dor da nossa condição.
Uma canção de amor às arvores desesperadas (1996)
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[5]
Versos enviesados
VI
Paris ficou mais velha
Moscou ficou mais moça
O paraíso da forca
É a força da primavera
Vis-à-vis, olhando a mosca
Fiz o que deu na telha
Parisse eu uma velha
E a morte levasse a moça
Antes fechasse o ciclo
Invertendo velho e novo
A gente vai ser menino
Pra depois entrar no ovo
O que somos, o que eu sou
É amor demais feliz
Que diz amor depois do amor
E dá romã em flor de lis
E que floresça romance
Cresça manso o aprendiz
Um beijo de alcanfor
Num forasteiro nariz
A França já foi criança
A Rússia foi anciã
Eu tenho agora a lembrança
Do que serei amanhã
Poemas (1996)
José Carlos Capinan nasceu na cidade de Esplanada (BA) em 1941. Reside em Salvador. Formou-se em pedagogia e medicina. É poeta, letrista, dramaturgo e membro da Academia de Letras da Bahia. Integrou o movimento tropicalista. Foi um dos fundadores do Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE). É autor da letra da canção “Ponteio”, com música de Edu Lobo, que venceu em 1967 o Festival de Música Popular. Como letrista, é parceiro de Gilberto Gil, Tom Zé, Caetano Veloso, Edu Lobo, Geraldo Azevedo, Jards Macalé, João Bosco, Paulinho da Viola, entre outros. Em 2025, o Sesc lançou o disco Cancioneiro Geral – Tributo a Capinan, com participação de Jards Macalé e Renato Braz. Além da peça Bumba meu boi (1963), escreveu os seguintes livros de poemas: Inquisitorial (1966), Ciclo de navegação, Bahia e gente (1975), Estrela do norte, adeus (1981), Poemas (1987), Confissões de Narciso (1995), Uma canção de amor às árvores desesperadas (1996), Balança mas hai-kai (1996), Poemas (antologia, 1996) e Vinte canções de amor e um poema quase desesperado (2014). Em 2024, com organização de Claudio Leal e Leonardo Gandolfi, o selo Círculo de Poemas lançou Cancioneiro geral (1962-2023) que reúne sua obra literária e uma seleção de letras de canções.





